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Quando o Amor é o Tema

Quarta-feira, 12.09.07

         Nada há de novo sobre a terra.

            Tudo o que acontece, já antes aconteceu.    

            Isto não impede que todas as experiências se possam repetir.

Todas, excepto nascer e morrer.

Só se nasce e morre uma única vez.

            Sendo assim, tudo, à partida já é conhecido, sabido, já vivido...

            Mas... há sempre um mas. Todas as coisas já sabidas, já vividas, já conhecidas, são, e serão, sempre novas para quem nelas se estreia e as vive pela primeira vez.

E há sempre, para tudo, uma primeira vez.

            Por essa simples razão, o amor, o velho e decantado amor, é também, e para sempre assim permanecerá, eternamente novo,  para as sucessivas gerações que o vão descobrindo .

            Porém o amor é um sentimento. Como todos os outros sentimentos, surge na alma das pessoas. Não se semeia, nem se lhe escolhe o momento de acontecer.

Não se sufoca e mata embora se abafe, ou dissimule e possa controlar o seu ímpeto e as suas manifestações .

Isto são verdades de trazer por casa ,eu sei. No entanto, a elas não se pode fugir. Sendo o amor um sentimento , dele não se pode dizer que se faz., mas sim que se vive.

            Também ninguém faz a dor, a alegria, o deslumbramento, a indignação...

            São tudo sentimentos ou sensações perante as quais nos encontramos muitas vezes inesperadamente e sem defesas porque acontecem provindo de situações que podem escapar do nosso controle. Situações e emoções, que outros podem provocar em nós.

            Também ninguém faz a vida!

            Preserva-se, cuida-se, porém, não se comanda em absoluto, como não se comanda a felicidade, ou o estado de alma que se lhe opõe : - a infelicidade.

            Ora acontece que a todo o momento, agora, toda a gente afirma à boca cheia, cantando e rindo que faz amor .

            Pasmo da ligeireza com que se fala de coisas tão sérias , confundindo actos com sentimentos  como se do mesmo se tratasse.

            Penso na insensatez que permite tudo baralhar para tudo facilitar, e tudo  fruir com a irresponsabilidade de quem não mede  ou, simplesmente, despreza consequências e consciências...

            Dá que pensar como se tratam as coisas mais sérias, mais nobres, que a existência nos pode oferecer, como é o amor.

 Sorrio por vezes, inquieto-me outras e penso invariavelmente no grande poeta do Amor e da Morte - Rainer Maria Rilke- que escrevia assim : “ Inclinados a ver no amor apenas um prazer, os homens tornaram-lhe o acesso fácil, barato, sem riscos, como um divertimento de feira, quantos seres jovens há que não sabem amar, que se limitam a entregar-se, como acontece correntemente (e decerto a maioria limitar-se-á sempre a isto e vergam depois sob o peso do seu erro!) O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o

ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes.

           Quando o amor surge, os novos apenas deveriam ver nele o dever de se trabalharem a si próprios. A faculdade de nos perdermos noutro ser, de nos dar a outro ser, todas as formas de união ainda não são para eles.”

Ou, ainda  : “Na medida em que estamos sós, o amor e a morte tocam-se. As exigências dessa terrível empresa que é o amor através da nossa vida não são à medida dessa vida e jamais estaremos à altura de merecer o amor desde os primeiros passos.”.

O amor não se faz - vive-se.

Pode o sexo ser dele uma consequência natural e ser um acto de amor.

Porém, nunca o sexo em si, e só por si ,pode significar amor.

Porque o amor entre um homem e uma mulher, e volto a citar Rilke : “são duas solidões que se protegem, se completam, se limitam e se inclinam uma para a outra.”

Se a Vida nos transcende, o Amor, também nos transcende, porque transcende a nossa própria Vida.

 

                                                       Maria José Rijo

@@@

Revista Norte Alentejo

Nº 4 – Setembro de 2000

Crónica

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:56


4 comentários

De Dolores a 13.09.2007 às 00:54

Cá estou eu...
Muito obrigado por mais este belo texto. A Senhora escreve tão bem, tão bem e diz tudo numa forma tão maravilhosa - que eu nem tenho palavras que estejam em posição, de saberem expressar o que sinto quando a leio.
Fico feliz e tem frases que não me saem da cabeça.

Felicidades e desejos de muita saúde e muitas alegrias para que continue a falar da vida, nesta forma especial e única - a sua.

Beijinhos e até amanhã...
Cá estarei sem falta.

Vou dormir que amanhã é dia de trabalho.
Bons sonhos

DOLORES

De Dolores Maria a 13.09.2007 às 16:38

Estou aqui... de novo...
Este texto é lindo, uma maravilha.

Estive conversando com as minhas amigas e elas prometeram vir cá hoje, ainda agora de tarde, ler este pedacinho, porque é uma maravilha.

Sabe, através dos seus textos tenho a ligeira impressão de a conhecer de sempre, por vezes parece que a conheço de verdade... era bom, mas contento-me em poder ler estes pedaços da sua alma, do seu coração, retalhos da sua imensa sensibilidade.

É bom conhecer Maria José Rijo, nem que seja apenas aqui através deste computador...

... Logo... cá estarei para receber a novidade do dia 13.

Beijinhos

DO LO RES

De Flor do Cardo a 13.09.2007 às 16:44

Muito Boa Tarde

Depois de tanto silencio - da minha parte - aqui estou eu - o seu amigo e admirador - Flor do Cardo.

Gosto imenso da sua forma de escrever. É fascinante esta sua forma de comunicação, a sua sensibilidade nota-se de longe.
Parabéns pelo seu texto de hoje - no Jornal Linhas - ADOREI, como sempre aliás.

Descobri esta sua linda janela por um amigo que tem Internet. Bisbilhotei e devo dizer que gostei.
Parabéns.
Bem haja por este cantinho.

Beijo-lhe a mão

Flor do Cardo

De Marcos Visconde a 13.09.2007 às 23:51

O seu blog é muito bonito
os seus textos estãocheios de uma bela magia - a magia das palavras - que a Senhora tão bem manobra.
Gosto de escrita fluidamente lucida, especial e que trata o português, como gente.
A Senhora brinca com as palavras, faz delas este conjunto de flores cheias de perfume e beleza.
Alegra-me a alma, o coração.
Hoje é a primeira vez que escrevo neste seu blog, mas já faz meses que ando por aqui, todos os dias, lendo e relendo... convivendo em silencio e remoendo as suas palavras, as suas frases...

Gosto de ler - e Maria José Rijo escreve com coração, com uma sensibilidade que me chega a arrepiar...
nas suas reminiscências vejo-me a rir, a chorar, a pensar e a imprimir os textos, para os voltar a ler.

É bom, gostosamente agradavel poder, através deste monitor, "conhecer" e conversar - em silencios - com Maria José Rijo.

Parabéns
Venho cá todos os dias deliciar-me
Obrigada por espalhar no mundo tanta beleza.
Obrigada também à Paula, sua sobrinha, que afortunadamente tem a grande alegria de ter uma tia
chamada Maria José Rijo.

Parabéns
Marcos V.

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

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