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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Luto

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.980 – 3 de Março de 1989

A La Minute

LUTO

 

Quase inadvertidamente, escrevi a palavra “luto” como cabeçalho deste apontamento. Detive-me, depois, a pensar nela sem saber bem o porquê da sua escolha, mas subitamente entendi que nenhuma outra caberia ali, em seu lugar.

Não que eu tente, ou sinta que deva fazer aqui, qualquer elogio fúnebre. Outros, com mais direito, para tal, e bem melhor o farão.

Não! – Não é isso! O que sinto que me cabe e me leva a falar é a parcela de luto que cabe a cada elvense, mesmo àqueles que ainda se não aperceberam, de como é empobrecedor, de como é triste, de como é irremediável, que “Zé de Melo” tenha emudecido!

Familiares e amigos – choram alguém – que acabam de perder do seu convívio.

Fosse ele quem fosse, havia de ser chorado, que a amizade e amor perdidos, são sempre falta irreparável nas vidas dos que vão restando.

Desta vez, esse Homem que partiuJosé Picão de Silva Tello tinha uma ligação de sabedoria e memória tão enraizada na história da sua terra, que dela podia falar, contar, ensinar e dar testemunho, quase como o lendárioZé de Melo”a quem tomou, de empréstimo, o nome para lhe servir de pseudónimo.

 

Eu estimava este Homem, cuja morte enlutou a cidade de Elvas. Admirava-lhe o saber, a lucida inteligência. Falar com ele encantava; ouvi-lo era escutar a memória viva da cidade e aprender um sem número dessas pequenas coisas de que é feita, afinal, a verdade da vida.

Quando a doença o atingiu, fui visitá-lo à Casa de Saúde – estava nos cuidados intensivos – quando já começara o seu frente a frente com o fim que se avizinhava.

Falou-me com voz segura. Cumprimentou-me com o cavalheirismo e a atenção que comigo usava, quando de visita a sua casa, cavaqueávamos sentados à camilha, com sua mulher.

Não se lamenta. Percebi que mesmo naquelas dolorosas circunstancias, defendia com coragem a dignidade que timbrava a qualidade do seu comportamento nesta vida. Admirei-o mais, por isso, também.

Não sou de grandes frases. Nem elas me parecem justas frente à grandeza de Vida e Morte.

Penso, no entanto, que, mesmo aqueles que nesta hora não sintam, como eu, a falta do amigo, mesmo a essas, cabe a sua quota parte no luto que atingiu a nossa cidade.

 

Maria José Rijo

 

 

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