Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
REZAS E BENZEDURAS III
Minha lindíssima Tia Francisca Amália - irmã mais nova de minha Avó
paterna, a quem deferentemente tratava por “Mana” - namorou quanto desejou (privilégio de sua distinção , graça e beleza) esteve noiva de um Marquês de Alvito e morreu aos noventa anos - solteiríssima - por sua escolha.
Foi dela que minha irmã e eu recebemos uma notável herança de memórias e tradições de família, já que, quando Deus chamou nossa Avó ainda eramos tão jovens que não avaliavamos a importância do legado que nos era, por ela, oferecido.
Francisca Amália - a Tia Chica
- quando se viu como a representante mais idosa da família - chamou a si - naturalmente - o legítimo direito de dirigir as “relações públicas” com a Corte Celetial - como já minha avó M. Bárbara fizera ao suceder nessas funções a sua Mãe minha bisavó Mariana. Todas bondosíssimas e devotas senhoras.
Sabiam o Santo ou Santa a invocar em cada circunstância e a forma de o conseguir – ou seja: - a reza adequada.
Lembro-me que quando deram, por engano, salsa ao canário junto com alface - o passarinho morreu por subida de tensão - como diagnosticou o veterinário que veio apreciar o drama.
Pois, mesmo assim, partiu reconfortado com uma prece a S. Francisco de Assis, que, era suposto tê-lo feito ressuscitar pela fé de minha tia e pela nossa choradeira - o que - obviamente , não aconteceu.
Naqueles tempos ninguém saia de casa sem pedir permissão para o fazer, dizer para onde ia e dar um beijo de cortesia a pais e parentes.
Eram esses os costumes.
Daí que ninguém saísse à porta sem ser abençoado ou responsado, por eles, amorosamente.
(desenho de Manuel Jesus (1933-2001)
@
Fazendo o sinal da Cruz, assim, rezava por nós minha tia:
“ Na arquinha de Belém seremos nós guardados
Com o leite da Virgem seremos borrifados
O Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
teremos em nossos corpos.
Para que não sejamos presos, nem mortos
nem maltratados, nem da justiça apanhados.
Caminhos escusos andaremos
Os maus e os bons encontraremos.
Os maus não nos verão e os bons nos guardarão.
E andaremos tão em paz e tão salvos como os
fradinhos de S. Francisco
quando receberam as cinco chagas de Cristo.
Chagas abertas, coração ferido, sangue de Nosso Senhor
Jesus Cristo
derramado entre nós e o perigo.
Anjo da nossa guarda - nos guarde
Santas e Santos dos nossos nomes e todos os
Espíritos em geral
e Vós
tomai-nos na vossa protecção.
Defendei-nos de todas as tentações do demónio
e alcançai-nos
em Deus (um dia, uma noite, uma viagem, o que
se pretender)
sossegado e feliz.
A graça de uma santa e ditosa morte que nos
conduza à vida eterna
- Amém ! “
Considero este responso um poema enternercedor.
Uma verdadeira delícia de ingenuidade, beleza, doçura e fé.
Quando evoca os “fradinhos de S. Francisco” - até me parece vê-los, na modéstia dos seus hábitos, como formiguinhas deligentes arrostando temporais e perigos - amparados na sua fé - calcurreando montes e vales para espalhar o bem.
Pode o tempo e a idade dar-nos uma visão diferente dos factos que na infância vivemos com uma emoção e simplicidade irrecuperáveis.
Pode.
Porém, nada, rigorosamente nada, altera a evidência da força do amor – do sonho indomável de desejar proteger - resguardando do mal aqueles que nos são queridos.
Hoje, com 97 anos, poderia ser minha mãe e chamar a si estas rezas e benzeduras.
Nunca o fez, nem o fará – são outras as suas raízes.
Mantem-se fiel a Nossa Senhora e ao Divino Espirito Santo. Recita o Pai-nosso, a Avé-Maria, o seu Terço diário.
Chamei, por isso, a mim estas reminiscências. E, agora que os Candidatos à nossa Câmara Municipal já tomaram lugar na grelha de partida – para amenizar tamanha responsabilidade resolvi responsá-los a todos.
É que bem precisamos todos da graça de Deus.
Eu os responso:
“ Que lhes valha S. Silvestre
E as três camisas que ele veste
E as três toalhas de altar
Que não haja homem ou mulher
Que lhes possa fazer mal “
Tratados assim, tão democraticamente, por igual espero que o vencedor ao ser confrontado com alguma opinião divergente - que sempre houve, há, e haverá opiniões diferentes - não se julgue perseguido ou vítima de mau olhado.
Maria José Rijo
@@@@@@
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.409 – 4 – Julho-1997
Conversas Soltas
@@@
Livro Publicado em Novembro de 2000

Pode adquirir este livro no Jornal Linhas de Elvas
Autoria e outros dados (tags, etc)
5 comentários
De Dolores a 04.09.2007 às 00:09
Mas que texto LINDO!
Que tia LINDA esta sua.
Hoje despachei-me a correr dos afazeres da cozinha para vir bisbilhotar o seu belisimo blog e hoje vejam o que tinha para ver.
Este texto que é uma delicia e uma oração a esta tia Chica - tão linda.
Deveria ser - foi - uma Senhora inesquecivel e agora aqui eternizada e levada para longe, para que muitos olhos e corações possam ler e conhecer, atraves de si, Maria josé Rijo - este legado de uma sua tia - tão querida.
Vou imprimir este texto e guardar junto de outros.
Este seu livro deveria estar numa boa livraria, para todos os que quizessem poderem comprar.
Beijinhos D. Maria José, hoje vou dormir tão feliz.
Sabe, está a ser um vicio muito agradavel o de andar a correr para ver os seus textos.
O meu marido, brincava comigo agora é ele que me vai dizer que já tenho texto novo.
Beijinhos
até amanhã
Dolores
De Dalvinha a 04.09.2007 às 11:08
Como te prometi cá estou eu a ler o teu blog preferido.
Deixa--me dizer-te que concordo contigo - aqui sentimo-nos em casa.
Maria José Rijo escreve muito bem e é uma Senhora muito linda nos seus 80 anos.
Esta fotografia da Tia Chica - é uma formosura. Também gostei imenso.
Grata a Maria José Rijo que tem um blog muito bonito e escreve como Deus manda.
Agradeço também a minha amiga Dolores que me MANDOU e cá estou eu e muito satisfeita.
De Coimbra
muitos beijinhos
Dalvinha
De Alice Tavares a 04.09.2007 às 09:01
Gosto muito do seu Blog, este texto é uma oração de beleza, de amor e carinho a esta sua tia, tão bonita.
Sou uma apaixonada pela fotografia antiga e esta, sem restias de dúvidas, é uma Senhora muito bonita.
Com este chapéu e aquela elegância na pose.
Bem haja pelo tema e pela forma singular como o leva a todos os que por aqui passam.
A sua forma de escrita/comunicar é como quem conversa. Para mim igual a isabel Allende.
Os meus Parabéns por esta página sensivel e pelo toque da sua sensibilidade, por esta reminiscência que é uma oração a Deus.
Continue porque este blog vale ouro!
Com admiração
Alice Tavares
De Xavier Antunes a 04.09.2007 às 11:00
de muito longe descobri o seu blog e estou contente.
Tem uma escrita inteligente, sensível, lucida e muito emotiva.
Sinceramente Gostei desta sua janela para a rede de redes.
Foi uma honra ler o seu blog.
Xavier Antunes
De Alexandre F. a 04.09.2007 às 14:11
Atraiu-me a forma lucida e magnifica da sua escrita.
Obrigado pelos pelos postais que se formaram nos meus olhos, a cada frase, a cada palavra.
Bem Haja
É Formidável!
Alexandre

