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Homenagem

Domingo, 14.10.07

Poucas coisas se me afiguram mais difíceis do que prestar uma homenagem a alguém que já não permanece entre nós.

            Se, se lhe exaltam só as virtudes logo surge a velha crítica de que: - se queres ser bom, ou morre ou vai-te!

            Se pelo contrário se modera no que se diz, o calor do afecto e do apreço recolhe-se o reparo de que não se soube ser justo e, acusam-nos de mesquinhice...       Como proceder então?

            Se a figura em foco for um general vitorioso, regressado de alguma batalha ou que nela tenha sucumbido; há um cento de adjectivos correntes e disponíveis para coroar heróis nessas circunstâncias.

            Se for um político, há sempre uma calçada, um fontanário, um campo de futebol para enaltecer o primor da sua criatividade!

            Se for um membro do clero rememoram-se os seus sermões, a sua brilhante oratória, ou a sua piedosa vida para nos apoiarmos no louvor...

                Porém quando nos propomos falar, do soldado, do homem da rua, do indivíduo comum; aí, a dificuldade fica acrescida.

            É que é esse, - o homem comum - o que não é nem herói, nem líder de massas, nem santo de altar, quem tudo faz.

            É esse, o soldado desconhecido, que compõe os exércitos - e que só a família e os amigos choram - que  ganha as guerras. É esse, o operário que bateu a calçada, ergueu o fontanário, a casa, o monumento que marca a celebridade dos outros. È esse o receptor da piedade com que se conforta da injustiça social, é esse, o herói desconhecido do dia a dia, o apagado obreiro do nosso conforto. É esse que sendo um igual a tantos, nos deixa desprotegidos das receitas consagradas, que resolvem estas situações.

            Eu vinha hoje aqui eivada deste espírito, desta consciência de como na sombra, na modéstia, quase no anonimato se ultrapassa, tantas vezes a dimensão comum, se cria obra duradoura, se enobrece e alarga a nossa dimensão de gente. Vinha lembrar obras que se dirigem a muitos e são fruto do trabalho e da coragem de alguns, da iniciativa e da visão de futuro, às vezes de um só homem.

Eu vinha prestar a minha homenagem às sucessivas. Equipas de tipógrafos, directores, colaboradores, vendedores, anunciantes, compradores, leitores e todo o mundo de trabalhadores que ao longo de cinquenta anos têm posto este jornal nas bancas e, lhe têm permitido viver sem sobressaltos.

E, vinha muito especialmente curvar-me perante a memória, de um homem de caracter, discreto e sem tolas vaidades - Ernesto Alves -  que um dia corajosamente apostou neste empreendimento em que acreditou e lhe deu vida.

Não foi um herói, nem um santo no sentido literal do termo.

Teve todavia, o heroísmo e a santidade das pessoas de Bem que se recordam pelo sentido de justiça e inteireza de caracter e, das quais todos prezamos a amizade       Eu vinha com esse intuito, posso não o ter conseguido,

porém, neste momento para mim o que importa, é ter, como fui capaz, evocado alguém a quem meu marido e eu chamavamos AMIGO e que, como tal, em memória dessa estima e desse apreço hoje, aqui recordo.

 Pois como dizia Cícero:

” Ter um amigo é ter um outro eu,

quando um está ausente, o outro o substitui;

se um é rico o outro não precisa de nada,

se um é fraco o outro lhe dá as suas forças.”         

 

 

 

                               Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.571 de 8/10/2000

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:18


1 comentário

De Dolores a 14.10.2007 às 22:30

.... Estou tão contente ...
este texto é uma maravilha.
Gosto tanto de textos como este, onde escreve,
como se eu estivesse ai - sentada a seu lado.
Realmente a Sra tem uma bela forma de encarar
a amizade.
A Paula está de parabéns por ter tido a sorte
de ter uma tia escritora e ter o imenso prazer
de poder ler estes belos textos. Acredito que sim.

Gosto imenso da fotografia da escritora.
Com muita amizade

DO LO RES

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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