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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

O pequeno castanheiro – (história verdadeira)

         Quando rompeu a crosta da terra e apareceu à luz do dia pensou: - meus pais, avós e demais antepassados deverão estar por perto observando-me. Pensou e, por sua vez, sentiu vontade, uma vontade doida de crescer para se mostrar e ver o mundo que o rodeava e conhecer e honrar a sua espécie.

         Sabia, de um saber de génese, sem que lhe fosse contado ou o tivesse lido, que pertencia a uma família de árvores antiquíssima oriundas da Ásia.

         Descendia e pertencia à família das Fagáceas.

         A ainda nem tinha folhas mas esperava-as lanceoladas, alternas, dentadas e tinha a certeza de que seriam caducas.

         Há traços de família que são inalienáveis e com esses bens de herança contava para viver.

         Sabia que o seu destino era o de florir em épocas certas, criar seus verdes ouriços e deles soltar os frutos gostosos engordados no segredo desse berço de veludo.

         Via-os castanhos, brilhantes de polimento, via, idealizava já as suculentas e gordinhas castanhas. Tinha consciência da importância desses frutos na história dos homens.

         “Os castanheiros, titulados nas serras com respeitoso carinho os ossos de Portugal, que levam dezenas de anos a crescer, trezentos no seu ser e trezentos a morrer” (Aquilino Ribeiro, Avós dos Nossos Avós).

         Sabia que vivia em Guilhafonso, perto da cidade da Guarda, um antepassado seu que já era árvore quando as caravelas das descobertas acharam o Brasil e hoje era um nobre e frondoso gigante falado e respeitável.

         Sabia, só por provir de onde provinha.

         Por isso com alegria nasceu e quis crescer.

         Não era muito exigente.

         Não pedia ar condicionado, quer dizer: estufas ou requintes de modernidade.

         Apenas pedia terras não calcárias e um verãozinho longo para amadurecer os seus frutos.

         Quando ganhou uns palmos de altura olhou em seu redor muito interessado e reparou que em “souto” não vivia. Nem avistava família que mesmo de longe afavelmente o saudasse.

         Ficou preocupado com a solidão mas concentrou-se para crescer mais e melhor. Das aves que passavam nos céus e já o procuravam para pousar, que se recordasse, nunca ouvira falar.

         Pareciam-lhe exóticas, coloridas em excesso para o que julgava encontrar.

         Escutou os nomes: Alma de gato, Beija-flor, Maria preta, Maria branca, Saíra, Tié-preto, Tié-Sangue, Sanhaço, Ferro-velho, Tucano, Papagaio, Arara, Piriquito,, Saracura !!!

         Familiar só ouvira: - pica-pau, rolinha, garça, coruja...

Ficou intrigado.

Distraiu-se quando ouviu falar em: Natal. Alegrou-se, até.

Nevará? – Conjecturou!

Mas fazia tanto calor!

Toda a gente citava o Verão!

Desorientou-se um pouco. Porém, sabendo-se jovem aguardou o futuro confiado.

Nada tinha que dizer da beleza das árvores e plantas suas vizinhas. Prestava-lhes até, culto, com a sua admiração. Impressionavam-no as bananeiras que tanto se ocupavam a engordar seus enormes cachos de frutos sabendo que morriam a seguir.

Entendia o canto de alegria na cor das flores da spatódea, com sua laranja tão intenso que parecia rubro ao sol, como fogo.

Percebia a “vaidade” das tripsális quando as comparavam com plumagens de cor.

Levava horas embevecido com os “Ipês” roxos, brancos, amarelos...

Porém, no conjunto, tudo isto o inquietava.

Por perto via os macacos, quando o suposto era ver javalis, na calada da noite, resfolegando a fossar em procura das glandes caídas sob o manto das folhagens que atapetavam o solo com os mais variados tons de ouro e cobre nos Outonos doces das regiões montanhosas do interior de Portugal onde supunha viver.

As falas das pessoas iludiam-no. Eram as mesmas. Talvez mais coloridas como acontecia com os pássaros.

Mas não desesperou.

Vou fazer o meu dever – decidiu! – Quando já se salientava o bastante entre as outras árvores, e até já se notava a sombra que a sua copa projectava no chão.

Nessa noite, olhou o céu e pensou: - Esta Primavera darei flor e depois tudo se seguirá normalmente. Mas, quem recebeu a sua confidência, foi o cruzeiro do Sul e não a Estrela Polar como ele queria.

Ninguém o prevenira de que estava no Brasil. Que o haviam plantado na Serrinha do Alambari e que as estações do ano nem coincidem, nem têm a regularidade que ele sabia de cor nos meses da sua terra. Era outro hemisfério.

Vestir-se na Primavera, dar sombra no Verão, frutos no Outono, despir-se no Inverno, eram os dados que transportava e o comandavam.

Mas... que Primavera? – Que Verão?

Desorientou-se completamente.

Enganavam-no os frios, as chuvas, os sóis.

Floria fora do tempo. Repetia as próprias flores e empenhava-se noutras na esperança de alcançar a tempo o sol que as ajudasse a tornarem-se frutos.

Quando quase o conseguia o tempo voltava a traí-lo e os ouriços caiam vazios.

Chegou a florir três vezes num só ano. E apenas, uma vez conseguiu dar frutos. Nunca mais. Perdeu o gosto pela vida. Exausto desistiu.

Agora é poleiro de aves, tem orquídeas, nos ramos e erva de passarinho e com o seu jovem tronco erecto e seco conta a sua terna e triste história de emigrante que, talvez por solidão não encontrou seu caminho e se deixou vencer como ás vezes também acontece mesmo quando é o amor que comanda a aventura.

Porém, no coração do homem que o plantou, haverá sempre um menino que na sua terra natal brincava à sombra de castanheiros e esses, como a saudade, resistem a sóis e luas...

 

                                      Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.358 – 6-Junho-1996

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