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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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A PROPÓSITO...

Á lÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2029 – 9 de Fevereiro de 1990

A PROPÓSITO

 

 

 

TIA SUSANA, MEU AMOR – é um belo livro de Alçada Batista, que acabo de reler com o mesmo interesse que já me suscitara da primeira leitura.

Que isto de gostar ou não de livros, tem que se lhe diga.

Cá por mim, até que me convençam do contrário, penso que a preferência com que se distingue um livro, ou este ou aquele autor, se filia no mesmo critério que na leva a escolher alguém para o nosso convívio.

Tem, penso, muito que ver com afinidades.

Pessoalmente, prefiro autores que escrevem como quem conversa, em tom coloquial. Que dizem o que têm a dizer sem empolamentos, sem teatralizar. Que contam as suas histórias deixando fluir as palavras como sendo as inevitáveis, como os rios que correm, porque têm de correr e mais nada.

Gosto que tratem os sentimentos sem espantos, como coisas naturais, coisas da vida que são, como é o nascer e morrer, o amor e o desamor.

Gosto quando não assumem a posição de juízes que se crêem fora de todas as contingências desagradáveis, porque essas, só são pensáveis para os outros.

Claro que também leio “os outros” como também me encontro e desencontro com “os outros” , que, só assim, é possível a escolha.

Nem é desses que falo. Refiro os outros que, como algumas pessoas, no segredo da nossa eleição, podemos considerar de: - íntimos, nossos!...

 

Jorge Amado, Eurico Veríssimo e muitos outros mais, também são desses. Dos que parece que sabem tudo de si próprios e por isso chegam tão bem à compreensão de toda a gente.

Não inventam histórias importantes, de maravilhar ou arrepiar. Falam da vida e, cada qual com a sua capacidade, encontra os sentimentos que lhe são próprios para as situações imaginárias. Autores que são capazes de ser humanamente fraternos, com os erros e grandezas de gente como eles mesmos, nunca se esquecem o que são.

 

Daí, talvez, que algumas personagens que erguem, se nos tornem tão familiares que quase nos pesa não termos os seus retratos à cabeceira, na parede da sala ou, tê-los na vizinhança ao nosso lado para virem à nossa casa de pantufas, irem atrás de nós à cozinha fazer um café, ou, adormecerem calmamente sentados na poltrona que escolhessem, ao serão, quando a conversa esmorecesse – tão reais se nos tornam!

 

É desses autores que eu gosto particularmente, daqueles que acreditam que confessado ou não, ninguém desdenha a fraternidade.

 Talvez até se escolham livros e amigos que nos ajudem na procura da nossa plena identificação. Afastamo-nos de quem nos agride e faz descer nos ideais que perseguimos.

 Talvez até, tudo aconteça em torno de um dado intrínseco, atávico, talvez, que pode ou não estar identificado na nossa consciência – a solidão de ser.

 

Talvez, mesmo a vida, seja simplesmente o percurso que nos levará até reintegrar na dimensão de infinito ou eternidade perdida para se poder dizer – Eu.

 

Talvez como essa individualização – ser é estar separado – nasça a irremediável solidão de ser que deslumbra e doe, mas dá campo à esperança, à fé, à compreensão, à ternura, à solidariedade, e a todos os sentimentos generosos e grandes que podem unir os homens durante a sua humana solidão.

 

 

 

Maria José Rijo     

 

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