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QUEM DERA

Terça-feira, 26.06.12

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.044 – 25 de Maio de 1990

A La Minute

QUEM DERA

 

Pela imprensa, rádio, televisão, etc., etc., vou como toda a gente, tendo conhecimento dos problemas que o país enfrenta.

Assim que, graças a Deus, se pode depreender que está tudo bem, muito obrigado! –

Pois que preocupação de norte a sul, com peso para entrevistas de horas e páginas inteiras de jornais são, especialmente, como o futebol.

Sabendo-se que um treinador, num clube de I divisão, aufere ao fim de um mês – sozinho – mais do que, (se calhar?) custa o corpo docente de uma escola – num ano! – porque, verbas de 7.000 contos (de base) a que se juntam prémios de jogos e não sei mais quê, que fazem subir a fasquia aos 10.000 contos mensais – não são motivo de graça – convenhamos!

Quando estas situações são despudoradamente ventiladas como normais – ou – pelo menos, correntes – impõem-se conclusões, tais como:

- os reformados, ao fim do mês, já recebem quanto baste para não se sentirem mendigos?

- os funcionários públicos e outros, já podem pagar os 30 ou 40 contos de prestação mensal do empréstimo que lhes faculta adquirir o T-2, no valor de 3.000, sem terem que optar:

casa ou comida! - os problemas de saúde e assistência estão por certo solucionados…

Porque, se assim não fosse, não faria sentido que qualquer desporto, fosse lá ele qual fosse,
ocupasse tal lugar e importância na vida de uma qualquer comunidade e consumisse fundos

oficiais e particulares de tanto vulto, quando, parte deles, poderiam ser canalizados para empreendimentos capazes de promover justiça social.

O empolamento que a nível nacional, se dá a um determinado desporto é quase psicopático.

O olho mágico, que é a televisão, quando lobriga futebol, nem pisca.

Altera promoções, cala concertos, entrevistas, faz os desvios necessários para servir em directo, o deleite de ver as goleadas e o arrepia de emoção dos já comuns espectáculos, adjacentes, e
violência.

Nero tinha o seu circo.

A história, dele, guardará as cicatrizes.

Do estado pelintra das instalações escolares, do que comem, - ou – se comem – as crianças; dos tempos sem rumo que levam ao álcool, ao tabaco, à droga, os adolescentes, que a frustração perverte por não encontrarem lugar no mundo de todos – não vale a pena cuidar com colectas nos emigrantes, conquista de interesses económicos de particulares, envolvimento nacional…

Para clubes e craques! – Sim! – Isso é que é!

Quem dera, meu Deus, quem dera, uma cidade qualquer que fosse a notícia de se ter organizado na
defesa justa dos valores que promovem o bem-estar das populações…

Onde o desporto fosse a noticia vivido com o significado do seu conteúdo autêntico de fonte de saúde, alegria, prazer, gosto de viver – beleza! – Em lugar de funcionar como o doping que excita, inebria, mas desequilibra, com tudo aquilo que extravasando do seu espaço próprio, ocupa indevidamente o lugar que lhe não pertence.

Quem dera, meu Deus, quem dera!

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 22:00


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