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CHARLOT e EU!

Domingo, 22.07.07

Charlot nunca me divertiu no sentido corrente desta palavra.

Quero dizer: - não me faz rir …

Quando era criança, muitas vezes me fazia, até, chorar. Com o rodar dos anos continuou a comover-me, a dar-me que pensar, a apaixonar-me, a absorver o meu interesse mas … continua a não me fazer rir.

Maravilha-me vê-lo – mágico sonâmbulo – no magistral equilíbrio daquela corda bamba que faz a frágil fronteira que separa o riso das lágrimas – maravilhosamente, mas sei que, frente ao seu olhar sério, à bengala, ao coco, ao bigodinho, aos pés grandes postos de lado, à flor na lapela – a tudo quanto recorta a lembrança de Charlot dentro de nós – eu sou apenas de novo criança que no consultório do dentista espera o momento inevitável em que terá que enfrentar a situação que teme. E, quando surge a surpresa aliviada do: já passou! O volte-face que Charlot propõe no  ponto exacto onde a gargalhada ainda pode abafar o soluço – já a minha sensibilidade me pregara a partida, ali à frente do riso possível já eu dera o “passo em falso” que me estatelava no mundo da piedade pelo “rato” que não tem culpa de ser “rato” ou,  “aranha coitadinha” que não tem culpa de ter o corpo mole, peçonhento e repelente!

Foi assim e continua a ser assim… Paciência!

Mas lembrei-me de Charlot porque foi pela mão de Chaplin – com o seu Charlot – que tive acesso à história de imagens animadas – ao animatógrafo… velhos tempos!

Agora, é às vezes a televisão que mo traz de volta ao “cozinhar” as distracções, os terrores, os espantos e também, algumas vezes – menos – as delícias dos nossos lazeres.

Ditador -Charlot 2.jpg

Assim, nas inevitáveis situações de “gato” e “rato” desta vida, que não são afinal tão inevitáveis e fatais – quanto é ao rato ser rato e ao gato ser gato ou à aranha ser aranha! – Fornecem-nos ao domicílio, fartos motivos para pensar…

Na minha “galeria de espantos” pendurei há algum tempo um diálogo entre dois “edis peninsulares” que descontraídas e felizes, irmanados por opiniões coincidentes, falavam das vantagens de certas trocas e baldrocas (designadas pela plebe como contrabando) de produtos “sem espinha” – tais como – por exemplo – café!

Isto era, porém, tratado como se o julgamento das coisas pudesse ser feito conforme os julgadores e os julgados, sem que os factos que o motivaram tivessem que ser avaliados.

Alguns dias mais tarde – também pela T.V. – foi-nos explicada candidamente outra situação que pode ser contada assim:

Se fores “lá” e te calhar “el gordo” – podes mandar vir para cá – por “honestos profissionais da candonga” – o montante do prémio – porque – divisas que entrem trazem benefícios ao País – que muito as necessita!

Perante tanta ingenuidade, tal como nos filmes de Charlot – se os “gatos” me fazem raiva – “os ratos” só me fazem dó e também não consigo rir.

Fico apenas queda no meu espanto – a pensar:

-- Será possível?

 

                                              Maria José Rijo

@@@@

Á lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.779 – 29 de Março – 1985

 

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publicado por Maria José Rijo às 14:07


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