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Sobre a Velhice

Sexta-feira, 20.07.12

.Revista Sénior

Nº 0 -- Ano 0 -- JUNHO 2012

...

Parece à primeira vista que para falar de velhice não há como ser velho, e, assim
sendo, os meus oitenta e seis anos, afiguram-se sem dúvida, com autoridade para
que ouse tamanha aventura e, talvez, por isso se tivessem lembrado de mim para
que o fizesse.

Ora eu posso muito bem medir o meu tempo de vida por enriquecimento pessoal e,
assim sendo posso considerar-me – não velha, mas: milionária de tempo.

Porque cada dia, cada instante, me concederam uma oportunidade diferente uma nova emoção,

uma descoberta, uma nova experiência.

Aprendi a soletrar guiada por meu Pai, aprendi a rezar com a terna paciência de minha Avó, aprendi a abominar o sofrimento quando descobri que as Mães também podem chorar…

Vi nascer o sol, vi chuvas de estrelas, vi poentes de beleza louca, vi tempestades que me

arrepiaram de medo e procurei nos céus o arco-iris, depois delas.

Vivi um terramoto, vi chorar e chorei. Vi nascer e morrer, passeei debaixo de chuva
miudinha que me escorria fresca pelo rosto, ri de prazer em sonoras gargalhadas!

Semeei plantas, vi-as nascer, crescer e florir, passeei descalça na areia das praias

bordejando o mar que me lambia os pés, e,  em nenhum desses momentos me ocorreu que
estaria a envelhecer, embora tudo somasse tempo à minha existência! 

É que a dificuldade de se falar de velhice, advém da ideia, ou do conceito que se tem do

que é ser velho.

Qualquer pessoa classifica outra de velha ou de jovem de acordo com o número de anos da
sua vida, porém, se bem que a idade seja uma condicionante do envelhecimento do
corpo, a mesma idade não propicia a todos o mesmo amadurecimento de espírito,
assim como nem todas as pessoas têm o mesmo ritmo de pujança ou de decadência física.

De qualquer forma para quem não deseje morrer cedo não há alternativa que não
conduza à somatória de tempo que se designa por – idade, que acumulada se
define por - velhice.

 

Hermann Hesse (escritor de origem alemã, prémio Nobel de literatura em 1946) no seu
livro “Elogio da Velhice” escreve assim:

Quando as pessoas mais jovens, com a superioridade das suas forças e da sua atitude
confiante, se riem de nós nas costas e acham engraçado o nosso penoso andar, os
nossos cabelos brancos e os nossos pescoços emagrecidos e tendinosos, também nós nos lembramos de ter em tempos idos, em posse de igual vigor  e confiança, rido da mesma maneira; não nos sentimos derrotados nem inferiores, em vez disso alegramo-nos por ter atingido esta fase da vida e por nos termos tornado um bocadinho mais espertos e mais tolerantes.”

E, ainda:

 “O que seria de nós, os velhos, se não tivéssemos esse livro ilustrado que é a
memória, toda essa riqueza de experiências vividas! Seria uma situação lamentável, seríamos uns miseráveis. Deste modo, somos imensamente ricos e não nos limitamos a arrastar uma carcaça cansada, de encontro ao fim e ao esquecimento; somos guardiães de um tesouro que viverá e resplandecerá enquanto nós próprios respirarmos”

 

Não pretendo endeusar a beleza da velhice, seria insensatez e falsidade, como também o é dar da juventude, só, uma ideia de apogeu e felicidade.

Nenhum estádio de vida é só isto ou só aquilo.

Cada vida é um percurso que cada qual percorre no caminho de Ser, na procura de se realizar como pessoa num prazo que não conhece - o seu tempo de existência.

Daí que seja tão importante ou frutuosa quer a velhice, quer qualquer outra fase de existência.

Para qualquer idade os dias têm as mesmas vinte e quatro horas e as estações do ano
as mesmas mutações.

Em qualquer idade se depende do coração para viver e amar, e do bom senso e da inteligência para reconhecer os limites de comportamento que definem a dignidade de um trajecto de Vida.

As Universidades da terceira idade são um sinal de saúde e maturidade social.

Elas promovem o convívio (e, bem dizia - Santo Agostinho: viver é conviver) - que alivia a solidão dos idosos, o seu enriquecimento pessoal, pela solidariedade no repartir do saber, e, mais importante, na minha opinião -oferecem aqueles que afogados em trabalho e obrigações nunca tiveram essa possibilidade a ocasião de encarar olhos nos olhos, os seus sonhos ocultos e abrirem a alma escrevendo, pintando, criando formas diferentes de afirmação pessoal e descoberta da sua
própria personalidade.

Ser velho, não é ser derrotado, nem ser novo é ser vitorioso.

Ser velho, ou ser novo é estar vivo e, esse é que é o dom inestimável – a Vida

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 22:14


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