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As nossas conversas

Sábado, 08.10.11

 Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.913 – 6 de Novembro de 1987

 À LÁ MINUTE

 AS NOSSAS CONVERSAS

 

 

O Verão estava no fim, toda a gente debandava da praia e os garotos, lá de casa, andavam enervados, quezilentos – insuportáveis de verdade com a falta dos companheiros de brincadeira.

Da nuvem multicolor de guarda-sóis, sobravam um ou dois sobre o areal, o que, para as crianças tornava a praia mais triste do que se estivesse vazia.

Peganhavam por tudo e por nada, desde a troca dos copos à cor dos pratos, da escolha das cadeiras à mesa.

 

Em resumo: - tudo quanto servia para unir um “bando” desunia agora os 4 ou 5 lá de casa.

Então, numa noite calma de belo luar, propus que experimentassem passear.

Aonde? – Com quem? – Em que carro? – Foram as perguntas imediatas.

Ao acaso, comigo e a pé. – Foi a resposta.

 

Mais ou menos a rabujar, tentamos a 1ª experiência.

Lá fomos.

Fomos precisamente pelos caminhos que todos fazíamos dúzias de vezes ao dia.

Eles intrigados – eu calada.

A certa altura – uma voz pouco amistosa inquiriu – foi para isto que nos convidou?

Foi – respondi, e comecei então a contar como eram dantes aqueles caminhos, como eram as casas, os costumes das pessoas que por lá moravam e como tudo se tinha transformado ao longo dos últimos trinta anos.

 

Contei como eram os nossos serões, passados nos pátios das casas, conversando, rindo, sem luz de candeeiros, quando sequer havia bom luar.

Falei-lhes das noites de “ardentia” que é como os pescadores designam o plâncton que põe o mar negro de algas e cheio de ondas luminosas como chamas.

Contei que a mãe de um deles, então pequena, como eles são agora – se comovera vendo que as pegadas na areia molhada à beira mar, eram luminosas e dissera: “ Deve ser assim o rasto de Nossa Senhora”!

Enfim! – Andamos, conversamos e, já perto de casa, frisei: daqui a uns anos, talvez, algum de vós distraia um filho vosso, ou um neto, contando como foi bom passearmos juntos, só porque gostamos uns dos outros e dá prazer sentir esta alegria de conviver.

 

Se calhar dirá que foi bom descobrir que não é necessário barulho ou multidão para uma boa distracção…Que saborear a presença de alguém de quem se gosta e gosta de nós, falando com simplicidade de pequenas coisas que nos comovem, nos deram alegria ou sofrimento, nos ajuda a perceber que viver é um bem inestimável que nos torna mais felizes e compreensivos.

 

 

 Ora não é que isto se passou no Verão de 86 e o Pedro me telefonou esta semana para dizer:

 

-- a tia este ano não foi à praia e a Chica e eu temos tantas saudades das “nossas conversas”! - - Venha cá”

 

O Pedro tem 10 anos, um coração doce, umas pernas de Bamby, escanzeladas e cheias de nódoas negras, uns olhos escuros e redondos do tamanho da esperança de todos os meninos – e uns bracinhos magros que, quando abraçam, apertam o nosso pescoço como turquêses e nos dão ganas de viver.

 

 

 

Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:58


1 comentário

De Xavier MArtins a 10.10.2011 às 01:12

Muito boa noite D. Maria José
Acredito deve ter pensado, neste leitor de todos
os dias.
Passo a contar a razão da minha ausencia.
Pois bem, aqui este seu amigo, sentiu-se mal.
Pois foi e vá de ir para o hospital, pois bem - o
resultado é que estive internado no hospital em
Lisboa, é que imagine, a minha máquina necessita
de ajuda para caminhar - então - cá vamos
colocar uma pilha - o marca-passos como dizem
os nossos hermanos.
e então cá estamos em Lisboa em casa de uns
queridos amigos que nos estão ajudando.
Talvez para a semana lá vamos outra vez dar
uma vista de olhos e saber se já há autorização
para tal operaçãozita.
Cá aguardo- hoje como não me sinto tão
debilitado vim cá dar uma olhadela.

Fiquei contente - adoro ver como o seu blog
cresce a cada dia.
Felicidade e até amanhã se Deus quizer...
Um grande abraço
deste seu admirador e seguidor deste blog

Xavier Martins

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