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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Reminiscências- Andorinhas e Olaias

 

            Um dos encantos particulares das Avós doutros tempos era a arte de contar histórias.

            Estávamos ainda bem longe destes tempos em que distrair crianças significa comprar coisas.

            A linguagem das Avós centrava-se no convite: - vem-me fazer companhia, conversamos, conto-te uma história...

            Agora é : - vem que te pago um gelado, ou, vamos ao “super”, ou ao “macro” fazer compras...

            Às vezes na linguagem antiga também entravam outros aliciantes, como por exemplo: - ajudas-me a fazer um bolinho, lanchamos,... Ou: - levo-te à novena, ao mês de Maria, posso-te ensinar a costurar, podemos ver gravuras lindas nos livros, postais antigos, podemos jogar qualquer coisa que te apeteça, etc. etc. etc...

            Era então nesse convívio confiado, amigo e protector que se escutavam episódios vividos por familiares e amigos ilustres ou muito amados, se recontavam velhos contos e lendas transmitidas de geração em geração, se enraizavam laços de afecto contra os quais, nem o tempo se atrevia a atentar.

Quando as andorinhas chegavam, já em qualquer família, as crianças andavam havia dias e dias a espreitar o seu aparecimento. Mal o Natal passava começava-se a dizer: - reparem -  os dias já estão a crescer. Já se sabe, no Natal crescem a passada dum pardal, Janeiro em fora crescem uma hora, e quem bem contar, hora e meia há-de encontrar. Qualquer dia chegam as andorinhas para anunciar a Primavera.

Então, um belo dia, ao abrir as janelas ouvia-se o seu inconfundível chilreio e lá estavam elas enfileiradas nos fios dos telefones como notas musicais em pautas gigantes, e era evidente que ainda que o frio subsistisse e a chuva marcasse presença mais ou menos constante, qualquer coisa de indefinido se insinuava no ar e um certo cheirinho a Primavera, uma suave sugestão de fresco e de flores enfeitiçava a atmosfera enquanto que, uma vaga penugem verdinha recobria a terra nos longes do horizonte como nos ensinavam a observar.

Não restavam dúvidas: - O Inverno despedia-se.

A Primavera avizinhava-se.

Era então que minha Avó a quem cabia o “privilégio” de acordar e arranjar as netas para irem à escola, abrindo de par em par a janela do quarto onde os ninhos se conservavam de ano para ano, dizia numa voz feliz: - Vocês ainda a dormir! - que vergonha !  - vá! - toca a levantar! - escutem as andorinhas o que já fizeram! - e, imitando o seu canto ia repetindo : - fui à missa, vim da missa, lavei a casa e estou aqui, quiri, qui , quiiii...

Vamos lá! Não sejam preguiçosas, façam como as andorinhas...

Outro sinal anunciador da aproximação da Primavera, para nós, era o florir de algumas árvores. Principalmente as olaias.

Costuma-se dizer que as violetas e as mimosas florescem no Carnaval porque Fevereiro é o seu mês por excelência, porém, até na literatura se alia o florir das olaias ao anuncio da Primavera.

Recordo-me que em Rebeca, o celebre romance de Daphne du Maurier se faz essa referência.

Também essa lembrança é uma reminiscência, embora de outras épocas consequentes. Como é, também, a história dos lilases que não resisto a contar. Alias todas as histórias antigas eram como botões de flor. Começavam aparentemente insignificantes, como se não tivessem nada que oferecer e acabavam abrindo-se à nossa compreensão como as flores se abrem ao nossos olhos e encanto...

Ora, pois:- foram prevenidas as plantas que deviam preparar-se para a festa das  rosas que seria no mês de Maio. Todas se recolheram no seu silêncio de mistério a preparar as cores e formatos que pretendiam exibir. Elaboraram seus perfumes, seus matizes e esperaram a sua hora, com recato e paciência que a festa era para todas.

O lilás não!

Alvoroçado, apreçado, vaidoso da sua beleza, não olhou a datas nem a recomendações. Mal se sentiu perfumado explodiu florindo num alarde de formosura indescritível.

Chamava as abelhas, espargia essências, embriagava os sentidos de quem o admirava. Sentia-se triunfante.

Foi então que reparou que tendo cada coisa seu tempo, nada sendo eterno, a sua oportunidade se esgotara e, ele teria que partir sem assistir à festa das rosas!

Fora apressado. Não soubera esperar.

Florira, é certo! - mas não iria à festa...

Chegara e partira sozinho...

                                                  Maria José Rijo

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.602 – 13/Abril /01

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