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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Rezas e Benzeduras V - I Remember September

               Em Setembro -    muitos anos - cinquenta e quatro  exactamente, vim a Elvas de visita pela primeira vez.

               Era S. Mateus.

               Festejava-se o Senhor Jesus da Piedade. “Menina e Moça”, que era, como no dizer de Bernardim – cá encontrei meu par que namorei de janela alta à moda desses tempos.

               Primeiro andar – era a fasquia mínima – das regras de então -  só superável  em qualidade por janela de rés-do -chão  com  grades de ferro e rede mosquiteira.

               Eram na Rua João do Casqueiro as sessões de “ gargarejo” sob escuta de vizinhança que se adivinhava pelo tremelicar das rendas das cortinas, nas vidraças indiscretas – encostadas não fechadas – para que, além da imagem lhe chegasse o som...

               Era na mesma faceira, à direita, quando se desce, onde há logo a seguir “ duas janelas de ferro batido com balaústres e laçaria “que são citadas num estudo da renascença em Portugal – conta Raul Proença.

               Havia então, nessa tal casa, onde eu habitava com minha Tia Madrinha, para ajudar nos arranjos domésticos uma alegre rapariga, do Povo de S. Vicente, chamada Alda. Ela compartilhava dos namoros das meninas da casa entre as quais me contava – tudo gente das mesmas idades. A retribuição desses favores era-lhe concedida com a invenção por nós de oportunidades que lhe permitissem fugazes encontros de esquina, com o seu próprio namorado.

               Era ela que generosamente entretinha minha Tia Madrinha com perguntas e confusões de ardilosas ignorâncias culinárias ou outras, sempre lá para os fundos... para que pudéssemos largar os livros e correr às janelas quando o som das patas dos cavalos faiscando na calçada anunciava a presença dos “senhores alferes”, a passar, caracolando lentamente nas suas garbosas montadas.

                             (Desenhos de Manuel Jesus - Pintor de Elvas)    

                                                           -----

Foi ela quem nos ensinou a oração a Santa Helena, que rezávamos para adivinhar o futuro dos nossos ingénuos romances e que, nos fazia andar dias inteiros, ensonadas, suspirosas e olheirentas, segredando pelos cantos a tentar como pitonisas interpretar sonhos de que retínhamos apenas farrapos esparsos.

               Sonhos que nos devastavam o descanso e o aproveitamento nas aulas.

               Deitávamo-nos nervosas, assustadas, de cabelos soltos e braços cruzados sobre o peito repetindo com um gostinho de medo, de gozo e de pecado a misteriosa oração com seu cheirinho a bruxaria que nos deslumbrava mas causava arrepios.

                    

ORAÇÃO A SANTA HELENA:

 

               Srª. Santa Helena filha do Rei Irene

               Vós que pelo mundo andaste com a Virgem vos encontrastes

               Com Ela vos aconselhastes

               A cruz do Santo Lenho achastes

               Os três cravos  que ela tinha  todos três vós lhe tirastes

               O primeiro deitaste-lo ao mar

               O segundo  deste-lo ao Santo Lenho

               O terceiro com ele ficastes

               Por esse cravo que vós tendes Senhora eu vos peço

               Que me declareis em sonhos bem declarados:

               (faz-se o pedido)

               Se assim for que eu veja :

                                         casas caiadas, roupas lavadas, águas claras

                                         campos verdes e mesas alçadas

               Se assim não for que eu veja:

                                         paredes escuras, roupas sujas, águas turvas

                                         campos secos  e espadas nuas

                                         Padre-nosso, Ave-maria

                                 (repete-se a oração três vezes)

                                                -----------------

               Depois, pela manhã, enquanto nos serviam o café, confabulavamos confrontando as interpretações cabalísticas dos enigmas que relatávamos – sonhados ou, ainda mais inventados pelos nossos pavores, remorsos e temeridade.

               (Querido e Santo Padre Marcial, como se terá divertido na sua tolerante bondade com as confissões escutadas nas primeiras Sextas feiras do mês no antigo Colégio Luso...)

               Setembro em Elvas, para mim, é o mês de todas as magias...

               Era o mês das noivas com os seus fatos brancos, seus véus, de braço dado com seus maridos a passear solenes nas noites de arraial...

               São as manhãs luminosas e frescas transparentes e aniladas. As tardes serenas e doces de brando anoitecer...

               São os dias ainda quentes em contraste com as sombras já frescas que os prédios projectam nas ruas estreitas do casario fechado entre muralhas...

               São as árvores ainda verdes que já não podem, no entanto, esconder a folhagem que empalidece...

               É o tempo em mudança.

               O fim da estação a marcar presença com as folhas caídas que bailam enfim soltas, a sua dança de liberdade e morte.

               É o toque da angústia de tudo o que finda.

               O vazio nostálgico onde a esperança há-de medrar e reviver.

               É o tempo a orquestrar na sua divina sabedoria o envelhecer do Verão.

               Não mais luz violenta, agressiva, que tudo devassa – não mais o calor que derrete, abrasa e estorrica.

               É o insinuar da transformação que anuncia o repouso da Natureza – como a meia-idade traz ás pessoas a ponderação e a calma no Outono da vida.

               É a descoberta do saborear de cada momento, do instante fugaz, do recato, do segredo, do sorriso, da recordação, do mistério da vida que se pressente mas nos escapa ao entendimento.

              É o mês em que casei há cinquenta anos e celebro agora só.

              Só, como se nasce.

              Só, como se morre, mas, com o coração pleno do que se viveu se relembra com dor e alegria, como uma música suave, que vem de longe, nos delícia, nos comove e faz chorar.

              Como uma canção de embalar que se escuta até que a paz do sono nos invada.

                               “I Remember September “

              É o título de uma velha e linda balada de amor desses tempos idos que um cantor famoso celebrizou. 

                             “I Remember September...”

           

 

                                                                Maria José Rijo

@@@

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.419 – 19- Set.- 1997

####

Livro publicado:

Rezas e Benzeduras

##

Este livro pode ser adquirido no Jornal Linhas de Elvas

                                       

 

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