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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Gatos

http://olhares-meus.blogspot.com/

 

À porta do jazigo (encimado pela escultura de dois gatos a dormir) do grande escritor português - Fialho de Almeida- em Cuba, onde faleceu, pode ler-se esta frase do seu livro - os Gatos- “miando pouco,  não temendo nunca, arranhando sempre”

Bem mais perto de nós, outro escritor, (João Falcato) autor do célebre “Fogo no Mar”, enquanto jornalista, como Fialho também foi, escreveu durante anos as suas crónicas sob o título “O Meu Gato.” Rememorando estas e outras lembranças, dei-me conta da presença, bem frequente do gato na literatura, na magia e nos ditados populares. (No casino Estoril, neste momento, na obra da grande Artista: Dorita  Catel-Branco.)

Pensei então: - aqui há gato! - E, comecei a somar:

Gato escondido com o rabo de fora! – Fazer de gato-sapato!

É como o gato que, enquanto dorme, apanha ratos! (referência às vibradoras, “bigodes”, que captam as vibrações do ar que, qualquer movimento produz.)

Gato escaldado de água fria tem medo!

De noite todos os gatos são pardos!

Matreiro como um gato! - Traiçoeiro como um gato!

Quem não tem cão, caça com gato! – É como o gato e o rato!

Ágil como um gato! - Macio como um gato!

Silencioso como um gato! - Misterioso como um gato!

Tem sete folgos como um gato! - Olhos misteriosos como o gato!

Que belo “gato”!- Que  bela “gata!”

Assim, e de outras formas mais se fala dos: - farruscos, tarecos, panchos, bichanos, minháus, ou do mais que é uso apelidar esses companheiros das nossas vidas.

Os gatos estão conotados com a ternura, a manha, a esperteza, a agilidade, beleza e, pela sua independência, e pela dilatação das pupilas dos seus belos olhos, no escuro, também com um certo mistério e bruxaria.

Para as crianças que se arrepiavam de medo com os seus miados lúgubres pelos telhados, nos pequenos povoados, nas frias noites de Janeiro, fazia-se uma interpretação que afastava os temores e as fazia rir, emprestando palavras aos sons das suas serenatas...

-          José dos matos,

-          Dás-me os sapatos?

-          Não dou, não!

-          Diz do que são!  

-          De cordovão! - Dás-mos? - Não!

Depois aconchegadas – como gatos - no quentinho dos lençóis

era a hora de deixar que o João Pestana fizesse o seu trabalho...

Sempre os gatos inspiraram ao homem os sentimentos mais extremos e as mais obscuras crendices.

E, não se julgue que foi recentemente que “os gatos e as gatas” entraram já com um significado mais erótico na linguagem corrente.

Desde a deusa Bastet dos egípcios, que tinha cabeça de gata e simbolizava a fecundidade e graça femininas (segundo o Dr. Fernando Méry) que essa conotação se faz.

Também ele conta que os gatos já foram divinizados ao ponto de em 525 a.C., os persas terem vencido os egípcios por se apresentarem armados com gatos em lugar de escudos e o seu culto por esses animais – (na época) - não lhes permitir nem feri-los , quanto mais matá-los!

Tempos houve também em que os donos punham luto por eles, como pelos filhos, e tinham direito a ritos fúnebres. Eram embalsamados e, se os seus proprietários eram muito ricos, dormiam o sono eterno em belos sarcófagos.

Mais tarde, a partir do século XIII, foram odiados perseguidos, considerados sicários de Satanás, queimados vivos, torturados por bruxarias, empalados, crucificados, esfolados vivos e, era expressamente proibido ter por eles qualquer espécie de piedade ao ponto de aos seus defensores, serem infligidas, como castigo, iguais torturas.

 De qualquer modo é sempre associada à beleza e ao mistério que se usa a imagem dos felinos.

Animais, ainda hoje, tão estimados por uns, como odiados por outros.  

Ligados a eles há também, contos sem fim quer de bruxarias e maldições, quer de protecção como amuletos, principalmente o gato preto que convém ter por perto como talismã, porque afasta as bruxas e fica entre os humanos como pára-raios nas trovoadas e

é afinal o mesmo gato preto que pode ser acusado de todos os malefícios .

A minha indisfarçável ternura pelos gatos fez-me aprender algumas curiosidades sobre a sua história. Considero-os caprichosos, um tanto insubmissos, mas os mais elegantes, encantadores e carinhosos de todos os animais domésticos.

Enrolam-se como novelos de lã, e quando nos saltam para o colo, nos dão a “honra” da sua companhia e ronronam tranquilos “com o motor em ponto morto” ninguém dirá que sob a fofura daquelas patas de veludo, há umas unhas retracteis afiadas, que cortam como lancetas.

E, não é que hoje ao ver a madeira do meu cavalete toda escalavrada pelas unhas do meu gato “Picolino” de que guardo saudade, me ocorreu escrever esta crónica que espero não seja motivo para que se diga que “vos dei gato por lebre!”

 

                                                   Maria José Rijo

                                                   

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.907 - 1 Março-07

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