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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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“O Espelho da Sala de Jantar”

Sento-me distraidamente à mesa da sala de jantar.

            Estou tão embrenhada nas minhas preocupações que o faço como qualquer despojo que à deriva fosse retido ali antes de seguir na corrente do imparável rio da vida.

            Alguém me dissera: - sente-se à mesa que lhe levo já o pequeno-almoço, e, eu obedeci com a indiferença com que teria feito outra coisa qualquer que me fosse sugerida   Foi então que dei com os olhos no espelho.

            É verdade, o espelho!

            Lá está reflectida a mesa por inteiro. A mesa vazia posta no entanto como sempre para seis pessoas.

            Lugares certos: - os da avó, da mãe, dos quatro filhos quer venham, quer não que os seus lugares permanecem preparados, esperando-os, como acontece no coração da mãe.

            Toalha branca, sempre toalha branca. Ao centro no sentido do comprimento - a mesa é oval e o tampo estende-se por dois metros -  alinham-se a bandeja dos molhos as velas ,a taça  da fruta, o cesto do pão, o vinho - sempre tinto - e com a garrafa sem rolha, e numa das extremidades a pequena salva com os remédios da avó.

            Com flores naturais ou secas, há sempre um pequeno toque de sensibilidade que marca o centro deste lugar de comunhão de afectos ocupado agora apenas por mim.

            Fixo os meus olhos no espelho como se fossem de outrem e cedo à invasão das recordações que me atam a estes lugares.

            A casa está velha, quase decrépita, - quase? - Talvez mais para sim do que para não. , talvez...Os móveis são todos antigos. Alguns a precisar de bons arranjos, mas belos, sólidos. Estão na casa há quatro gerações. Já ninguém dá por eles. Fazem parte das paredes a que sempre estiveram encostados .E o espelho, também.

            Aquela moldura preciosa que o enquadra sempre recebeu a minha atenção. Parece renda. Toda ela é de rosas saídas do pau-preto e florindo suspensas a caminho dos nossos olhos. Coisa linda! Parece retirada do lavrado do Mosteiro da Batalha.

            Agora no espelho imenso, apenas eu, me vejo perdida no silêncio da mesa vazia.

            Os filhos foram tomando seus rumos.

Noutras terras, noutro continente em busca de sonhos ou miragens o pai sempre ausente. A avó então veio sentar-se ali, não, em seu lugar mas, no seu lugar, preenchendo assim a sua própria solidão e a cadeira vaga .

            Agora porém, que não é a algazarra das festas de anos, das reuniões de Natal, das surpresas das visitas dos filhos, do som de esperança dos passitos dos netos, dos amigos com quem sempre se reparte o bolo podre ou a bola de carne que o gosto pela tradição obriga a que se faça mesmo quando o dinheiro escasseia agora , que é a doença que tudo comanda - só agora ,pela ausência dum simples sorriso, daquele jeito generoso de entender mazelas e pequenas misérias, desta condição sem medida de ser gente - só agora é que dou conta de como o belo espelho é frio e de como despida daquela presença, se impõe a decadência dum ambiente onde no entanto uma certa

nobreza se preserva e só a gentileza e a bondade de uma  pessoa revestia de encanto - do seu natural encanto.

            Uma rajada de vento abre o portado da janela por de traz de mim. Por instinto levanto-me para a fechar. Mas não o faço imediatamente. Fico a olhar as copas das árvores que escondidas do avanço do cimento na fundura dos quintais dos antigos prédios aqui da Lapa e da Estrela ainda sobrevivem para falar duma Lisboa que os novos tempos, sem piedade, nem consciência, vão destruindo com a meticulosidade perversa de quem pensa que há futuro sem passado. e há presente sem memória.

             Recordo-me, a mim própria , garota ainda, pela mão de meu avô , temerosa e emocionada a passar ,à noite, sob os plátanos que rasmalhando sem sossego ao compasso da mais leve brisa misturavam os seus sons de mistério com o eco do lúgubre choro dos alcatruzes atados nas velas dos moinhos que do alto dos cerros descia até nós lá por esse Algarve que o dinheiro e a ganância já sepultaram

. Sons da memória. Sons que são a trama da nossa estrutura de ser. Sons de fundo, sobre os quais a vida havia de ir apontando outros como quem reescreve sobre uma pauta já preenchida onde as melodias se sobrepõem e confundem.

            Mais uma vez me evado pelos caminhos da memória que percorro em busca de conforto.

O vento amainou e a aragem fresca que me lambe o rosto seca-me os olhos já cansados das mágoas a que vou resistindo mal.

                Inesperadamente chega-me enchendo o ar um vibrante toque de sinos.

            É a primeira vez que os escuto aqui. Sem bem perceber porquê alegrei-me.

            Corro ao telefone só para anunciar na tua varandinha ouvem-se os sinos da Basílica!

            Depende do vento - é a resposta tranquila que escuto Também costumo escutá-los.

            Os sinos são sempre um sinal...

            Tudo depende dos ventos!

Dos ventos da sorte; fico a pensar.

            Talvez Deus me estivesse a querer dizer: então, então!

            Sou Pai - esqueceste ?

            Infelizmente às vezes a nossa fé é bem menor que o nosso medo!

            Sou obrigada a reconhecer.

                                                Maria José Travelho Rijo

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.459 – 26-6-98

Conversas Soltas

 

Hoje dia 24 de Abril  (1900)  - a linda Senhora D. Ana dos Santos Travelho

-  avó Ana - faria precisamente 107 anos 

Mãe  -- (da  minha escritora e poetisa preferida, e melhor amiga,) --

que eu tive a honra de conhecer.

Não vou nunca esquecer o toque da sua mão na minha, o seu perfume e a forma como dizia o meu nome...

Vou recordar sempre aquela Senhora maravilhosa que falava ternamente

na infancia das suas lindas meninas e do que contava entre sorrisos.

Que no céu, junto do Senhor esteja feliz...

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