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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Histórias com receitas e mezinhas - 10

 Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.118 - 14 de Abril de 2011

Histórias com receitas e mezinhas - 10

 “A sopa de feijão com funcho e bolo na panela”

 

 

 

Naquela época do ano em que chegamos à Terceira, entre as muitas plantas que bordejavam a estrada, que ligava o aeroporto e a cidade de Angra, predominavam as “bela donas”, em flor, que de um lado e de outro acompanhavam os vinte e quatro quilómetros do percurso, pode dizer-se – sem falhas.

Soube mais tarde que lhes chamavam “meninos da escola” por aparecerem com o começo das aulas.

Para além da beleza, o perfume intenso, impunha-se.

O motorista do táxi, simpático, logo, logo, pareceu-me até bonacheirão, percebeu imediatamente que éramos “do Continente” e foi falando, falando, “atirando a rede.”

Eu bebia a paisagem com os olhos, e, embora pouco atenta apercebia-me do monólogo.

“que os açorianos acima de tudo eram portugueses e, só açorianos depois, que o governo de Lisboa, parecia não saber isso, e mais isto, e mais aquilo, com seu tom jovial de mal disfarçado queixume ...

Comentei – para mudar de tema - a quantidade de melros que esvoaçavam quase rente ao chão por entre as plantas e, fui informada que dantes era, também, assim com os canarinhos, mas que um elemento da Força Aéria - do Continente – esclareceu, levara pardais para a ilha e que os pardais comeram os canarinhos a ponto de quase os extinguirem.

 

 

 

Os prados eram verdes repartidos em rectângulos como gigantescos panos de bilhar, o ar era fresco e doce, tinha chovido havia pouco e dois arco-iris riscavam o céu.

Tudo era perfeito, mas, curiosamente senti-me parte dos “ pardais invasores”pois que qualquer coisa na forma, embora delicada de falar, me alertou para esse “pecado original de ser do Continente”.

Verdade que ali era Portugal, acima de tudo; que éramos portugueses, mas não deixávamos de ser alentejanos caídos do céu bem longe do nosso canto, o que refinava e agudizava a nossa atenção a tudo quanto nos rodeava.

Afinal, a adaptação foi fácil, embora o sentimento captado “ab initio”, não se desvanecesse de todo.

Em alguns muros e paredes ainda permaneciam, os letreiros meio apagados de - fora com os continentais! – como vestígios do 25 de Abril.

E… assim começaram quase quatro anos de vida feliz, em que se criaram amigos que estes trinta anos passados permitiram conservar e estimar apesar do tempo e das distâncias.

 

 

Trocaram-se experiências, conhecimentos, sofremos unidos o

sismo de 1980, fizemos refeições em comum com comidas típicas das nossas  regiões  de origem, e, em troca da receita da nossa sopa de carne com grão, vagem e batata ( das comidas de ganhão) que fez as delícias do paladar de todos , sem excepção, recolhi a receita do feijão com funcho e bolo na panela que é realmente – típica da Terceira – e deliciosa com seu quê de gosto a anis.

“ Sopa de feijão com funcho e bolo na panela”

Coze-se o feijão no caldo das carnes de porco – chouriço, chispe, magrão, orelha, (o que houver), e também as “batatas da terra, as batatas doces, e o funcho migado em abundância como se faz para caldo verde .

Quando este cozido estiver pronto retira-se-lhe uma boa porção de caldo que se côa e, com o qual se escalda uma mistura de farinha de milho e de trigo, na proporção de duas de milho para uma de trigo. Amassa-se com o caldo que se vai acrescentando à medida que for necessário até se puderem tender os “bolinhos”do tamanho e almôndegas, que se põem a cozer dentro do caldo das

carnes e do feijão.

Vai depois a sopa do feijão à mesa, acompanhada com as carnes partidas, numa travessa, rodeadas pelas batatas e pelos bolinhos deste maravilhoso manjar, genuinamente açoriano.

 

 

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