Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
REZAS E BENZEDURAS II
Está fora de dúvida que o nosso tempo carece de ser benzido e exorcizado.
Se já se viu um Maio com tanto azedume depois de um Inverno que se banqueteou com sol como num solstício de Verão!
Que muita coisa anda a pedir chuva - também é verdade! - Porém, este descontrole passa das marcas.
Se é que para o tempo há marcas!
Há um nadinha tudo estremeceu com uns trovões inesperados, ameaçando-nos com uma tempestade a preceito.
Não apareceu, afinal, perdeu-se lá por longe, graças a Deus.
Mas, enfim! - Trovoadas, nesta época, de quando em vez não espantam ninguém.
Toda a gente conta com os desvarios de Maio, e não há Maio sem trovões.
As trovoadas de Maio são dos livros.
Maio tem o condão dos dias belos como as rosas e das horas cinzentas que causam arrepios.
Cor de cinza - é cor de tristeza.
É o que resta na terra depois da terrível beleza do fogo.
De cinza se pinta “o astro” quando a luz do sol se encobre.
Cinza é o que resta de tudo que já foi.
Afeitos, como todos estamos às variações do tempo, às vezes, só as trovoadas, que nos fazem encostar o rosto às vidraças das janelas fechadas escutando a chuva grossa e ruidosa ou o granizo-pérolas efémeras que a água forma - nos soltam da memória de velhas orações que nos esvoaça m na lembrança como nuvens, a correr ligeiras, pelos céus.

(Desenhos de Manuel Jesus )
Foi assim agora:
São Jerónimo se levantou
Seu divino pé direito calçou
Seu bordanito apanhou
Ao caminho se deitou
A Virgem Nossa Senhora - encontrou.
Ela lhe perguntou:
Onde vais Jerónimo?
Vou espalhar a trovoada
Espalha-a por lá bem espalhada
Onde não haja pão, nem vinho
Nem pé de rosmaninho
Nem mulher com menino
Nem vaca com bezerrinho
Nem toque de sino
Nem galo a cantar
Nem pedra de sal
Nem ramo de Oliveira
Nem nada a que possa fazer mal!
Assim rezava em voz alta minha Avó em coro com minha tia mais velha - frente ao oratório iluminada pelos pequenos clarões bruxeleantes das lamparinas de azeite que , noite e dia alumiavam as imagens dos santos das suas devoções.
Na circunstância apenas se acrescentava ao ritual a fumacinha que exalava da queima do alecrim bento do domingo de ramos e guardado para tais eventos.
A Rapariga que fazia os mandados lá para casa hirta de pavor, acolitava o culto papagueando atabalhoadamente:

Sã Jarólmo s ‘ alevantou
Sê devino pé derêto calçou
Sê bordanito apanhou
Ó caminho se détou
A Virgem Nossa Senhora encontrou
Ela lhe précurou:
Onde vás Jarólmo?
Vou estrambalhar a travoada
Estrambalhá por lá bem estrambalhada
e por aí fora, etc.etc...
É por certo a esta curiosa versão da reza, onde a fé era inequivoca, que eu devo a memorização de uma cena tantas vezes presenciada.
Minha mãe, com a obrigação, sempre assumida, de não nos deixar contagiar por exageros de medos - chamava:
Venham cá!

E, fazia-nos repetir com ela, calma e serenamente:
Santa Bárbara bendita
Que no céu está escrita
E na terra assinalada
Com papel e água benta
Quantos anjos há no céu
Acompanhem nossas almas
Espalhem esta tormenta
Depois, sorrindo, perfeitamente segura de si, acrescentava: - isto já passa - vão brincar - ou, pedia-nos qualquer pequena ajuda que nos distraisse.
Então, se meu Pai aparecia, tirava do bolso do colete, o relógio e propunha-nos controlar o espaço que mediava entre o relâmpago e o trovão.
Tomando em conta as velocidades da luz e do som ensinava-nos a fazer as contas e tornava-se um jogo calcular a diatância a que pairava a tempestade.
Dos campos em redor chegava o eco do canto dos trabalhadores que regressavam a casa à pressa entoando o “Bendito e Louvado”.
Alheio a tudo, o nosso gato dormia regalado na almofada da sua cadeira. Se lhe calhava acordar com o ribombar forte de algum trovão mais violento-passado o susto, bocejava, esperguiçava-se e lá ia silencioso procurar conforto na “sua mesa” sempre posta.
Num quarto, às escuras, com a cabeça debaixo dos cobertores, rezando terços alucinadamente, minha tia mais nova sucumbia aos seus terrores.
Entretanto - como agora - a claridade vencia.
Paravam as chuvadas loucas.
O sol irrompendo glorioso, irisava a humidade do ar pondo belos arco-íris, como bandoletes gigantes, no céu.
O ar cheirava a lavado.
Aqui e ali pingavam árvores, beirais.
As crianças soltavam-se a correr para a rua.
Chapinhavam com os pés nas poças de água.
Riam pelo gosto de rir e lá iam repetindo as suas inocentes cantilenas:
“Olha o arco-da-velha!”
“Olha o arco-da-velha!
A chover e a fazer sol
Estão as bruxas a comer pão mole!”
E, eu, sem o saber, arquivava recordações que, agora, de vez em quando vou deixando aflorar...
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.407- 20-Junho-1997
Conversas Soltas
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Livro Publicado pelo Jornal Linhas de Elvas
Novembro de 2000
O livro pode ser adquirido na redacção do Jornal linhas

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5 comentários
De DOLORES a 17.10.2007 às 23:50
ADOREI!!
Não conhecia a sua oração, mas escrevo-lhe aqui a
que eu conheço.
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Ó Deus, criador do universo, que vos revelastes aos homens, através dos séculos, pela Sagrada Escritura, e levastes o vosso servo São Jerônimo a dedicar a sua vida ao estudo e à meditação da Bíblia, dai-me a graça de compreender com clareza a vossa palavra quando leio a Bíblia. São Jerônimo, iluminai e esclarecei a todos os adeptos das seitas evangélicas para que eles compreendam as Escrituras, e se dêem conta de que contradizem a religião católica e a própria Bíblia,porque eles se baseiam em princípios pagãos e supersticiosos. São Jerônimo, ajudai-nos a considerar o ensinamento que nos vem da Bíblia acima de qualquer outra doutrina, já que é a palavra e o ensinamento do próprio Deus. Fazei que todos os homens aceitem e sigam a orientação do nosso Pai comum expressa nas Sagradas Escrituras. Amém.
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Muitos beijinhos
ADOREI mas ( e as fotografiazitas - nem uma?)
Beizinhos
DOLORES
De Gustavo Frederich a 18.10.2007 às 01:16
Rezar 3 Pai Nossos, 3 Ave Marias e 3 Glórias ao Pai.
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Esta oração é para abrandar as forças dos inimigos
Santa Barbara, lei divina,
pela lei tão estimada, desde a
hora em que nasceu, que por Deus
foi esposada. Teu pai como gentil sonhava e dizia que Bárbara era
Santa e ao céu subia.
Mandou fazer um ermo,
onde não entrasse o sol nema a lua,
nem a claridade nenhuma.
No fim de sete anos pai foi visitar. “De quem sois, Bárbara, esposada?”
“de Jesus, pai de minha alma”.
Ela marchou, quis degolá-la;
ela não quis consentir;
desceu um anjo do céu e disse:
“consente, Bárbara, consente.
Que tu aos céus subirás em festa,
e o fogo, inimigos e o relâmpago, tudo vós abrandareis”.
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Gostei imenso do seu texto.
Como sempre ADOREI.
Deixo-lhe aqui as orações sobre a Santa
Barbara - que minha avó me encinou, quando
criança.
O seu blog é um encanto.
Parabéns
Gustavo Frederich
De leoneljoao a 18.10.2007 às 12:21
mais uma vez obrigado por me fazer recordar com as suas palavras a minha infancia em que ouvia á minha avó Delfina as mesmas orações das trovoadas
Leonel
De Manuel Pinto a 18.10.2007 às 21:12
A sua forma de escrever vai além do normal dos blogs que por aqui se encontra.
Eu fui professor universitário e agora na reforma passo muito tempo por aqui, pela internet.
Procuro em especial blogs cujo português seja legitimo, lusiada de alma e coração.
Encontrei finalmente o seu blog. Fico deliciado pela
forma como brinca com as palavras.
A Senhora consegue faze-las render e brilhar muito mais, do que elas próprias conseguiram transmitir.
Gosto imenso dos temas que escolhe para opinar.
Gosto do seu descernimento, da sua lucidez, da sua
parte politica - sim também encontrei aqui alguns
textos - e muito bons. Nota-se que possui uma inteligencia aguçada e uma sensibilidade imensa.
Parabéns.
Pelo blog e por tudo o que ele contem.
Não deixe de escrever e devo contar-lhe que
sou também um enamorado da palavra.
Bem haja
Até breve
Com admiração
Manuel Pinto
De Anónimo a 24.04.2009 às 11:55
Que no céu está escrita
Espalhe esta tormenta
Onde não haj'eira nem beira
Nem ramo de oliveira

