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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Quando o Amor é o Tema

         Nada há de novo sobre a terra.

            Tudo o que acontece, já antes aconteceu.    

            Isto não impede que todas as experiências se possam repetir.

Todas, excepto nascer e morrer.

Só se nasce e morre uma única vez.

            Sendo assim, tudo, à partida já é conhecido, sabido, já vivido...

            Mas... há sempre um mas. Todas as coisas já sabidas, já vividas, já conhecidas, são, e serão, sempre novas para quem nelas se estreia e as vive pela primeira vez.

E há sempre, para tudo, uma primeira vez.

            Por essa simples razão, o amor, o velho e decantado amor, é também, e para sempre assim permanecerá, eternamente novo,  para as sucessivas gerações que o vão descobrindo .

            Porém o amor é um sentimento. Como todos os outros sentimentos, surge na alma das pessoas. Não se semeia, nem se lhe escolhe o momento de acontecer.

Não se sufoca e mata embora se abafe, ou dissimule e possa controlar o seu ímpeto e as suas manifestações .

Isto são verdades de trazer por casa ,eu sei. No entanto, a elas não se pode fugir. Sendo o amor um sentimento , dele não se pode dizer que se faz., mas sim que se vive.

            Também ninguém faz a dor, a alegria, o deslumbramento, a indignação...

            São tudo sentimentos ou sensações perante as quais nos encontramos muitas vezes inesperadamente e sem defesas porque acontecem provindo de situações que podem escapar do nosso controle. Situações e emoções, que outros podem provocar em nós.

            Também ninguém faz a vida!

            Preserva-se, cuida-se, porém, não se comanda em absoluto, como não se comanda a felicidade, ou o estado de alma que se lhe opõe : - a infelicidade.

            Ora acontece que a todo o momento, agora, toda a gente afirma à boca cheia, cantando e rindo que faz amor .

            Pasmo da ligeireza com que se fala de coisas tão sérias , confundindo actos com sentimentos  como se do mesmo se tratasse.

            Penso na insensatez que permite tudo baralhar para tudo facilitar, e tudo  fruir com a irresponsabilidade de quem não mede  ou, simplesmente, despreza consequências e consciências...

            Dá que pensar como se tratam as coisas mais sérias, mais nobres, que a existência nos pode oferecer, como é o amor.

 Sorrio por vezes, inquieto-me outras e penso invariavelmente no grande poeta do Amor e da Morte - Rainer Maria Rilke- que escrevia assim : “ Inclinados a ver no amor apenas um prazer, os homens tornaram-lhe o acesso fácil, barato, sem riscos, como um divertimento de feira, quantos seres jovens há que não sabem amar, que se limitam a entregar-se, como acontece correntemente (e decerto a maioria limitar-se-á sempre a isto e vergam depois sob o peso do seu erro!) O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o

ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes.

           Quando o amor surge, os novos apenas deveriam ver nele o dever de se trabalharem a si próprios. A faculdade de nos perdermos noutro ser, de nos dar a outro ser, todas as formas de união ainda não são para eles.”

Ou, ainda  : “Na medida em que estamos sós, o amor e a morte tocam-se. As exigências dessa terrível empresa que é o amor através da nossa vida não são à medida dessa vida e jamais estaremos à altura de merecer o amor desde os primeiros passos.”.

O amor não se faz - vive-se.

Pode o sexo ser dele uma consequência natural e ser um acto de amor.

Porém, nunca o sexo em si, e só por si ,pode significar amor.

Porque o amor entre um homem e uma mulher, e volto a citar Rilke : “são duas solidões que se protegem, se completam, se limitam e se inclinam uma para a outra.”

Se a Vida nos transcende, o Amor, também nos transcende, porque transcende a nossa própria Vida.

 

                                                       Maria José Rijo

@@@

Revista Norte Alentejo

Nº 4 – Setembro de 2000

Crónica

 

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