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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Singularidades

           .

 Há quem se encante com coisas várias. Eu também. E nem precisam ser coisas raras, pouco vistas.

            Deslumbram-me as flores, por exemplo. Com as suas especificidades próprias, as suas cores, beleza, formatos, os seus nomes, perfumes, manhas.

            Manhas, sim! Algumas dispõem de mecanismos ardilosos para chamar os insectos que ao visitá-las promovem a polinização que garante a reprodução que continuará a espécie. Outras soltam sementes aladas para que o vento as disperse e por longe as propague, como quem manda filhos para outras pátrias onde a vida promete mais vantagens.

            Outras revestem as sementes de filamentos que se agarram ás roupas das pessoas, ou ao pêlo dos animais que por elas roçam e assim as transportam como quem vai de boleia para o seu almejado destino.

            Há em algumas plantas, como se bichos fossem, um certo mimetismo que as ajuda na sobrevivência. É ver os pinheiros que toda a gente sabe altos, esguios, erectos, a contorcerem-se arrastados rente ao chão ali por S. Pedro de Moel, a fingir que lá não estão, rastejam dissimulando-se à nortada impiedosa que os fustiga mas, assim, não vence.

            É ver as figueiras lá para Sagres, S. Vicente, acocoradas como galinhas sobre os pintos para escapar heroicamente ao açoitar constante dos ventos salgados que as privam da liberdade de serem iguais às suas farfalhudas irmãs do resto do Algarve onde a doçura do clima as afaga e protege.

            E os nomes! São um prodígio de imaginação de fantasia, de beleza. Nomes de família, de espécie, como se fidalgos fossem ou bichos com pedigree...

            Das flores quantos nomes passam para as pessoas! - São as Rosas, as Margaridas, as Orquídeas, as Dálias, as Hortênsias, as Eufrásias, os Jacintos, os Narcisos, etc, etc, etc,

            E os apelidos! - São os Carvalhos, os Oliveiras, os Laranjeiras, os Pereiras...

            Se as flores dos jardins são semeadas ou dispostas ao sabor do arbítrio de quem escolhe, de quem as elege, e para elas prepara o terreno a preceito nada nos surpreende no resultado ainda que nos encante. Já as flores do campo têm uma linguagem diferente.

            Zonas há em que nalgumas estações do ano, como se o próprio arco -

 iris sobre elas tivesse entornado as suas cores, com os lilases dos rosmaninhos e dos chupa-mel, os vermelhos gritantes das papoilas, os amarelos e os brancos dos malmequeres, os rosados das corriolas se tornam um verdadeiro festival de beleza encobrindo o solo com infindáveis mantos de beleza. Então, aí, elas funcionam como mensageiras dos segredos da terra. Elas aparecem espontaneamente para dizer que sendo aquele solo próprio para nele proliferarem é porque a sua constituição é ácida, arenosa, é seca, húmida, argilosa ou de qualquer qualidade, conforme as necessidades da sua espécie.

São certamente as árvores, as flores, a vegetação em geral, uma forma de linguagem que a terra usa para falar ao coração dos homens. Tal como dos sentimentos dos próprios homens falam as acções mais do que as palavras.

            Porém também no mundo das flores por vezes as aparências iludem. Há plantas lindas que escondem venenos letais. Como há gestos e palavras que ocultam pérfidas intenções.

            Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos “bluffes”.

            As rosas tão delicadas, tão acetinadas, com seu todo angelical, são inseparáveis de seus acerados espinhos...

            Encantam mas, picam, fazem sangrar a mão que as colhe como se para tudo na vida tivesse que existir um contraponto de dor.

            Nem sempre o que é bom, como nem sempre beleza e fragilidade são símbolos de inocência...

            Porém não nego o meu fascínio por esse mundo vegetal, verde e mudo, a que só o vento ou o fogo dão voz mas elaborando no mistério da profundidade das suas raízes esquemas de vida e sobrevivência dignos dos cérebros mais sofisticados.

            Também aí a vida das flores se assemelha à das pessoas, com suas especificidades, seus nomes, seus feitios, suas qualidades, seus defeitos e fraquezas, suas virtudes e malefícios, seus perfis, suas estaturas ou suas frondes e típicos troncos, mas sempre com seu quê de mistério. Só não entendi ainda se são as flores que se revêem nas pessoas, ou se são as pessoas que se revêem nas flores.

            Também esta dúvida por certo é parte integrante do segredo e do encanto.

 

  Maria José Rijo

@@@@@@

Revista Norte Alentejano

Nº 3 – Agosto /2000

Crónica

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