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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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As gavetas da memória

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006

Conversas Soltas

           ConfrontaÁo

As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

              

Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

             

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

                

Há também as gavetas prazerosas, são as do bragal, com seus bordados e rendas de enfeites, seu cheirinho de guardados, com ressaibos de alfazema, ténues, como lembranças vagas, das mãos hábeis de quem as urdiu pacientemente e, agora nos aparece numa mistura de encanto e saudade...

 

Quantas horas de amor de mães, avós, tias, amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

   

Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas,

Clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

   

E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

 

Maria José Rijo

 

 

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