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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Reminiscências

Volto hoje a trazer à baila velhas reminiscências que envolvem, no meu espírito a evocação, a que por vezes não me escuso, de pessoas com quem me fui cruzando ao longo da vida, ou me deliciaram na infância com histórias, contos e lendas.

            Antes de haver água canalizada ao domicílio (há mais ou menos meio século) toda a gente que não ia fazer o seu provimento directamente às fontes comprava-a aos aguadeiros que a distribuíam de porta em porta.

            A chamada da freguesia era feita por um pregão mais ou menos musical, e alguns havia bem pitorescos !  Tal como hoje acontece com os carteiros, também os aguadeiros passavam às portas em horários quase fixos.

            Havia cântaros de lata e de barro que eram acondicionados em carroças que dispunham de espaços onde eles se encaixavam como acontece hoje com os comprimidos. Lado a lado e cada qual no seu próprio alvéolo.

            Outro processo de fazer a venda era metendo os cântaros nas cangalhas que se acomodavam sobre as albardas das  muares. Nesse caso, eram apenas dois ou quatro os recipientes transportados, em lugar dos dez ou doze que  um carro comportava.

            Havia também as pipas adaptadas em carroças com a água a chocalhar lá dentro com o atrito da calçada irregular, e uma grande torneira na parte inferior, atrás, onde as freguesas iam, mediante o pagamento, encher os próprios recipientes.

            Em qualquer circunstância, sempre  os acessórios do trabalho iam bem à vista pendurados e a balouçar a compasso do andamento dos burros ou das parelhas. Eram os grandes funis de folha  ou de zinco e os caldeiros com grossas cordas que serviam para tirar água dos poços e encher o vasilhame.

            Existiam, também na profissão, uma espécie de retalhistas. Eram os meninos pobres e os velhotes já sem vigor para outros trabalhos que, transportando um cântaro ao ombro, aproveitavam feiras ou ajuntamentos para vender água a copo aos mais sedentos ou encalorados .

            Mas, isso, já era questão de poder económico  de quem vivia de tal negócio.

            Pois bem, com o passar do tempo os fornecedores tornavam-se familiares e, era costume oferecer-lhes - pelo menos era assim nas aldeias - um copo de vinho, ou um petisco, em resumo:  um agrado como recompensa pelo enchimento até ao gargalo de talhas, potes, cântaros ou infusas . Já que o dinheiro pagava a água mas não a boa vontade com que o serviço era prestado.

            Até me recordo que, assim como hoje se aprecia a simpatia de quem trabalha em  qualquer casa, também a afabilidade dos aguadeiros fazia parte das críticas que qualquer família  tinha no rol das conversas escusadas que sempre hão-de dar para falar quando nada que preste há para dizer ...

            Outra coisa acontecia então: - a  criançada, mal sentia fosse quem fosse na  cozinha aparecia como as formigas ao cheiro do mel e, ávidas de saber como sempre são as crianças,  faziam perguntas sobre tudo e mais alguma coisa.

            Foi assim que, em certo dia de anos, enquanto provava o bolo da festa e deliciado ia sorvendo um copito de Porto, o senhor Zéi ” ensinou uma lengalenga aprendida na tropa, quando era fraganote (palavras suas)

Rezava assim:

                    

            Houve em tempos um padre que querendo contratar um criado fez questão  de lhe testar a memória já que saber ler era coisa  rara antigamente e era necessário que ele tivesse capacidade para reter os recados que lhe confiassem.

            Então, durante  o serão, sentados ambos à lareira disse-lhe o padre: - aqui na  minha casa cada coisa tem um nome especial. Só os direi uma vez. Se amanhã pela manhã ainda te recordares de tudo, ficarás comigo. Se tal não acontecer terás que  procurar outro patrão. E começou a enumerar as designações  que inventara para experimentar a argúcia e a memória do rapazito.

            Olha, disse-lhe o padre: - lume é inclemência. Gato. é : papa ratazana. Eu, sou  papa a Deus. Cama, é braços miratos . Meias, são tira e metes. Sapatos, são sarapitatos . Mobília diz-se traquitana. Água é abundância e à estopa chama-se estância.

            Terminada a enumeração de tão estranha nomenclatura, foi o padre deitar-se e deixou o rapaz sentado ao lume a pensar na vida.

            Repetia e tornava a repetir cada palavra com medo de se esquecer. Receava até  deitar-se e adormecer.

            Teve então uma ideia matreira que logo pôs em prática. Atou à cauda do gato um  tição a arder e entrando a correr nos aposentos do padre gritou: - levante-se! - seu papa a Deus desses seus braços miratos , puxe os seus tira e metes calce os seus sarapitatos , vá  depressa não encalhe aí nalguma traquitana que  anda aí o papa ratazana com a  inclemência atada ao rabo. Se não lhe acode com a abundância toda a estância leva o diabo.

            Levantou-se lesto o padre e o espertalhão ficou com o emprego e foi deitar-se  regalado.

            Não resisto à tentação e recordar que a água chique, aquela, que era de bom tom  ser consumida pelas pessoas importantes, era a água de “ Vichy ” que se fazia  anunciar no  célebre Almanaque Bertrand que, era ao tempo, a leitura obrigatória nas casas de família.

            Não havia desmaio ( e as  cintas e espartilhos bem que contribuíam para esses  delíquios das damas antigas) que resistisse aos sais e águas de Vichy ...

            Vivemos outros tempos que são simultaneamente, tempos diferentes.

            Recordar às vezes também pode divertir um pouco ...

 

                                                            Maria José Rijo

                                                     Livro das Reminiscências

 

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.483 – 18 / Dez. / 98

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