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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Afecto e desafecto

.

A cada passo se escutam frases de repúdio por esta ou aquela pessoa porque nos fez um gesto, porque nos disse uma palavra, que nos magoou, nos feriu o orgulho, o amor-próprio, a sensibilidade.

...olhos nos olhos...

A cada passo, penso então, se isso estará certo. Se será assim que se enriquece a Vida.

E, fico sempre com a sensação de que muito se confunde afecto com maneira de ser, com feitio.

....

Se tomarmos como referência o amor maternal, não nos consta que um mau feitio de um filho, gere o desafecto da mãe.

Antes pelo contrário. Gera uma maior protecção.

Parece evidente que o amor verdadeiro pode superar a falta, o erro.

Parece evidente, assim, que no amor humano, pode caber o perdão, a tolerância.

Estava a pensar na mágoa, na dor de perder um afecto.

Estava a pensar na confusão de sentimentos, que por vezes a ofensa gera.

Estava a pensar em como é fácil deixar que o amor-próprio, o orgulho, tomem conta de situações dessa natureza e destruam uniões, amizades, afectos que o tempo parecia ter cimentado com segurança para sempre.

Como a vida... cada dia, sua cor

Penso que devemos a nós próprios, aos nossos comportamentos uma atenção rigorosa para discernir, o que é realmente ofensivo e o que é apenas o beliscar do empolamento que damos a tudo que nos diz respeito, como se o mundo girasse em torno de nós e só os outros errassem e fosse privilégio nosso ter sempre razão.

Lembro-me sempre enternecidamente da sabedoria que o velho conto infantil da estrelinha de oiro na testa nos transmitia na infância.

Recuar no Tempo... (III)

Quando a personagem da história que rira com o mal dos outros chorava depois, desolada quando o feitiço se virou contra ela, a fada perguntou-lhe: - A ti não porquê, tens alguma estrelinha de oiro na testa?

Então, confusa, reconheceu que não. Que era igual a toda a gente.

Trabalhos Manuais...

Assim também a nós acontece. Aceitamos o temperamento difícil de A, ou B, encolhemos os ombros quando os outros estão em jogo. Depois, uma certa vez o incómodo bate-nos à porta. Então valoriza-se o pormenor, avoluma-se a injúria, e esquece-se um passado de afecto por uma qualquer ridicularia.

Às vezes, muitas vezes, é o receio do mau julgamento dos outros que nos retém na atitude irredutível que nos aperta o coração.

De costas voltadas

Nesta corrida desenfreada que é a Vida de hoje, acontece-me, muitas vezes parar, escutar, e olhar como se faz nas passagens de nível, e deixar que o peso do tempo que já por mim passou me ajude a confessar que aprendi que nunca o desafecto deve matar o afecto.

Nunca um erro pode ter a força de apagar uma Vida cheia de provas de afecto. Porque, nenhum de nós, nenhum de entre nós poderá querer admitir que o mal tem mais força do que o bem.

Marcher sur le ciel

Talvez o que todos tenhamos que reconhecer é que o medo de não sermos amados como julgávamos ou quereríamos ser, faz disparar em nós, a vaidade, a soberba, a presunção de que o vencedor é o primeiro a desprezar, e não o primeiro a procurar entender, a estender a mão a aceitar que , como dizia Rainer Maria Rilke “ Amar também é bom por  que o amor é difícil”

Fiadeiras da Póvoa

E a amizade, talvez não seja mais nem menos do que uma forma menos exclusivista de amar, por isso, difícil também, mas, embora se trate de sentimentos diferentes, são bens de alma pelos quais vale a pena lutar e viver.

 

    Maria José Rijo

 

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Revista Norte Alentejo – Crónicas

Nº 22 – Out./Nov. /02

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