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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

O segredo é amar

Era um dia igual a outros dias.

Na varanda da vizinha, lambia-se fazendo a sua higiene da manhã o mesmo gato cinzento que gosta de se espreguiçar ao sol, e eu já considero como elemento indispensável do meu horizonte quotidiano...

No mesmo horário, o jovem marido faz um adeusinho dengoso à mulher, que ainda despenteada lhe acena por detrás da vidraça, enquanto ele põe o carro em marcha...

Raparigas e rapazes vestidos de igual na comodidade negligente das calças de ganga e blusões chamam-nos à indicação do calendário de que as aulas estão a começar...

Rebolando na rua, a rosnar com alegria dois cachorros - fugidos por instantes dum portão aberto por distracção - fingem morder-se e, na brincadeira, disparam numa corrida desenfreada...

Entra e sai gente das portas. Há janelas a bater...

Um arzinho fresco com cheiro, já de Outono, afaga-nos o rosto...

No pavimento tisnado de alcatrão, bailam e rastejam as primeiras folhas das árvores que lentamente se despem da pujança das copas frondosas...

Das chaminés das casas sai fumo que com o vento desenha pinturas que o próprio vento esvai...

Voam pombos rente às casas...e a cidade ouve-lhes o roçagar das penas das asas...como murmúrios dos céus...

É a cidade a viver.

É um dia igual aos outros...

Mas é onze de Setembro e o telefone toca. A pergunta vem: - tem a televisão aberta? - então abra...

...Os repórteres, os jornalistas, os políticos, todos quantos têm acesso aos meios de comunicação de qualquer espécie, têm escrito e falado e mostrado a destruição das torres de Nova Iorque e o ataque ao Pentágono, com que os terroristas surpreenderam o mundo.

13 de setembro de 2001: bombeiro de Nova Iorque olha para o que sobrou da Torre Sul do World Trade Center

E que o mundo viu em directo.

E todos, sem excepção, falam na forma de retaliar tão hedionda façanha.

Como todas as demais pessoas, sigo com preocupação e interesse o desenrolar das negociações entre os povos ainda não refeitos da surpresa e do horror do sucedido.

Volto à janela. Está tudo lá. Porém, nada mais é igual...

Como todas as demais pessoas, comungo no desejo de que se possa exercer justiça castigando os verdadeiros culpados; e no receio de que sendo difícil conseguir tão milagroso feito, voltem muito mais justos a pagar pelos pecadores.

Paisagem assustadora de fumaça envolvendo os arranha-céus.

Cresce nas consciências o terror de que a justiça descambe para a vingança. Na convicção assumida de que ódio não se sara com ódio altos responsáveis alertam para a prudência...

Fixei - num dos apontamentos de reportagem a que assisti uma frase que me martela no cérebro como um acenar de esperança...

Uma das vítimas, a bordo de um dos aviões, ao aperceber-se que beirava o fim da sua vida, telefonou ao marido só para lhe dizer que o amava.

Também um filho numa das torres já em derrocada fez outro tanto dirigindo-se a sua mãe.

Nem ódio nem vingança.

Uma mensagem com o gosto de um beijo de adeus...

Uma mensagem de AMOR.

Sem quase me aperceber pensei em Sebastião da Gama,0001gf74 o Poeta da Arrábida. O poeta do amor à VIDA, que sempre soube que trazia consigo a morte que cedo o levaria...

Talvez, também, por isso, nunca desaprendeu, quando adulto, o que quase todos esquecemos desde que deixamos de ser meninos, e foi a sua oração de VIDA: -“ O segredo é amar”

Fiquei então remoendo na lembrança dois versos de um soneto - seu - que tem esse mesmo titulo:

                      “Ah! bem me parece que o Amor melhora

                       Quanto a graça de Deus não fez bonito.

                       Há lá coisa mais linda do que um grito

                       quando foi o Amor que o pôs cá fora!...”

 

                                                       Maria José Rijo

                                                Escritora,poetisa e Pintora

 

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Revista Norte Alentejo

Set./Out. –nº 14  -- 2001

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