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O Surrealismo

Sábado, 23.06.07

Quando me garantiram que tinha sido proferida – publicamente - a ameaça de “nem um parafuso” ser concedido a alguém que ousou escolher sem “perinde ac cadaver”(ao que li -  divisa dos jesuítas, que significa : obediência absoluta) os  colaboradores para os seus comandos – não me admirei.

Funcionam assim todas as ditaduras. Porém, para amenizar, dando cor ao negrume de tais falas, ocorreu-me pensar que em arte, em pintura, especialmente, uma afirmação deste teor poderia corresponder a uma atitude surrealista, uma vez que – sem controlo - deixa, livremente expressar a voz do inconsciente,  um tanto sem ética, nem estética!

Acontecendo esta conversa durante um passeio aos restos – quase despojos -  de uma ruína histórica, fiquei então a congeminar, como também seria surrealismo da minha parte pretender destrinçar os fios da meada que levaram a Quinta do Bispo ao opróbrio da injusta condenação à  morte.

Os empreiteiros, se não faliram, pouco menos. Têm casas por vender e outras, como fantasmas, em esqueleto, inacabadas, há anos....

O edifício airoso, perto do plátano, meio desabitado, não sei que futuro poderá ter, visto que o paredão - que parece – sustentar o desnível do solo onde se inserem as suas fundações a pesar do reforço dos carris de suporte, está rachando...

O desmazelo, a incúria, a porcaria fazem ninho e procriam proliferando a torto e a direito...nos prometidos jardins para lazer e regalo dos cidadãos...

Não fora, como disse Miguel de Sousa Tavares – “a alegria das lutas desiguais”- que são estas onde se entra já vencido pela força dos poderosos – mas onde se morre de cabeça erguida, pelo amor à verdade que nos ampara, e eu não estaria , hoje, talvez dez anos passados a recordar argumentos, brandidos como bandeira, para o sacrifício inútil e cruel duma Quinta – mais valia sem par para a cidade - romântica e nobre  cantada em  poemas lapidares por António Sardinha e ligada à história de Elvas, quer pelo nome do ilustre  historiador elvense – Aires Varela no sec. XVII, a quem foi comprada pelo VI Bispo de Elvas, D. Manuel da Cunha, donde lhe veio o nome - quer pelo famoso prelado   D. Lourenço de Alencastre celebrizado por Cruz e Silva no conhecido poema,  “ O Hissope”obra prima da literatura portuguesa apreciada em todo o mundo da cultura.

Fora eu Agatha Christie ou o inspector Poireau e andaria atrás da resposta desfecho dum romance policial ainda por escrever: - a quem aproveitou o crime?

Elementar, meu caro Watson!

.

 

 

Maria José Rijo

                                                          

 

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Jornal Linhas de Elvas

de 14- Junho- 2007 – Nº 2.922

Conversas Soltas

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 12:05


3 comentários

De Anibal Raimundo a 23.06.2007 às 12:30

OLá
outra vez... já ia sair quando vi nova postagem...
Fiquei e li... e vi as fotos...
Devo dizer que me faz pena como tudo agora se encontra, mas também devo dizer que se os que mandam não sabem preservar o legado... que vai ser de nós... qualquer dia deixamos de ser portugueses e somos todos espanhois... e ninguém se apercebe... mais ainda aí junto da fronteira.
Renovo as minhas palmas ao seu belo português, á sua forma genuina de escrever BEM - agrada-me de sobremaneira essa sua e sublime maneira de chegar a onde deseja.
Muitas Felicidades

Raimundo

De Alzira M. M. a 24.06.2007 às 11:35

Estou estarrecida com estas imagens.
Conhecia a Quinta do Bispo, porque uma das vezes que fui a Elvas, almoçar ao Restaurante A Bétola, deixaram-nos ver a casa de António Sardinha... nunca pensei que chegaria a isto...
Lamento imenso...
Por acaso encontrei o seu blog e estive a ler vários dos seus textos.
Muito Bons, por sinal.
Fica aqui registada a minha pena pelo estado da quinta e os meus Parabéns para a escritora Maria José que escreve perfeitamente, distintamente o nosso português - hoje em dia tão mal tratado.
Cumprimenta-a
Alzira Maria Marquês

De Alvin Cortes a 25.06.2007 às 00:04

Realmente aprecio bastante os seus textos de cariz politico. Aqui neste assunto da Quinta do Bispo tem imensa razão, porque este tipo de assunto tem de ser tratado com a dignidade que ele merece e António Sardinha Tinha todo o direito, pelo que foi, de o seu legado estivesse disponível para que todos pudessemos olhar, e sentir e caminhar nos mesmos locais que ele amou.
É bizarro que que fizeram á Quinta!
Cumprimenta-a
Alvin Cortes

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