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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Lembranças da Guarda

 Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.900 – 7 de Agosto de 1987

A La Minute

LEMBRANÇAS DA GUARDA

 

 

Com todo este calor é mais fácil, para mim, ficar aos sábados e domingos no sossego do meu canto, cuidando de coisas que descuro durante a semana, ou projectando trabalhos a fazer.

Como já não sou tão jovem que só sonhe futuro, muitas vezes me surpreendo a avaliar e comparar coisas passadas.

É esse um grato privilégio dos anos – amealhar experiência.

Hoje, a propósito de não sei o quê, lembrei-me da cidade da Guarda onde as tílias e as roseiras mais tarde do que na nossa região, e onde mesmo nos meses mais quentes de Verão, pelas manhãs e tardinhas, corre um arzinho que fala de serra e altitude.

Dai que tivesse evocado aquele dia de S. Pedro de 1986 quando pelas fontes, serra acima, vultos de mulheres saiam das sombras dos castanheiros frondosos, e ofereciam à cobiça de quem passava, colares fartos, entrançados como resteas de cebolas, mas feitos de cerejas maduras e carnudas, vermelhas e apetitosas como pecados.

Recordei depois as minhas longas manhãs de lazer (ainda não tinha casa) passadas a calcorrear, palmo a palmo, cada rua, cada recanto, fazendo a escolha dos “melhores lugares” para os anos que lá vivesse.

Um dos que mais me agradava, era um pequeno parque com uma velha casa senhorial, abandonada, com as paredes de granito recobertas de trepadeiras e musgos, que a humidade ambiente mantinha verdinhos e macios.

Do outro lado da rua havia um muro baixo.

Sentava-me lá e ficava tempo e tempo a “habitar” aquela casa com os fantasmas de amor que, como toda a gente, trago comigo.

“Via” minhas tias fazendo renda por detrás das vidraças.

“Via” fumo a sair das chaminés,

“Via” as minhas crianças a correr pelo parque por entre as árvores com o cão, na brincadeira…

 

Notei então que uma mulher de pobre aspecto, passava por ali à mesma hora todos os dias, e pousava por instantes a lata dos desperdícios que carregava, sobre o muro, para descansar.

Uma vez sentou-se a meu lado. Sorriu com modéstia e disse com simpática curiosidade:

-- V. Exª., não é de cá?

Confessei que não, mas que estava encantada com a terra dela.

-- Obrigado! – Respondeu e insistiu – De onde é V.Exª.?

Elucidei-a. Então, quase como a desculpar-se disse-me com amabilidade:

-- Nunca saí daqui, não conheço a terra de V.Exª., mas é, concerteza , também muito bonita !

E enquanto, comovida, eu lhe agradecia, ela com a lata à cabeça a brilhar como uma coroa, foi ao seu destino, e eu guardei-a comigo até agora!

 

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