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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Sinais dos tempos

Vamos lá saber porquê, pequenas frases, esparsos de poemas, estribilhos de cantigas, entoações de vozes, se agarram ao nosso pensamento e por lá ficam flutuando...

Vamos lá saber porquê!

Às vezes, parece que desaparecem, que se perdem da memória, como se perdem de vista os pequenos destroços que vão vogando nas correntes de rios tranquilos. Vão para longe, como que sem destino, até que encalham nalguma margem, e por lá se quedam encobertos com a vegetação, como despojos inúteis que ninguém reclama e que o tempo desgasta e consome.

Com as memórias, não.

Elas afastam-se, perdem-se do nosso presente. Aquietam-se no silêncio como se estivessem mortas.

Porém, um dia, num momento inesperado, - vamos lá saber porquê!- elas regressam vivas e frescas à nossa consciência, como na hora em que nelas fixamos a nossa atenção e as guardamos para sempre sem que disso tivéssemos tido , a percepção, sequer...

Mais uma vez assim aconteceu.

Prestando atenção a algumas entrevistas feitas a crianças, e tomando nota da forma displicente como, na sua maioria, elas se dirigem aos adultos, vieram-me à memória lembranças, reminiscências de cenas passadas naqueles velhos tempos em que as “pessoas crescidas”, como era uso das crianças dizerem, eram tratadas com deferência, ou, até, distanciamento cerimonioso.

Nessas épocas, os Mestres, eram as Senhoras ou os Senhores professores, as Senhoras, ou Senhores doutores.

Os neologismos: - Soutora e Soutor, ainda não faziam parte do nosso léxico!

O “bué de fiche”, também ainda não fora inventado; e palavras como gaja, tipo, porreiro, e outras mais, que me recuso ainda a querer achar apropriadas para uma conversa civilizada, faziam parte das expressões dum certo meio libertino a que ninguém se honrava de pertencer.

            Pois, por esses “tempos caretas,” uma Avó pacientemente ensinava sua pequena neta a rezar antes de adormecer.

Segurando-lhe na mão ajudou-a a persignar-se e, começou a recitar em voz alta a Avé-Maria, para que a criança fosse repetindo, o que a menina fazia, com muita atenção e cuidado.

Terminada a oração, notou a Avó que a garota ficara pensativa.

Perguntou-lhe então qual era a apreensão que parecia tirar-lhe o sono.

A resposta veio na forma de interrogação.

Avózinha, esta Maria da oração quem é?

Nossa Senhora, - elucidou a Avó- pois quem havia de ser!

Então, não era melhor dizer: Avé, Senhora Dona Maria?

Desculpe Avó, mas assim, só Maria! - Parece falta de respeito.

Relembrando esta história verdadeira, passada com uma menininha de cinco anos, não resisti a contá-la, porque também por estes pequenos nadas, como são os ditos de crianças, se podem às vezes aferir os sinais dos tempos, e a evolução dos costumes...

 

                                                                  Maria José Rijo

@@@@@@

Revista Norte Alentejo - Crónicas

Nº 20 – Junho / Julho 2002

 

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