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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Reminiscência – “A chocalhada”

A memória é que dá consistência ao que somos.”

“A memória é também uma forma de coragem.”

 

             São pensamentos destes que nos remetem para uma interioridade, uma procura de entendimento de nós próprios através das reminiscências que a nossa memória e a nossa sensibilidade guardaram e, dos ensinamentos e ilações que daí possam advir para a compreensão do mundo que nos rodeia.

             Muitas coisas a memória arquiva sem que, delas, na altura se absorvam por inteiro as intenções subjacentes

.                                 memoria.jpg

Arquiva mas, nem sempre a compreensão plena do que pareceu no momento apenas curioso, ou pitoresco, surge de imediato. A memória capta e guarda mesmo independentemente da nossa vontade, e, outras vezes recusa-se a trazer de volta o que lhe solicitamos.    

Lá naquela aldeia –“ lá “ – onde a aprendizagem, da vida, era toda empírica, porque o único saber, era de experiências feito, a critica social era exercida por um costume centenário -  “a chocalhada”

                     

Para que a vida se processasse dentro dos cânones estabelecidos como leis de bom viver e decência, naquela micro sociedade, onde todos sabiam tudo de todos, porque a coscuvilhice exercia uma rigorosa avaliação do dia a dia de toda a população era nas tabernas entre os homens e na “rubêra”( na lavagem de roupa) entre as mulheres que tudo era discutido.   Ali se deliberava quem procedia bem ou mal, quem merecia, ou não, uma boa “chocalhada”.

Rapariga que caísse na lábia do namorado (fosse enganada) e engravidasse, não sofria chocalhada desde que passasse a usar sempre um lenço a cobrir-lhe a cabeça e não aparecesse em publico, a não ser no trabalho, ou “na companha de quem a desflorou”, até que o casamento, que de pronto se impunha acontecer, sanasse a situação - mas sempre de olhos no chão.

                                                          

Quem não respeitasse os costumes, quem “nã górdasse decóres”- (guardasse decoro), já sabia que durante três noites consecutivas, teria um concerto de chocalhos, bater de latas e tudo mais que fosse susceptível de fazer ruído à sua porta para nunca esquecer, “pelo enxovalho”, que transgredira as “leis”.

Os adultérios eram lavados com sangue que o orgulho machista não concebia perdão nem tolerância ainda que com a consciência de, por vezes, baterem mais nas mulheres  do que o  malho na bigorna em casa de ferreiro. Aí, então, não raras vezes, morriam ou iam parar ao hospital, também, os que se propunham apartar as desavenças, á porta das tabernas, acirrados os rancores e os ódios pela demência das bebedeiras...

Vão passados mais de cinquenta anos. Só a memória guarda, como se guardam contos e lendas o que era a vivência desse passado distante nas aldeias perdidas entre olivais e montados nos confins da grandeza da planície alentejana.

Com o evento, em 1910, da implantação da República, quase todas as Igrejas, então, tinham sido vandalizadas e os padres que ao lado dos professores das escolas (quando as havia) ajudavam a lutar contra crendices e ignorância tinham sido banidos. Os limites “do bem pracer” eram mantidas por esses costumes ancestrais, injustos e cruéis, mais na forma do que na intenção, porque, as pessoas nunca eram excluídas da comunidade após o castigo, e subjacentes a ele estavam a escolha entre Bem e Mal e o respeito por conceitos de honra e por valores sagrados celebrados muitas vezes no seu belo e inconfundível canto, de que se serviam para abrir o coração e falar, sem pudor, de profundos sentimentos de amor que, por lhes parecer fraqueza – escondiam!

 

                    Oh, minha mãe, minha mãe –

                   Oh, minha mãe, minha amada!

                    Quem tem uma mãe tem tudo –

                   quem não tem mãe não tem nada!

                             

                    Eu sou devedor à terra –

                    a terra me está devendo!

                   A terra paga-me em vida –

                   eu pago à terra  morrendo!

 

            Leio os jornais, vejo os noticiários, e, por vezes parece, que uma grande, uma enorme “chocalhada,” vinha a calhar perante a irracionalidade de certos festejos que se vêem acontecer.

Uma chocalhada que só cessasse quando as pessoas acordassem para o sentido espiritual da Vida e fosse essa a festa a celebrar em cada dia.

                                           

                                    Maria José Rijo

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Jornal linhas de Elvas

17-Março – 05 – Nº 2.805

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