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Segredos do Amor

Sábado, 28.07.07

Verdadeiramente, nunca lhe soube o nome!

Toda a gente lhe chamava “Ti Carrapiço” e eu também, embora sempre tenha pensado que se tratava de anexim, destes que passam de pais para filhos, como é bem vulgar no Alentejo.

Isso também não vem ao caso.

A verdade é que ele respondia tão prontamente pela alcunha, como o “Serra d’Aires” que lhe seguia os passos, pelo nome brejeiro que ele lhe dera: “mira-as por baixo”.

Quando o conheci já ele me parecia velho.

Talvez nem o fosse! – Mas, tinha a pele tão crestada que o seu rosto, visto de perto, parecia terra lavrada – com rugas e rêgos tão certinhos correndo-lhe a cara toda que até parecia obra de arado.

Guardava gado desde criança. Era um homem de corpo curtido, baixote e seco.

Passava frente às nossas janelas, mais ou menos à mesma hora, todos os dias, quando levava os “bichinhos a buver aos pocinhos” – era, então a minha oportunidade – que raramente perdia.

Com a ligeireza dos meus 15 ou 16 anos, corria para ficar à conversa com ele, mal começava a ouvir a música dos chocalhos dos bois, a crescer de tom à medida que se aproximava, para pachorrentamente, beberem à vez.

Ele sabia um sem fim de lendas, superstições, mezinhas e “ditos” que deliciavam a minha imaginação.

A ele por certo, honrava-o a atenção com que uma “menina de estudos ouvia um pobre sem letras”.

Um belo dia, a mulher, a “ti Carrapiça”, que regressava da “venda” da aldeia com a cesta do “avio” à cabeça, ficou por ali um bocado para contar, indignada, que “os moços”, não sei de quem, a tinham “enchido de enxovalhos”: - “ barba d´homem, bruxa velha” e mais coisas no género.

Confortei-a! – mas, fui pensando que realmente a idade a tratara muito mal, se é que a mocidade alguma vez, a teria favorecido!

Os três, como que à porfia, fomos descobrindo a forma mais feroz de classificar os “tais moços”, e, parecia que nada mais havia a dizer quando o “ti Carrapiço, que ficara encostado ao cajado a seguia com o olhar , o vulto da mulher que se afastava, disse falando alto, como quem tem o hábito de comungar com a solidão em cada instante: “só é cá sei como ela ficava bonita nas horas do íntemo”.

“p’racia uma romã! P’racia a’nhâ mãe, que Deus haja! – q'ando amassava o pão p’ra gente!”.

Depois, tomando de novo conta da minha presença acrescentou pouco à vontade! – Saúde! – Vou-me andando!

Precedido pela música dos chocalhos, pontuada pela “esquila” da coleira do cão, lá partiu, perturbado, por ter deixado escapar o segredo de amor que para si próprio guardara a vida inteira.

 

                                                               Maria José Rijo

@@@@

Á la Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1905 – 11 de Setembro de 1991

 

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publicado por Maria José Rijo às 18:24


8 comentários

De Dario Baltazar Dias a 28.07.2007 às 23:29

Bonita história. Muito bem contada.
Aliás a sua forma de contar é peculiar, bela e ao "falar" faz-nos ver exactamente o que os seus olhos viram e ao mesmo tempo quase podemos sentir o que a sra. sentiu.
Estou impressionado pela beleza e sensibilidade de maria José Rijo.
Pela magnífica sensibilidade que em cada texto depeendemos.
Gostei do Ti Carrapiço.
Com muita admiração por si Maria José Rijo.

Dario Dias

De Herculano Mexia a 29.07.2007 às 01:01

Cara Maria José
acredita que estou sempre a espera de um texto seu, sim um novo texto, a cada dia.
Espero sempre sem saber qual será. E quando o leio fico sempre surpreendido. Uns já conheço e outros não. Este já não me recordava mas minha senhora cada um deles é uma autentica maravilha.
Ler Maria José Rijo só me faz bem, porque ao aprender a olhar o mundo de outra forma, aprendo também a olhar de mais perto a sua imensa sensibilidade.
Bem haja por este seu Blog, era mesmo o que faltava nestes caminhos, sem fim, da rede.
EStou muito contente.
Gostei imenso do Ti Carrapiço. Parabéns

Mexia

De muci a 29.07.2007 às 01:37

Olá Maria José
Adorei o seu Blog...muito lindo.
Te adicionei.
Um otimo final de semana
Luciana

De Anónimo a 29.07.2007 às 02:55

Cara Dra. Maria José,

Obrigado por esta história encantadora!
Nunca a conheci pessoalmente, mas espero que tal venha a acontecer um dia, pois sempre apreciei muito as reflexões que partilha connosco.
Um abraço de Portalegre
Antonio Mendes
Blueamm@sapo.pt

De Manel Maria B.M. a 29.07.2007 às 14:54

Cara Maria José Rijo só lhe venho comentar que adorei o seu blog.
Aos meus 85 anos é muito agradável andar por estes caminhos e ler textos como este seu, de onde eu retiro imagens, que tenho dentro de mim.
Não sou Alentejano, mas passei muitos anos da minha juventude em Serpa, Beja e toda essa zona, que parece também , ter sido sua.
Estas reminiscências são lindas e escritas ou contadas de uma forma surpreendente. Muitos Parabens e a partir de agora cá me há-de ter a ler estas pequenas maravilhas que escreve.
Com muita admiração - beijo-lhe a mão...

Manel Maria B. M.

De Rui Pinheiro M. a 29.07.2007 às 16:31

Maria José Rijo escreve como Deus manda.
Lindo, Perfeito !
Gosto bastante de vir saciar o meu espírito desta sua cultura e sensibilidade.
Os meus Parabéns e votos de Felicidades.
Este Ti Carrapiço está muito bem contado e a figura muito bem retratada. Gostei da fotografia dos Tios Carrapiço.
Tem muita piada e muita verdade.
Grato por poder usufruir desta boa leitura.

Rui Pinheiro M.

De Luis Mateus a 29.07.2007 às 18:38

Adorei este seu texto, tanto que tive de aqui, hoje, escrever um comentário.
Gosto muito de vir ler os seus textos. Normalmente leio-os durante a noite, aquando das minhas insónias. Mas sou, desde que este blog é blog, um leitor assiduo. Todos os dias os meus olhos lêm as suas mensagens, para o mundo, a sua experiência e sensibilidade. É sempre uma lufada de luz.
Esta reminiscência é uma delicia. Através das suas palavras consegui, também eu, sentir um pouco desse homem que foi o Ti Carrapiço. Quase lhe senti o cheiro.
É maravilhoso poder ler Maria José Rijo, sinto-me um homem de sorte, como todos os que têm acesso a este bem.
Daqui de Tomar, onde tenho uma casinha, vão os meus cumprimentos
e a minha admiração

Luis Mateus

De Rogéria Dimas a 29.07.2007 às 20:41

Olá Maria José Rijo
Hoje o meu neto Lourenço Manuel, trouxe-me aqui ao seu blog, para ver a fotografia destas pessoas alentejanas e depois leu-me o texto, que muito me emocionou.
Agora vivemaos em Almada, mas a minha meninice foi passada entre Évora e Beja. De lá tenho lembranças do género das suas, daí a minha emoção.
Como eu não percebo nada destas máquinas, ele é que está a escrever.
Gostei de ouvir as suas recordações.
Muito grata por ter-me levado ao passado e feito sorrir.
Gratos
Rogéria e Lourenço

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