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Um conto recontado

Segunda-feira, 16.05.11

 Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.051 – 13 de Julho de 1990

CONVERSAS SOLTAS  

Um conto recontado

 

Nesta premeditada reconquista do meu espaço de liberdade e reflexão, fruindo tranquila, os meus tempos de silêncio – vêm-me à memória pessoas, factos, histórias e tudo o mais que constrói e diferencia, o percurso de qualquer vida.

Há pouco tempo, na Manta-Rota, sentada num terraço olhando o mar, naquelas horas em que, se calhar, até os camaleões dormem a sesta nas pioneiras – porque no Algarve, no Verão, é um forno – e o resto é lenda – fui alertada por um barulhinho intermitente. Olhei e vi que provinha de duas flores de buganvília, já secas, que a brisa marinha arrastava sobre a tijoleira do chão.

Ocorreu-me então, uma daquelas historinhas que vou recontar e que antigos contavam às crianças, quando a educação era feita em família e cada qual, guardava depois, vida fora, de suas origens, um cunho de formação particular e próprio – quase como uma marca de qualidade moral.

Eram intencionais, mnemónicas, romanceadas para gravar mensagens, que serviriam, como balizas de comportamentos futuros.

 

“Dois lenhadores encontraram-se certa vez, no mato, bem longe do povoado. Eram de há muito inimigos. Travaram-se de razões, a discussão azedou, e um deles matou o outro à facada.

Antes de sucumbir aos ferimentos, disse o moribundo:

- Tu pagarás! – que Deus tudo Vê!

- Quem me acusará, se ninguém está aqui para contar?

Só se forem estes carrasquinhos – disse escarninho o assassino, dando um pontapé nas humildes ervas, e deixando o infeliz a agonizar, regressou à sua vida como se nada tivesse acontecido.

O crime ficou impune e foi esquecido por não se ter descoberto o seu autor.

Anos depois, num dia de grande temporal, ficou o lenhador em casa por não poder trabalhar. A certa altura, da valeta da rua, já cheia pela enchurrada, entrou-lhe por debaixo da porta um bocado de carrasquinho que as chuvadas arrastaram desde o campo até ali.

Ao vê-lo o homem começou a rir, num riso mau, lembrando-se do crime que em tempos cometera.

Intrigada com o destempero das gargalhadas, a mulher, indagou-lhe a causa e ele, revelou a velha história como quem conta uma anedota divertida.

Nessa noite, a mulher, não conseguiu adormecer com a tristeza e, ao outro dia ao varrer a casa apanhou do chão o carrasquinho ficando a olha-lo e a chorar pensativamente.

Então decidiu-se e, com a insignificante erva na mão, foi contar o caso às autoridades.”

 

Afinal o mudo carrasquinho, com a ajuda do vento e da chuva viera, do passado, dar testemunho dum crime que  só o céu presenciara.

 

Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:22


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