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A Alma do negócio

Segunda-feira, 23.07.07

A Senhora Leonor cheirava rapé.

O rapé vendia-se nas tabacarias e, por vezes, naquelas lojecas antigas – as capelistas – lá por esse tempo em que eu era criança.

As rapézeiras, tratavam-se assim, com certo desdém – eram quase sempre pessoas de idade – metiam a “pitada” nas narinas, às escondidas, e assoavam-se depois em grandes lenços escuros para encobrir as manchas de fuligem que lhes escorria do nariz, depois de fungarem o rapé.

“Parece que aquela cheira” – dizia-se à boca pequena, referindo A ou B que frequentavam a loja da Dona Bia da Porta-Nova.

Porta-Nova, era anexim. Contava-se que o pai dela fizera uma porta de “estalo” para a casa, na época em que a comprou e onde ainda morava descendência, e ficou assim conhecido. Depois, quem herdou a casa, herdou o anexim. Por acaso, naquela altura que refiro, a porta e toda a casa já eram bem velhas, mas conservavam ainda certa dignidade e até beleza.

Na fachada tinha um “passo” entaipado – “coisas de republicanos” – explicava a Dona Bia, num tom tão neutro que não permitia reconhecer se concordava, ou não, com o evento.

No beiral de telha mourisca, todos os anos, o arroz-dos-telhados (arroz de gato) e a parreirinha-amor, com as suas miúdas florinhas lilases, faziam viçosa bordadura. Isso preocupava a Dona Bia por causa do algeroz que se entupia, e das goteiras que provocavam repasses nos, tectos do primeiro andar e tornava-a ansiosa para localizar os pedreiros que conhecia.

“Problemas de quem tem propriedades” – dizia a Senhora Leonor, retribuindo o amigável desdém com que a outra fornecia, à sucapa, o rapé. Aliás, rapé, era palavra que jamais se pronunciava ali.

A transacção fazia-se assim: - já tem aí a encomenda?

-- Já, sim Senhora! – ou -  Ainda não!

A resposta era: “Atão dê cá!” – ou – “Volto depois”!

-- Se quer, espere uma migalhinha (ou um nadinha).

-- Vou andando – volto ao acender das luzes.

Se havia freguesia à frente para aviar, a Senhora Leonor conversava bagatelas disfarçando, e esperava que saíssem.

A loja era daquelas que já não há. Tinha um arsenal de coisas penduradas do tecto. Eram velas, meadas de linha, quinquilharias, pincéis. Também comportava uns armários com portas de vidro designados, com pompa, por “vitrinis” – e que ficavam de um e outro lado da porta, com cortina de ramagens, que resguardava dos olhares curiosos a intimidade da contra-loja.

A freguesia era sempre a mesma, antiga, conhecida e fazia invariavelmente as mesmas perguntas:

-- O seu Manolito, tem escrito? – Manolito era o sobrinho muito amado e estroina que vadiava em Lisboa à custa da tia que lhe sustentava necessidade e vícios e que, cochichavam, havia de a levar à falência.

E porque aqueles problemas eram tão conhecidos e crónicas como o reumatismo que lhe entorpecia o andar, ninguém esperava a resposta de ninguém e a conversa seguia como diálogo de surdos.

Um dia, ao fechar as contas, a Dona Bia pôs o candeeiro de petróleo, que à noitinha sempre acendia, sobre um prato de balança. A chama estava alta e pegou fogo aos pincéis que pendiam do tecto.

 

A Dona Bia não reparou, e quem a salvou do drama foi o meu olfacto apurado.

Aí , eu fui recompensada com os rebuçados com senha que davam direito aos prédios que serviam de chamariz à criançada cobiçosa e que os viajantes entregavam à parte para “saírem” à medida das conveniências.

Guardei muito bem o segredo da “minha sorte” que só conto hoje porque já não prejudica ninguém pois, na altura era a alma do negócio.

 

                                                                          Maria José Rijo

 

@@@

A La Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.028 – 2 Fev.- 1990

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 22:03


4 comentários

De Herculano Major a 24.07.2007 às 01:49

Estou deliciado!
Este texto é um pedacinho de mel. Adorei ler a sua prosa Maria José Rijo. O seu blog é uma ternura.
O seu português é tratado como um rei, afinal como ele merece, não é aí como a maioria dos blogs onde querem, desejam muito contar coisas e criticar outras - bom para as criticas e publicação de mentiras há a maioria - mas eu não quero falar de outros, quero dizer que estou encantado com o seu blog.
Maria José Rijo e a sua sobrinha estão de Parabéns.
Muito eu me ri com este texto e era mesmo assim. As memórias que tenho desse tempo, andam mesmo por estes meandros.
Que maravilha!!

Com muita admiração
Herculano Major
dos Açores onde resido felizmente

De Raul Matos e Sousa a 24.07.2007 às 19:40

Olá
Estou cansado de me rir. Acredito que foi mesmo assim.
Sabe Maria José Rijo, ler este seu artigo deu-me a viva emoção que tenho ao ler Isabel Allende. É o mesmo toque, a mesma voz suave no ouvido, o mesmo envolvimento.
Sinceramente gostei.
Não é a primeira vez que leio Maria José Rijo. Noutros tempos lia os seus artigos num jornal de um amigo (Eu sou de Lisboa), depois de ele falecer, o meu saudoso Horácio, companhei-a no Linhas on-line depois... o linhas dava-nos apenas uma uma linha para fazer crescer a água na boca - deixei de ir ao linhas e não mais do que uma semana, encontrei-a por aqui, nestes caminhos felizes da rede.
Bem haja Paula - por deixar que a voz de sua tia esteja ao alcanse do mundo, de todos os que gostam de ler do melhor que há.
Parabéns a ambas - e como lá atraz - Maria José Rijo agradecia aos que deixavam ,um comentário - eu Raul - acrescento aos comentários lá colocados - Nós leitores é que agradecemos esta porta aberta para o bem escrever português, para a forma sublime dos seus textos, para a nossa alegria em poder le-los e apreciar.
Parabéns e não deixem de postar desta bella forma.
Raul Matos e Sousa

De Alexandre M.L. a 24.07.2007 às 23:21

Estou muito contente por ter encontrado este seu Blog.
Ri até me doer a cara.
Que texto bonito. Tem aqui bonitas reminiscências.
Adorei esta sua lembrança.
Muitos parabéns pela forma bonita como fala do que presenciou, do que ouviu e passou por si, naquele passado longínquo quando era menina.
Sinceramente gostei de ler, aliás este blog está repleto de pequenas maravilhas, pedacinhos de passado - do seu bonito passado - e contados na sua forma peculiar, tão sua tão especial.
Desde Abril que ando a ler o seu blog - emocionei-me muitas vezes mas hoje não deixei passar em branco e eis aqui a minha humilde opinião.
Aqui, em Abrantes, na minha sala, este monitor traz-me Maria José Rijo e a sua magia com as palavras, o seu mundo fascinante da escrita.
Parabéns por este blog e pelos seus textos maravilhosos.
Continuarei a ler todos os dias.
Com muita amizade

Alexandre M. L.

De Pedro L.M. a 27.07.2007 às 01:37

Muitos Parabéns
acabei de descobrir o seu blog
É fantastico.

Gosto imenso da sua forma clara, lucida, inteligente, perspicaz, bonita ... de escrever.

Parabéns

Pedro

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