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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Guardar Recordações

         A recordação em si, provém da carga de emoção, ou de imaginário que atribuímos às pessoas, coisas ou factos que retemos na memória.

            Para a recordação, é tão importante o mais belo monumento do mundo, como uma só pedra, um cheiro, uma folha seca, um olhar, um reflexo de luz...

 Quero dizer, qualquer coisa, pode significar imenso ou nada.

            Às vezes é apenas uma sensação, vaga e quase indefinível que torna um momento inesquecível.

            Até a lembrança da goteira gelada que, uma vez, nos pingou na cabeça num dia de chuva igual a muitos, pode marcar um momento que depois se conta ou recorda dizendo: uma ocasião passei aqui, tinha parado de chover; vinha tranquilamente a respirar o ar lavado e ainda húmido.

           Era já escuro. Foi então que uma sensação de gelo me arrepiou como se fora um uivo de medo cortando o sossego da noite, apenas pelo desconforto da água morta que do telhado gotejava, me acertar molhando-me o cabelo e escorrendo-me pelo pescoço até o calor do meu corpo lhe apagar o rastro.

O que cria a recordação, não é propriamente o facto real. O que cria a recordação é a nossa emoção.

           Na verdade todos os dias depois de todas as chuvadas pingam goteiras. É uma realidade. Porem também é realidade que nós só recriamos pela palavra, só transfiguramos através do nosso sentimento aquele instante que nos tocou de forma singular e nos pareceu diferente daquele que recordaremos.

          Aquele que libertamos do real.

          Aquele a que ficamos presos pelo imaginário.

Assim nascem as diferentes recordações das diferentes pessoas frente às mesmas circunstâncias, às mesmas realidades.

            Por isso, recordação, nasce do facto real, mas não é necessariamente o relato histórico.

A história é o relato exacto, verificável pelas épocas, pelas datas.

            A lembrança, a recordação é o conto da alegria, da dor, da saudade, da surpresa, do sonho, do mistério - da Vida em si, - que a emoção recriou, transformou, e se torna real porque provindo do sentimento é tão autentica como um bater de coração e pode ser tão fantástica como a mais bela lenda ou o mais imprevisível acontecimento.

Só assim se entende o retrato, a pontinha de renda, que se descobrem no fundo das gavetas esquecidas e que sendo apenas um retrato, ou, uma ponta de renda deixam de o ser somente porque a memória, a recordação os separou da realidade tornando-os nos testemunhos dos sentimentos que revestiram os momentos a que estão ligados.

Estava a ver uma reportagem feita num Lar de idosos. A certo passo alguém pergunta a alguém, com doçura: - o que tem aí?

A resposta foi:- um retrato!

Mostre! Uma mão de anciã, descarnada e trémula, estende-se segurando um pequeno rectângulo de cartão meio amachucado. Seus olhos choram, mas estóica, sorri.

Um retrato.

Sim, era realmente um retrato.

           O que não se via. O que não se vê, o que não se sabe é o que o coração, a alma, da velha Senhora sabem e guardam daquele afecto, daquela mágoa, daquela saudade que transformaram o pequeno documento em preciosa recordação

Talvez a sua presença no Lar fosse apenas uma vulgar história de ingratidão.

Talvez apenas uma vulgaríssima história de egoísmo

Talvez, pensando nisso, apenas um sofrido perdão soltasse aquela lágrima.

Ou, quem sabe, se a morte era a raiz sem remédio da solidão que ali a conduzira.

A velha Senhora, escondia num sorriso com lágrimas, sem acusações, as suas lembranças; e sem o saber, a sua imagem ficou indelével nas minhas como sempre ficam em nós as recordações tristes das injustiças que não podemos alterar

As que conhecemos e as outras que pressentimos...

E, quem garante que era a injustiça ou o abandono que a faziam chorar!

Talvez, apenas, por intimo pudor, ela calasse para guardar avaramente, só para si o que só a dois poderia ter vivido - uma bela história de amor                            E, essa é sem dúvida a lembrança que só morre, quando  morrer quem a tiver vivido e mesmo fazendo chorar acalenta a Vida até ao fim.

 

                                              Maria José Rijo

@@@

Revista – Norte Alentejo - Crónica

Nº 5 – Outubro/Novembro de 2000

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