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Adeus Anica

Quinta-feira, 19.04.07

Quando nos reencontrarmos, só Deus sabe quando ,teria de usar a tua expressão

 mais expontânea - “estou em falta contigo!”- se não cumprisse agora este dever

de me despedir de ti como se te fizesse uma visita de cortesia tanto a teu agrado.

            Tenho estado a pensar nas vezes em que me telefonavas só para indagar 

se era a saúde ou qualquer razão preocupante que me silenciara a voz no nosso

jornal.

 Depois com a tua natural delicadeza acrescentavas sempre :- tu sabes

que é o que leio primeiro.

 Invariavelmente eu, em vez de  agradecer ,comentava:- olha, quem

diria, ela sabe ler!- e lá vinha o teu divertido remoque:  cala.-te ,mafarrico 

não levas nada a sério!

Mais de cinquenta anos de amizade deixam muitas raízes de saudade

ligadas a pequenos gestos, miudezas aparentemente sem valor, com

que se atam as vidas.. Porém não é das minhas mágoas que venho

 falar explicitamente.

Venho falar de ti. De ti porque mereces ser lembrada. De ti, pelo culto

de respeito que te merecia a verdadeira Amizade.

De ti, de quem jamais alguém escutou uma palavra menos correcta, ou

sentiu uma desatenção.

De ti , como paradigma duma geração que cresceu tendo por ideal :

cumprir antes de exigir.

Venho falar da tua época, onde o sentido do dever  presidia à educação.

 Venho falar do testemunho disso que deste ao longo dos teus quase noventa

 e seis anos de vida.

Tu cultivavas a amizade . E cultivavas a delicadeza também.

Na tua casa, quem para ti trabalhava era respeitado como Amigo, e,

como tal  viveu lado a lado contigo vidas inteiras. Não te esquecias de

um aniversário fosse de rico ou pobre que conhecesses; porque,

 para ti, conhecer significava cuidar, estimar e tratar de igual para

igual. Significava a tua obrigação de cumprir o culto da Amizade.

Significava o teu sentido cristão de olhar o próximo como se foras tu,

Porque assim era - não esperavas atenções, - eras tu a primeira a praticá-las.

Era a tua presença na doença, na adversidade, era o mimo para o

bébé que nascia, era o telefonema ou a lembrança escolhida com esmero

nos aniversários

Tendo mais em conta o que entendias por  teus deveres do que a preocupação do que poderias exigir como teus direitos, não te aproximavas de ninguém para reclamar o que poderiam dever-te, mas sim com a gratidão pela amizade que recebias , muito valorizavas e te fazia dizer com sinceridade:- estou em falta contigo!- porque, quanto davas de ti, te parecia sempre pouco.

Tratavas as pessoas como tratavas as tuas flores, - com desvelo. Por isso o

 teu pátio era um pequeno paraíso e a tua amizade um bem sem preço.

Penso, que lá onde agora estás, a tua alma deslumbrada terá o brilho que

se acendia nos teus olhos quando em cada ano chegávamos ao Santuário

de Fátima e olhavas a imagem da Virgem na capelinha onde o tempo

se escoava sem o termos em conta. Penso que será assim.

Cada atitude tua, tinha implícita, a alegria e a gratidão pela Vida que te

era concedida e respeitavas em cada gesto, em cada palavra.

Foste, na candura do teu viver para o Bem, sem disso te dares conta,

uma pessoa diferente, uma pessoa assaz singular

Se Nossa Senhora quiser, para o ano voltaremos...dizias com uma aceitação

de crente verdadeira na hora da despedida.

Não precisarás voltar - já lá chegaste, mas como o coração é um refugio

sem limites para guardar presenças vivas de quem foi “regressando” à nossa frente,.se eu lá voltar ,nunca o duvidarias,( tenho a certeza) irás comigo.

Findo que foi o tempo do prazenteiro : olá  Anica !que nos alegrava a alma,

e sem o recurso da tua ditosa saca preta, qual bolsa de prestidigitador ,

de onde tudo aparecia como por milagre,( e sempre marcava presença

nas nossas excursões,) num aceno de onde a saudade se desprende, já sem

o recurso do lenço branco que sempre me emprestavas ,para a circunstância, direi apenas :- adeus Anica. !

 

                                                              Maria José Rijo

                                                        Poetisa, Pintora, escritora...

in - Jornal Linhas de Elvas

Nº 2. 560 – de 16/6/00

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publicado por Maria José Rijo às 23:22





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