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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Entrevista - Dezembro de 2011

Entrevista

29 de Dezembro de 2011

Jornal Linhas de Elvas Nº 3.155

 

 

Costumes gastronómicos de Natal

À mesa todos fizeram por manter as suas tradições

 

A crise não impediu que os portugueses cumprissem as tradições
gastronómicas do Natal, com as vendas de bacalhau, frutos secos e doces a irem
ao encontro das expectativas do comércio tradicional.

O Linhas quis saber quais são as tradições de Natal junto de
quatro entrevistados que aceitaram o repto lançado de partilhar com os nossos
leitores quais são os seus costumes familiares, os gostos gastronómicos e as
diferenças de um Natal vivido na sua terra natal ou, em contrapartida, na
cidade onde residem há largas décadas.

Do norte ao Alentejo ou de Elvas à Aldeia de Santa Vitória, em Beja,
foram percursos únicos contados na primeira pessoa, sobretudo, com base nas
recordações de infância que lembraram histórias felizes, de dificuldades e até
daquele anseio pela chegada do Menino Jesus ou do Pai Natal.

 

 

 

Maria José Rijo, 85 anos

“Peru era um mártir no Natal nos lares abastados”

 

O quente da salamandra afasta por momentos o Inverno, que acaba de chegar,

e a companhia fiel da poetisa Maria José Rijo, a gata Kika, haveria de escutar,

descansada, na sala da residência onde revisitámos o Natal de outros tempos.

Maria José Rijo nasceu em Moura, mas foi na Aldeia de Santa Vitória, em Beja,
onde cresceu e melhor se recorda da época natalícia e das tradições
gastronómicas vividas no Baixo Alentejo.

 

“Em qualquer uma destas terras, especialmente nas casas abastadas, o peru
era um mártir no Natal, mas noutros lares era o frango ou a galinha que pagava
as favas porque o peru era muito caro”, conta-nos.

Naquele tempo já o arroz doce, os sonhos, as filhós e os pastéis

com recheio de abóbora ou de batata doce acompanhavam o espírito

natalício da época – hoje completamente diferente daquele tempo.

“Agora fala-se imediatamente em Natal e as pessoas enlouquecem com as
compras quando no meu tempo não era assim. Compravam-se os chocolates para dar
às crianças, éramos miúdas nesse tempo – a minha irmã, os meus primos e eu – e
aquilo que recebíamos eram os chocolates, uma ou outra peça de vestuário mais
bonita, que iria servir à mais velha, e depois passava pelas outras todas”,
refere Maria José Rijo.

Na quadra festiva organizavam-se pequenas récitas de Natal ao estilo de
curtas peças de teatro, “algo ingénuas”, assentes numa poesia de João de Deus,
que a mãe da poetisa sabia de cor.

“Ensaiavam-nos umas coisinhas para nós encantarmos as visitas e para isso
contribuíam também a roupinha a par dos lacinhos na cabeça que nos faziam ficar
muito bem compostas”, disse.

No Baixo Alentejo desde sempre que à mesa existem as comuns fatias
douradas e os nogados. Em Beja, por exemplo, os nogados fazem-se com amêndoa e
mel, sendo depois colocados em cima de folhas de laranjeira, conferindo “um
certo perfume e requinte de beleza”, parecendo-se com “pequenos rebuçados”,descreve.

 

Mas, tal como explica Maria José Rijo, na gastronomia de hoje “o coração
das coisas é o mesmo mas por fora exagera-se no doce, esquecendo-me daquilo a
que estava habituada, ou seja, dos bolos puros. Compram-se mais coisas feitas e
vive-se, sobretudo, para o efeito visual”, justifica a experiente poetisa.

As diferenças para a sociedade de hoje são consideráveis, pois se naquele
tempo as tabletes de chocolates com uma pequena nota colocada por debaixo de
uma fita satisfazia o desejo da pequenada, hoje o quarto dos petizes mais se
assemelham a uma loja de brinquedos.

“Todas as crianças tinham um mealheiro e ninguém dispunha do dinheiro sem
perguntar aos pais, que nos aconselhavam a guardar, o que, por um lado, nos
ensinava a suster o impulso de gastar em detrimento de juntar para algo
melhor”, sublinha.

 

Para Maria José Rijo, os mais novos estão hoje “afogadas em excesso, o que julgo

ser altamente deformador do carácter de qualquer criança. É impossível que qualquer

criança cresça com sentido de justiça e com senso do que é essencial ou supérfluo

quando tudo lhes é dado de uma só vez e, por isso, estão afogados em desejos e

caprichos sem tom nem som”.

 

O Natal, este ano, tal como no ano passado, foi passado na companhia da
Kika, a fiel gatinha de Maria José Rijo, que por ser gata não merece ser
traída” nesta altura só pela sua condição animal quando no restante período do
ano “vive aqui só, não passeia e está sozinha comigo”.

Da família, que se disponibilizou a vir buscá-la no Natal, recebe
telefonemas com frequência, mas, como explica a poetisa, “eles compreendem que
preciso da minha comodidade, do meu canto, do meu sossego até porque a saúde já
não me permite grandes avarias”.

Para este período ainda contagiado pelo Natal e numa altura em que se
aproxima o novo ano, Maria José Rijo sugere que “cada um deve olhar para dentro
de si próprio e fazer uma certa introspecção à procura do sentido das coisas e
da coragem para fazer o que se pensa que está certo”.

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