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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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“O debulho” - 13

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.125    2- Junho  2011

Histórias com mezinhas e receitas 13

“O debulho”

 

Não pudemos passar o Natal, no Continente, aonde tínhamos vindo por umas curtas férias.

Deixamos a família a acenar no aeroporto e, lá fomos, rumo à Terceira, com uma sombrazinha no coração por estarmos na véspera do primeiro Natal que iríamos passar longe da família.

Cada um de nós fechado nos seus pensamentos, apenas esboçava breves sorrisos quando nos olhávamos como se cumpríssemos um código de silêncio. 

Era dever, era dever.

Mas… há deveres prazeirosos e há deveres dolorosos e, aquele era desses.

A viagem de avião, não era longa. Já era rotineira. Esperava-nos a nossa casa no “Pico da urze”onde, aliás, até gostávamos de viver.

O sítio era bonito, era num alto, e, das traseiras tínhamos para regalo do olhar, os cercados, como se fora o nosso quintal, com a placidez dos prados verdes até perder de vista.

Completavam o cenário as vacas que mudavam de cerca em cada dia para que a pastagem se fosse renovando.

Olhá-las, dava paz. Pachorrentas, tranquilas deitavam-se a ruminar com aqueles seus grandes olhos parados como se fixassem qualquer coisa que só elas viam.

Vinha o tratador pela manhã e pela tardinha, mudava-as de cerca, deixava-lhes a ração e partia.

Comiam, dormiam e pariam, soltas, no prado dia e noite. Por via de regra tudo corria bem, mas também vi nascer vitelos mortos e sob a carinhosa troça de meu marido acompanhei, rezando sem descanso a pedir ajuda aos santos protectores dos animais, alguns desses acontecimentos.

Quando foi do cismo em 1980 vi-as correr desvairadas para o cimo do cerro saltando as pedras que rolavam dos muros que se desmoronavam e, com elas, na correria, ratos e toda a bicharada que por ali vivera oculta até então.

Foi uma visão de fim de mundo.

Mas… o que eu me propunha contar é que à chegada, à nossa casa tínhamos uma terna surpresa à nossa espera.

A senhora que nos ajudava trabalhando para nós, a querida Daria, que após o cismo emigrou, tinha-nos deixado uma cesta cheia de camélias sobre a mesa, com prendinhas de “São Nicolau” e, na “frisa,” como ela também dizia, uma refeição de festa, completa, incluindo o bolo de Natal típico da Terceira.

Claro que me desfiz em lágrimas enquanto meu marido sorria chamando-me piegas, mas com os olhos brilhando húmidos, que eu bem vi...

Então, agora, nesta mostra de receitas, que guardo na minha lembrança como cartas de amor atadas por laços de fita, ao desdobrar, para partilhar, mais esta, para que nada lhe falte, pedi pela Internet, a essa Amiga que nunca esqueço, que, do Canadá, me desse a confirmação de como se prepara o “debulho”que fazia parte do abraço de amizade que nos aguardava nesse inesquecível regresso a Angra.

É com o “debulho” que se recheia o peru pelo Natal, embora também possa ser usado como iguaria, como um paté, desde que cozinhado em tabuleiro e depois utilizado como qualquer outro alimento, ou, até, como prato frio para piqueniques e merendas.

 

                                     Debulho

Cozem-se os miúdos das aves. Coração, moelas, “gargalos”, (pescoços) chouriço, e, se houver, algumas aparas de bife ou de outras carnes. Depois de cozidos com tempero de cebola e alho, desfiam-se as carnes .

Faz-se um refogado com cebola , alho uma folhinha de louro e azeite.

Quando pronto juntam-se as carnes picadas e uma porção de pão migado já demolhado e bem amolecido com caldo da cozedura dos miúdos. Refoga-se tudo muito bem.

Moe-se depois tudo junto e mexe-se misturando muito bem. Juntam-se dois ou três ovos para ligar, conforme a porção.

Então tempera-se com noz moscada e pimenta.

 Verifica-se o sal. Juntam-se os fígados moídos em cru

e, já fora do lume, azeitonas descascadas partidas aos bocados.

Pode ir então ao forno em tabuleiro untado para cozer os ovos e alourar por cima.

Come-se como recheio ou acompanhamento do peru assado, ou como qualquer paté.                             

 

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