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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

REZAS E BENZEDURAS IV

                    De um local chamado “o alto das covas”, na Ilha Terceira, em Angra do Heroismo, avista-se a Ilha de S. Jorge. Tal como os outros pontos da mesma ilha Terceira se avista além de S. Jorge, a Ilha Graciosa.

                    Que a alegria de uma ilha é, dela, avistar-se outra ilha – dizem os naturais insulanos.

                     Porém, só reconhece a profunda sabedoria que o “dito” encerra quem, aportando ao arquipélago experimente dar uma destas voltinhas, com destinos de acaso, a que uma noite de luar ou um dia ameno nos costuma tentar.

                     É que, então descobre como é verdadeira a definição de ilha, que, ainda criança, decorou na escola.

                     Ilha: é uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

                     Aprende que, vá para onde for, volta e meia; meia volta, encontra o mar e, por mais que alongue o olhar ele só encontra na imensidade azul que nos envolve - mar e céu - como constantes sem fim.

                     Conforta-se então a pensar que as nove ilhas constituem com que uma família que de longe se avistam entre si. E, assim de umas avistando outras quebra-se dentro de nós a estranha sensação de nostalgia que o irremediável isolamento cria. Apontar: ali está outra, já é ter companhia, embora o mar continue a ser o fiel guardião que nos tolhe o passo.

                    Compreende-se também, mais e melhor, o que é um barco - pequeno ou grande ! - Não importa.

                    Um barco é sempre um aliado do sonho.                                      

                    Uma porta aberta para a aventura.

                    Entende-se a nervosa alegria, a expectativa, com que se aguardava a chegada a Angra, ao Cais das Pipas, do pequeno vapor que quinzenalmente chegava, vindo de S. Jorge.

                      Até eu, estranha a estes hábitos, aprendi a viver a gostosa emoção de o ver

chegar.

                      Subia ao mirante da nossa casa e ficava tempo e tempo a observar aquele pontinho minusculo, perdido no horizonte entre mar e céu, crescer, crescer, até se mostrar como o mensageiro deligente que apitava contente, antes de ancorar.

                      Era ele que trazia as encomendas dos panos de linho de tear que uma velha Senhora em S. Jorge, lá para os lados das Fajãs ainda tecia, e o queijo picante (artesanal) e outras preciosidades mais...

                      Todos nós, somos um pouco, também, uma espécie de cais de onde sonho se solta e onde retorna e atraca, de novo, vitorioso ou desfeito.

                      Um barco, mesmo antiquado, continua a ser um forte esteio para a imagem da aventura.

                      Um ponto de partida para as rotas que soubermos imaginar.

                      Inter - ilhas, as famílias e os amigos visitavam-se, por festas, acontecimentos sociais  ... Como aqui no continente inter-cidades.

                      Aqui leva-nos o carro, o comboio.

                      Nos Açores, hoje, é o avião que “vorazmente” consome as distâncias que o mar nem sempre permitia transpor.

                                      (( Desenho de Manuel Jesus )) 

                 De Angra a S. Miguel fomos às Festas do Senhor Santo Cristo numa certa Primavera.

                      Esperavam-nos elvenses amigos, que, como nós, residiam temporariamente nos Açores.

                      Juntamos às festas da cidade a nossa festa de alentejanos elvenses que se abraçavam saudosos de evocar um passado de amizade que nos unia.

                      Na hora da despedida ao beijar a Senhora Dona Joaquina Abreu – mãe da nossa anfitriã – com um doce sorriso no seu lindo rosto - cheiroso de pó de arroz (à moda antiga, como também ainda usa minha Mãe) disse-me carinhosa a excelentíssima Senhora:

             “ Deixe que a response como sempre faço aos meus filhos” e rezou alto:

                Eu te responso

                Com as armas de Cristo andes armado

                Com o leite da Virgem, andes borrifado,

                O sangue de Cristo tragas no teu corpo

                Não hás-de ser ferido nem morto

                Nem mal tratado, nem mordido de bicho

                Nem de cão danado.

                Por caminhos e estradas andarás

                os maus nunca os verás

                E os bons encontrarás

                Responso-te a Santo António e a S.Francisco

                E às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo

                                                            Amém

 

                Comovidamente beijei-lhe as mãos e pedi-lhe que me deixasse escrever tão bela oração.

                Prontamente, sua neta mais nova, a Isabelinha, me deu uma folhinha de caderno onde fiz o apontamento que ainda conservo – impresso na margem lê-se. Liceu Antero de Quental.

                Recordo este acontecimento, aliando-lhe a lembrança de dois poemas:

                “ A Rua de S. Francisco” - onde esta Senhora viveu e criou seus filhos - que deu o nome a um poema de Casimiro de Abreu e, um outro, de  seu filho Álvaro cantando Elvas. Cidade que ele invoca como:

               “Minha dama doutros tempos

                 minha linda dama antiga”

                E, sempre esta imagem se ajusta à memória que guardo da linda Senhora ao fixar-me com seus olhos de cor céu e mar a rezar por mim a sua oração de mãe.

                Dir-se-ia que foi a agorinha mesmo.

                Mas... era o ano de 1979 e, ao passado não se volta.

                Ele anda connosco.

      

                                                      Maria José Rijo  

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.412 – 25 – Julho-1997

@@@@@@

Livro Publicado em Novembro de 2000

através do Jornal Linhas de Elvas.

Para conseguir ter o seu exemplar deve contactar o

Jornal Linhas de Elvas

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