Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
O ALECRIM
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Foi uma cantiga, que me disse a mim, que a flor do mato era o alecrim.
O alecrim é uma planta popular. Cria-se sem cuidados em terrenos pobres,
como gente sem linhagem. Não impõe distância a ninguém como as
altivas e nobres flores de estirpe.
Do alecrim até se devia pensar em sentido colectivo - como quando
se diz: - Povo !
A flor do alecrim é azul anilada, miúda, franzinita , mas doce na sua modéstia.
As abelhas libam-na com gula e as pessoas cheiram-na com gosto.
Cresce nos campos, vive nos quintais e não desdenha mesmo como sebe,
viver em jardins mas... tem tradições !
Cumpre ritos e crenças. É cinza em Quarta - feira de Cinzas !
Vai à missa em Domingo de Ramos.
Vai moiro - volta bento.
É oferecido para lapela de padrinho, decote de madrinha ... onde fica
a murchar e a recordar obrigações de amêndoas para Quinta-feira Santa.
... “Aqui está este raminho !
Verde é e verde cheira...
e fica preso para Quinta-feira!...”
Seca esquecido.
Vai para o lixo ou para o fundo da gaveta e dele nos apercebemos pelo
discreto e vago perfume, como uma reminiscência...
- É tempero ! - vai ao forno no assado (há quem aprecie) mas, calha a
preceito no cozinhado do coelho manso a que corta a insipidez da carne
doce e branca !
- Faz chá de beleza para cabelos fracos. Recompõe roupas pretas já
gastas e ruças pelo uso...
- Entra nas mézinhas das bruxas quando fazem benzeduras!...
“Eu te coso, por carne quebrada e nervo torto!
Melhor cose a Virgem do que eu coso.
A Virgem cose por vão - eu coso pelo osso
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Padre Nosso e Avé Maria!
E... a velha a coser no novelo com a agulha sem linha e o alecrim
inocente - a arder! - a arder!... a arder!... - a consumir-se ao
som das loucas ladainhas .
É uma panaceia !
Aviva a memória! - conserva a juventude !
E... nas trovoadas’!!!
- Que é do alecrim ? - o alecrim benzido ?
- onde pára ele ? - onde está metido ?
p’ra queimar um pouco
que afasta os trovões !
Ai, Santa Barbara - nos acuda
Ai que aflições!
Barbara bendita - que no céu está escrita
e na terra assinalada!...
Superstição e fé de mãos dadas. Verdades e lendas com o
mesmo perfume: - alecrim !
- Ai alecrim, alecrim!
Também te cantam ! - cantam-te aos molhos mas logo te acusam:
“Por causa de ti choram os meus olhos”
És pobre e modesto! - logo te culpam ! - então como querias ?
- mas tu, alecrim - porque não desmentes?
Ai alecrim! Alecrim!
Não fora a fogueira, o fumo
e toda a gente veria - se isto não fora assim como me ardem os olhos
como minhas faces queimam de chorar triste por mim !
Ai alecrim! Alecrim!
Das cinzas que restam - do tempo passado
o vento que sopra - espalha sem dó
tudo o que encontra do fogo apagado
e no chão varrido - na mancha sem pó
Só baila a saudade
Só, saudade, só !..
Maria José Rijo
Livro das Flores
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2 comentários
De Dina a 14.07.2007 às 21:02
Parecia que tinha voltado atrás no tempo...ao tempo das nossas conversas no Regiões em que lá mais acima no Porto a Olga Cardoso estava também ela embevecida a ouvi-la.
Fez-me também regressar ao meu tempo de menina em que descia o Aqueduto em direcção à Piedade diariamente e todos os dias levava um raminho de alecrim para casa, hoje nem sei se ainda existe o alecrim, possivelmente não, já que com o novo traçado em direcção à rotunda esses arbustos devem ter desaparecido.
Um beijinho com muita saudade!

