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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Umas coisas e outras...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.013 – 20 de Outubro de 1989

A La Minute

UMAS COISAS E OUTRAS

 

Estive a ver um programa sobre pretextos que as pessoas inventam, para serem incluídas no Guiness Book.

Fiquei então a pensar nesse tipo de celebridade que não entendo e me repugna.

Admito que pessoas que tenham em circunstâncias adversas sobrevivido mais do que seria comum, ou que alguém por obrigação de cargo, ou quaisquer outras razões nobres e válidas, tenha excedido os padrões de resistência ou de coragem previsíveis – ganhe o direito a esse tipo de celebridade. Agora que as pessoas arrisquem a vida deliberadamente, criando situações que só se poderiam aceitar como fruto do acaso, para adquirir essa tal celebridade, já me parece tão perfeitamente tolo como todas as coisas vazias de sentido, injustificadas e injustificáveis, que se pretendem impor como corajosas e não passam de fraudes.

São, a meu ver, atitudes aberrantes, alienadoras da verdadeira qualidade de ser e do respeito que se deve à vida e, cada um, a si próprio.

Pensava isto olhando mais um “vitorioso” que ganhara o direito à Lista das celebridades.

Desta feita era um indivíduo que come árvores!... Miga os troncos pacientemente, muito bem migadinhos e depois ingere os pequenos fragmentos de mistura, com litros de sumos ou mais não sei quê de tão requintadamente tolo, como isto que vi contado com imagens e palavras.

Queria ter raiva destas coisas. Queria, mas sinto-me sufocada por uma onda de piedade e de lástima pela importância e destaque que se dá a pessoas que, talvez precisem mais de tratamento psiquiátrico do que de reportagens cheias de sensacionalismo.

Sinto, é verdade, um certo receio por estes caminhos sem sentido e esvaziadores do próprio sentido da vida com que se pretende promover uma glória fácil que não é mais do que um embuste, uma fraude, um logro como pode ser a droga ou qualquer “outro triunfo” oferecido de bandeja.

O que me conforta é pensar que, por cada um que procura a celebridade desta maneira imatura, há milhões de homens e mulheres que, anonimamente trabalham, plantam árvores, semeiam, cuidam das terras, tratam enfermos, amortalham defuntos, criam crianças, confortam infelizes, rezam, cantam e dançam as suas alegrias, brindam à esperança, choram as suas dores, numa sintonia saudável com o seu quotidiano de gente normal, que apenas pede à vida – o direito de não ser noticia – por ter podido, nascer, viver e morrer como qualquer comum mortal.

 

Maria José Rijo

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