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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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DIVAGANDO...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.043 – 18 de Maio de 1990

A La Minute

DIVAGANDO…

 

Referindo qualquer assunto, que já nem recordo, dizia-me alguém, a rir, com descontraída boa disposição_ “Vozes de burro, não chegam ao céu!”

- Vozes de burro não chegam ao céu? – e porque não? – Pus-me a pensar!

Então o burro tem culpa de ser burro?

E o rato, pode ser castigado por ser rato?

Do rato, o que consta, é que “roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia” – mais, não tenho ouvido falar!

Mas do burro? – O burro não roeu. Teria bebido o vinho da garrafa do rei da Rússia que tinha uma rolha que o rato roeu?

E quem foi que disse que a garrafa tinha vinho?

Será por o burro não ser roedor que a sua voz não chega ao céu? – Sim! – Porque do rato ninguém ainda disse tal cosia, e, dos outros bichos também não.

Então porquê só o burro, coitado, está privado de elevar a voz até ao céu?

É com este tipo de injustiças que não concordo – são antidemocráticas.

Fazem logo entender, má-fé, e má vontade, contra o burro.

Senão vejamos: Burro velho não aprende latim!

Embora se depreenda desta afirmação que em novo, qualquer burro o aprenda, pela forma clara e
evidente como se afirma que só depois de velho é que o burro não pode, ou não
quer meter-se nessas “cavalarias” – o que é que o mundo tem a ver com isso?

Será que todos sabem latim? Se não sabem, para quê e porquê citar só o podre do burro?

“Teimoso como um burro!”
– Outra injúria.

Será o burro o paradigma da teimosia? – Terá esse exclusivo? – Exclusivo – quem diria?!

– Olha, que classe!

E, a mim que me importa?
– Que tenho eu a ver com os burros? – Nada!

Por acaso, é uso chamar estúpido ou imbecil ao burro?

Eu não ouvi, nem li, nem vi, nem sei, nem quero saber!

Terei raiva a quem sabe?
– Não tenho! – Ou tenho?

Porque havia de ter? – Eu até acho os burros simpáticos!

É certo que dão coices, mas, sendo burros não acertam.

Pica-lhes a mosca! – Escoiceiam.

Assustam-se! – Escoiceiam – mas, não é por mal.

É reflexo – fatalidade do destino de ser burro. Burrice, apenas.

E os coices! – Chegarão ao céu? Chegarão mais alto do que a voz?

Quem há-de entender os burros se tão pouco se sabe sobre estas coisas,

os burros não falam – zurram!

Há burros de encantar.

 “Platero”! – que burro! E o “Rocinante” de Sancho Pança? – que animal!

Não me venham agora dizer que são burros de ficção.

Não consinto. São burros como gente – para nos compensar da gente - que é como os burros.

Então e o burrinho da Moleirinha de Junqueiro? (toc-toc-toc – vai para o moinho!).

 

E o burrinho que nos leva a Belém a ver o Menino que a Senhora tem?

É por esse Menino e por essa Senhora.

É por essa Senhora e por esse Menino que eu me rendo.

Afinal, mesmo um burro, às vezes, nos leva ao ponto certo para ficar.

 

Maria José Rijo

 

 

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