Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Reminiscências- Andorinhas e Olaias

Sexta-feira, 27.04.07

 

            Um dos encantos particulares das Avós doutros tempos era a arte de contar histórias.

            Estávamos ainda bem longe destes tempos em que distrair crianças significa comprar coisas.

            A linguagem das Avós centrava-se no convite: - vem-me fazer companhia, conversamos, conto-te uma história...

            Agora é : - vem que te pago um gelado, ou, vamos ao “super”, ou ao “macro” fazer compras...

            Às vezes na linguagem antiga também entravam outros aliciantes, como por exemplo: - ajudas-me a fazer um bolinho, lanchamos,... Ou: - levo-te à novena, ao mês de Maria, posso-te ensinar a costurar, podemos ver gravuras lindas nos livros, postais antigos, podemos jogar qualquer coisa que te apeteça, etc. etc. etc...

            Era então nesse convívio confiado, amigo e protector que se escutavam episódios vividos por familiares e amigos ilustres ou muito amados, se recontavam velhos contos e lendas transmitidas de geração em geração, se enraizavam laços de afecto contra os quais, nem o tempo se atrevia a atentar.

Quando as andorinhas chegavam, já em qualquer família, as crianças andavam havia dias e dias a espreitar o seu aparecimento. Mal o Natal passava começava-se a dizer: - reparem -  os dias já estão a crescer. Já se sabe, no Natal crescem a passada dum pardal, Janeiro em fora crescem uma hora, e quem bem contar, hora e meia há-de encontrar. Qualquer dia chegam as andorinhas para anunciar a Primavera.

Então, um belo dia, ao abrir as janelas ouvia-se o seu inconfundível chilreio e lá estavam elas enfileiradas nos fios dos telefones como notas musicais em pautas gigantes, e era evidente que ainda que o frio subsistisse e a chuva marcasse presença mais ou menos constante, qualquer coisa de indefinido se insinuava no ar e um certo cheirinho a Primavera, uma suave sugestão de fresco e de flores enfeitiçava a atmosfera enquanto que, uma vaga penugem verdinha recobria a terra nos longes do horizonte como nos ensinavam a observar.

Não restavam dúvidas: - O Inverno despedia-se.

A Primavera avizinhava-se.

Era então que minha Avó a quem cabia o “privilégio” de acordar e arranjar as netas para irem à escola, abrindo de par em par a janela do quarto onde os ninhos se conservavam de ano para ano, dizia numa voz feliz: - Vocês ainda a dormir! - que vergonha !  - vá! - toca a levantar! - escutem as andorinhas o que já fizeram! - e, imitando o seu canto ia repetindo : - fui à missa, vim da missa, lavei a casa e estou aqui, quiri, qui , quiiii...

Vamos lá! Não sejam preguiçosas, façam como as andorinhas...

Outro sinal anunciador da aproximação da Primavera, para nós, era o florir de algumas árvores. Principalmente as olaias.

Costuma-se dizer que as violetas e as mimosas florescem no Carnaval porque Fevereiro é o seu mês por excelência, porém, até na literatura se alia o florir das olaias ao anuncio da Primavera.

Recordo-me que em Rebeca, o celebre romance de Daphne du Maurier se faz essa referência.

Também essa lembrança é uma reminiscência, embora de outras épocas consequentes. Como é, também, a história dos lilases que não resisto a contar. Alias todas as histórias antigas eram como botões de flor. Começavam aparentemente insignificantes, como se não tivessem nada que oferecer e acabavam abrindo-se à nossa compreensão como as flores se abrem ao nossos olhos e encanto...

Ora, pois:- foram prevenidas as plantas que deviam preparar-se para a festa das  rosas que seria no mês de Maio. Todas se recolheram no seu silêncio de mistério a preparar as cores e formatos que pretendiam exibir. Elaboraram seus perfumes, seus matizes e esperaram a sua hora, com recato e paciência que a festa era para todas.

O lilás não!

Alvoroçado, apreçado, vaidoso da sua beleza, não olhou a datas nem a recomendações. Mal se sentiu perfumado explodiu florindo num alarde de formosura indescritível.

Chamava as abelhas, espargia essências, embriagava os sentidos de quem o admirava. Sentia-se triunfante.

Foi então que reparou que tendo cada coisa seu tempo, nada sendo eterno, a sua oportunidade se esgotara e, ele teria que partir sem assistir à festa das rosas!

Fora apressado. Não soubera esperar.

Florira, é certo! - mas não iria à festa...

Chegara e partira sozinho...

                                                  Maria José Rijo

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.602 – 13/Abril /01

Conversas Soltas

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 00:28


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2007

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930


comentários recentes

  • Anónimo

    Cá estou eu ... meia hora depois da meia-noite...B...

  • Anónimo

    PARABÉNS PARABÉNS PARABÉNS Muitos beijinhos n...

  • Anónimo

    Minha querida TiaMuitos Parabéns pelos 94 anos - q...

  • Anónimo

    Boa AmigaSou o filho de Augusta Silva Torres que a...

  • Anónimo

    Eu sabia... sabia que era este mês que a tia fazia...


Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


links

BLOGS DA CASA

EFEMERIDES

Aniversarios Blog

Culinaria

K I K A

Paginas de Diário

2020

2019

2018

2017

2016

2014

2015

2013

2012

2011

2010

Cá estou ...

Mais alguns...

Alguns...

Alentejo

Eurico Gama

Artigos sobre...

Escola Musica / Coral

Elvas Cidade...

Escritores e...

A Familia

Sebastião da GAma

Minhas sobrinhas Bisnetas

Meus sobrinhos Netos

Meus sobrinhos

Diversos...

Páscoa

São Mateus

Cartas especiais

noticias em Jornais

Dia da Criança

Cartas do Brasil- 1996

AÇORES

Juromenha

Col. de Gastronomia

O Natal

Exp. MuseuTomaz Pires-1984

Exposição PERCURSO-2008

HistóriasCmezinhasEreceitas

Revista Sénior

JOSÉ RIJO

Hospital e Maternidade

Livro de Reminiscências

Livros- de HistóriasInfantis

  • A história da Cotovia
  • A história de uma Flor
  • A historia do Castelo
  • AlendaMisterioso vale florido
  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
  • ... então sonhei!
  • O Cavalinho encantado
  • A princesa Jasmim
  • Aurinha está doente
  • Arnaldo o terrivel
  • A Cabrinha
  • Era uma vez ...
  • O pequeno castanheiro

Dias festivos

Programa de Poesia (radio)

Crónicas na Revista

Livro de Poemas - I

Livro de Poemas - II

Livro de Poemas - III

Livro de Poemas - IV

Aniversários Linhas

Livro Rezas e Benzeduras

Livro das Flores

LivroJoaoCarpinteiro

A Visita - Despertador

Programas se SãoMateus

Entrevistas

Entrevista - TV-Videos,etc

Visitantes no Blog

Blogs- quem nos cita



arquivos



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.