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O Sortilegio do anoitecer

Quarta-feira, 16.05.07

anoitecer.JPG

Estou convencida de que o anoitecer é uma artimanha do tempo. Um bruxedo, um feitiço. Qualquer coisa de impalpável de indizível, de tão ténue, tão etéreo que mais se pressente do que verdadeiramente se capta.

Passam na sua cadência constante os dias repartidos em instantes que se esgueiram, nas nossas vidas, como entre os dedos as contas de um rosário que já quase se reze mecanicamente.

Pode o amanhecer ser tristonho, com nevoeiro, chuva, ventos. Porém, sempre para o dia que começa há um projecto.

Que mais não seja o de cumprir a rotina que como uma roupa desbotada e gasta, já se usa sem prazer.

Pode o dia trazer alegrias inesperadas ou magoas, desilusões, êxitos ou insucessos, mas tudo isso são factos, coisas reais, palpáveis.

Coisas de vida. Coisas de cada dia...

Mas o anoitecer, não.

O anoitecer, acorda a saudade, os medos, os passos pressentidos embora nunca andados, nem escutados dos sonhos que nos escaparam sem terem florido.

O anoitecer é calmo e frio como um espelho.

Reflecte a nossa imagem interior.

            Liberta os suspiros por um mundo melhor que todos albergamos no coração, mas que estamos sempre à espera que os outros façam para nós...

É ao anoitecer, que nos povoados pequenos e nos lugares esquecidos as crianças fazem danças nas ruas em frente das portas de suas casas humildes...

E, cantam...

Cantam cantigas de sempre.

Cantigas velhas, cantigas herdadas de muitos séculos, que ficam novas quando, e sempre, que elas as cantam.

.           ..Fui ao jardim celeste, giro- flé flé flá ..

...Andorinha, andar andou, caiu no laço, sempre lá ficou...

...Olha a triste viuvinha ela lá vem a chorar! Eu te juro que não há-de achar, que não há-de achar com quem casar...

É ao anoitecer que as velhas e as novas se sentam nos poiais, ou se encostam às ombreiras das entradas das casas, a conversar baixinho, a coscuvilhar, a olhar quem passa.

            A olhar só por olhar...sem ver às vezes...

A ouvir as cantigas que também, algum dia já cantaram...

É nessas horas em que o escuro da noite amortalha o dia...

Quando a passarada poisa nas árvores e faz baloiçar cada raminho como se uma doce brisa os sacudisse até se aquietarem num sono breve, como uma pausa numa sinfonia sem fim que a madrugada seguinte, voltará a orquestrar 

É nessas horas de sortilégio do anoitecer que se recordam velhos medos de lobisomens, bruxas nas encruzilhadas, feitiços e maldições...

Contos e lendas que em esparsos resistem nas memórias das nossas infâncias perdidas na distância dos tempos...

É ao anoitecer que pia o mocho agoirento...

Que as corujas, como fantasmas se soltam das torres das igrejas e vão comer ratos pelos campos enquanto os morcegos como sombras cruzam os céus voando baixo e guinchando como vampiros famintos.

É ao anoitecer que os lobos surpreendem os rebanhos ensonados quietos nos redis, separados de cães e de pastores nos curtos instantes em que bichos e donos confraternizam comendo a magra ceia de pão e queijo duro...

O anoitecer, é, talvez o Outono do dia...

Tem na luz que se extingue, o reflexo da sabedoria do que já viveu no dia pleno.

Tem na serenidade, a paz e a aceitação de quem remexe nas cinzas onde o fogo crepitou, as chamas aqueceram e queimaram e que o próprio tempo apaga para dar lugar à renovação...

Anoitecer, Outono dos dias, Outono das vidas, Outono dos tempos; fim e princípio, encanto e sortilégio do desconhecido inevitável em toda e qualquer Vida...

                                  Maria José Rijo

             Escritora - Poetisa - Articulista - Pintora - ... ... ... ... ...

                            

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:18


2 comentários

De Augusta Toledo a 18.05.2007 às 13:33

Que bonita prosa.
Estou deliciada.
Este blog é uma maravilha.
Muitos PARABÉNS a esta escritora que me leva até
ás minhas próprias recordações.
Ao ler, tenho a senção de que estou a falar com a escritora. Gosto muito. Parabéns.
Gusta Toledo

De Mário a 19.05.2007 às 10:06

Também é pintora? Esta belissima escritora.
E quando podemos ver os quadros?
Gostaria muito.
Paula o seu blog está 5*estrelas . Realmente aqui reina a boa prosa e a poesia.
Não conhecia Maria José Rijo - a sua escrita é fantástica, bela, profunda, e dá a sensação, para quem lê que se está a conversar com a própria Maria José Rijo.
Gostei.
Muitos Parabéns pelo Blog
e por nos dar a conhecer esta magnifica escritora.

Mário Tadeu da Luz (Luxemburgo)

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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