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Escrever porquê?

Quarta-feira, 16.05.07

Li com muito carinho as palavras que “um Rapaz do meu tempo”, achou por bem dirigir-me. Não discuto se as mereço ou não. Não me cabe faze-lo. Aceito-as como preito de amizade, o que lhes confere uma espécie de autenticidade que as torna, só por isso, um presente. São como as flores que se oferecem e se aceitam, sabendo embora, todos nós, que exceptuando os santos, ninguém  é tão puro que mereça a beleza de uma só flor por mais singela que seja!

Consciente disso, resta-me  ser agradecida , o que sou, confesso.

            Ora acontece que enquanto lia, ia pensando : escrever?

Mas, escrever porquê ?          

Escrever para quê ?

            A escrita será uma dádiva que fazemos ?- será a resposta a uma necessidade interior de comunicar, ou apenas um indício de solidão, de que , escrevendo, procuramos fugir?

            A escrita poderá ser uma máscara ? ou a escrita é uma atitude de despojamento, quase que uma necessidade de expurga das emoções que nos sufocam?

            Escrever, parece-me um acto muito mais complexo do que à primeira vista possa parecer. Quem escreve, quer queira quer não, de si fala. E fala de si muito mais, quanto mais ,falar dos outros.

            ( O bom julgador...)- toda a gente sabe o aforismo popular...

Há sempre um juízo de valor em tudo que se comenta.

Lógico será deduzir que, escrever, é, em primeira análise, um acto de coragem. Embora seja um acto deliberado de vontade, é também um acto de submissão a um impulso intimo -, quase um acto de impudor - na medida em que a pessoa que escreve se desapossa do seu lado  misterioso, do que a individualiza, do que é o substrato do seu eu verdadeiro.

Todo o romance tem seus laivos de autobiográfico. É fatal.

Como todo o rio arrasta no seu caudal vestígios do leito que o comporta...            Estava eu querendo dizer que a faculdade de admirar e de o confessar, se beneficia o” admirado”, também desvenda a grandeza de alma do admirador. Numa época em que pouco tempo e atenção se gastam  com os outros. Numa época em que cada qual vive o deslumbramento de viver virado para o seu próprio e maravilhoso umbigo, só confessa admirar seja o que for ou quem for, quem guarda no seu coração laivos de pureza da infância. Quem não se afundou na pequenez da inveja e de outros sentimentos menores. Bem esse, que nunca se agradecerá suficientemente a Deus.

Frente a um por do sol, ou, ao despertar da Natureza num amanhecer que a pouco e pouco apaga as estrelas com o resplandecer do sol que sobe no horizonte os animais, por mais selvagens que sejam, reagem instintivamente.

Procuram os seus ninhos, as suas tocas, as suas luras, as suas cavernas e esconderijos ,ou saem deles e recomeçam as suas lutas pela sobrevivência como condenados submissos ao seu cruel destino de bichos. Sem consciência de bem, ou de mal.

            Triunfantes e poderosos quando matam - cadáveres quando vencidos.

            O ser humano não.

            O ser humano expia dores e faltas!

            Arrasta consigo o sonho, a fantasia, a ambição, o gozo da emoção, a tristeza, a alegria, as duvidas , as incertezas, as esperanças, os medos, as arrogâncias e temeridades,  a coragem, a cobardia e tudo o mais que lhe advém da consciência de ser gente. E se bem que disponha também das manhas e astúcias que também aos animais foram dadas para a caça e sua defesa. Se bem que coexistam no mesmo mundo com os mesmos rios, os mesmos mares, as mesmas árvores, os mesmos dias, as mesmas tempestades e bonanças,  o mesmo céu, as mesmas luas, ou noites de breu só ao ser humano foi dada a faculdade de admirar .

            Só o ser humano se detém frente à beleza e com ela se extasia...

            Só o ser humano reconhece o explosivo deslumbramento da angustiada maravilha de um por do sol de gritantes e luminosos amarelos e carmins  a esvair-se lentamente como que de um corpo exangue...

            Só o ser humano se comove e chora...

            Só o ser humano canta e ri...

              o ser humano conhece o horror, o ódio e, também : - o Amor...

Só o ser humano pode ajoelhar , rezar, dar graça a Deus, pedir perdão ou louvar,

            Só o ser humano se revê na SUA imagem

            Só o ser humano  de entre todos os seres da criação é responsável pelos seus actos.

                Escrever? - escrever, - porquê? - para quê?...

            Talvez... também para comunicar com os demais de uma maneira mais particularizada...

                Talvez... também para agradecer o dom da Vida que nos é dada fruindo em consciência  das responsabilidades que julgamos ter...

            Talvez para abafar a timidez que muitas vezes, tantas vezes, nos impede  de confessar quanto nos sentimos perto de todos quantos com o seu respeito por nós, nos encorajam na difícil  tarefa de procurar o rumo que julgamos ser o nosso, mau grado as agruras do piso que se trilha.

            Talvez, também para isso, talvez...

            Escrever, - porquê?

 - Para quê ?...

            - Quem sabe.... se não apenas para sobreviver, por fatalismo, por instinto, como qualquer bicho ! - quem sabe!...

                                               Maria José Rijo

                                             Escritora, Poetisa, Pintora, Articulista, ... ... ...

in :

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.582 – de 24 de Nov. de 2000

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:30


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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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