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Histórias com receitas e mezinhas - 11

Quinta-feira, 05.05.11

 Jornal Linhas de Elvas

Nº 3121 --  5 Maio de 2011

Histórias com receitas e mezinhas - 11

 “O ensopadinho à pastora"

 

 

 

 

Eram tempos de pobreza aqueles anos 30, 40.

 

Quando a idade já tolhia o movimento das pernas e as mãos deformadas pelo trabalho duro e pelas artroses já se negavam a obedecer cumprindo até as simples tarefas rotineiras, os pobres ficavam dependentes da caridade alheia, pedindo de porta em porta.

 

A mendicidade era a sua reforma.

 

O pão, o queijinho duro com seu travo de cardo, as “zétoninhas, um “cadinho de toicinho”, uns torresmos das comedorias, uma açordinha no Inverno, uma boa vinagrada no Verão, eis o sustento frugal dos pastores e assalariados que cuidavam da lavoura por esse Alentejo a dentro.

 

Se, porém pernoitavam nos montes lá os esperava para a ceia a “gravançada” aconchegante e quente condutada com a”bóia”que os patrões forneciam à discrição.

 

Este ritual só era quebrado no Natal, ou em festas de casamentos ou baptizados em que se sacrificavam alguns “bicos” da criação para a canja e cabidela, ou algum borrego que os patrões oferecessem para o ensopado do domingo de Páscoa.

 

Então a garotada que vivia de pão na mão, às vezes já bem duro de roer, untado com banha e açúcar nos dias mais fartos, sonhava longamente com o perfume que havia de emanar da panela a fervilhar no lume de chão.

 

E, era o motivo da conversa ao serão num gozo antecipado da anunciada abundância sempre ausente no dia a dia comum.

 

As crianças chegavam a brigar querendo que pai e mãe dissessem quem serviriam primeiro, quem comeria mais sopa, quantas presas de carne ganharia cada um.

 

Às vezes iam deitar-se a toque de sopapos dos pais para calar os acalorados despiques.

 

  Chegado o dia colhiam um belo ramo de hortelã, nem que fosse silvestre, à beira da ribeira, ou mansa no “crinchoso”onde também criavam salsa, erva cidreira e coentros as leiras de alhos e cebolas e outros temperos.

 

Sendo parcos os proventos, parca de temperos teria que ser a receita, porém engenhoso como poucos, como se fizesse o milagre dos pães o gostoso ensopado à pastora iria render para vários dias porque o caldo farto e o pão lá estariam de facto para a multiplicação…

 

 

Ensopado à pastora

 

Põe-se a carne partida em bocados ao lume numa panela com água temperada de sal.

 

Quando a água começa a ferver a carne começa a espumar. Com a colher de pau, ou com a escumadeira vai-se retirando essa espuma que se rejeita e deita fora.

 

Quando deixa de espumar, tempera-se o caldo com umas goladas de azeite, dentes de alho e umas folhinhas de louro. Deixa-se ferver até cozer. Então, acrescentam-se batatas cortadas às rodelas.

 

Quando estiverem também cozidas o petisco está pronto para ser deitado, a ferver, sobre as sopas de pão cortadas finas com seus fartos ramos de hortelã a incensa-las.

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 21:10


2 comentários

De Xavier MArtins a 05.05.2011 às 23:29

Boa noite D. Maria José
Cá estou eu.
Já tinha lido no Linhas - porque eu não falho
em cada 5ta feira - mas na verdade - só fico
contente SEMPRE que vem com artigos seus.
Estou sempre com vontade de ler artigos seus.
Os deste blog já estão todos lidos e relidos.

Mais uma vez - Os meus Parabens.
Com amizade e admiração

Xavier Martins

De KIKO a 06.05.2011 às 12:28

Oh Tia
Tam aqui coisas fabulosas -
só tenho mesmo que aprender.
beijinhos
KIKO

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