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Primavera

Domingo, 03.06.07

http://olhares-meus.blogspot.com/

Como em muitos outros anos, ontem, fui cumprimentar a Primavera na beleza quase asfixiante das olaias em flor.

Comecei, como sempre, pelo Jardim Municipal, onde um parque de jogos que teria cabido em qualquer outro local, substituiu um encantador e velho bosque onde enamorada daqueles troncos carcomidos que floresciam como galhos frescos sempre me apetecia repetir baixinho um poema de Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

Sou poeta

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

No vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

-          não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo

 

Sei que canto. E a canção é tudo,

Tem sangue eterno e asa rimada

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada

 

Desta vez, rezei-o no coração, junto à lembrança do bosque, porque era de Torga: - Cântico da inteligência, o que me ocorria:

Não destruas!

Toda a fúria é maldade

Ouve, que te não minto:

À tua volta a vida é como um cinto

De Castidade.

 

Constrói o mundo!

A sinfonia tem de ser inteira!

Junta o teu canto à melodia!

Não deixes que uma nuvem de poeira

Tolde a luz que

e te guia!

 

Dura!

Existe humanamente, e sê feliz!

Céu que não possas ver com os olhos

Deixa-o a Deus

- A ideia que tiveste e não te quis  

 

Assim pensando segui na minha “via-sacra” para saudar, outras nobres resistentes, que embelezam portões de quintas abandonadas ou se preparam para alcatifar os caminhos, como sempre acontece ali por “Forte de Botas” , ou mesmo aqui na curva da estrada que nos leva à Piedade, onde , por esta altura, se pode contrapor a mancha rosada do chão, ao verde macio que, também, nesta época do ano, veste a paisagem que  se avista até aos limites do   horizonte imenso do nosso Alentejo.

Deixei depois, que meus olhos falassem de tudo isto aos carcomidos troncos das ancestrais oliveiras que venero como deuses campestres que guardam segredos dos mistérios da terra que lhes alimenta a vida, e que os séculos encarquilham mas não emudecem. Porque tudo que a terra dá, ou se nega a dar, faz parte das falas, da mensagem, que os céus escrevem em flor – em cada Primavera - para quem procurar o fruto que cabe em colheita a cada Vida.

 

Eis como voltei a casa ao entardecer, sem receio da noite, apenas guiada pela luz Outono/ Inverno do tempo das minhas memórias.

                                                          Maria José Rijo

                                            Escritora e Poetisa

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

29--Março-07

Nº 2.911

  

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publicado por Maria José Rijo às 19:33


4 comentários

De Alexandre Curado a 03.06.2007 às 22:35

Bonito texto!
Li vários ...
Estou surpreendido por poder ler, neste português com letra grande. Muito bem escritos.
Parabéns.
Voltarei certamente a esta fonte de cultura !!

Alexandre Curado

De cindamoledo a 04.06.2007 às 16:12

cinda

De João Lemos a 04.06.2007 às 17:04

Estou maravilhado!
... pela forma magnifica desta escrita... bom português... bom texto... optimo artigo...
Parabéns a maria José Rijo pela forma bonita como se expressa, neste nosso português...
Renovo os meus Parabéns...
Com admiração

Lemos

De Letícia a 04.06.2007 às 18:55

Que linda
é a primavera neste seu belo texto.
Gostei muito de te ler.
Vou adicionar-te aos meus favoritos.
Muitos Parabéns por este bonito blog.

Letícia Moira da Luz

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

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