Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
REZAS E BENZEDURAS IV
De um local chamado “o alto das covas”, na Ilha Terceira, em Angra do Heroismo, avista-se a Ilha de S. Jorge. Tal como os outros pontos da mesma ilha Terceira se avista além de S. Jorge, a Ilha Graciosa.
Que a alegria de uma ilha é, dela, avistar-se outra ilha – dizem os naturais insulanos.
Porém, só reconhece a profunda sabedoria que o “dito” encerra quem, aportando ao arquipélago experimente dar uma destas voltinhas, com destinos de acaso, a que uma noite de luar ou um dia ameno nos costuma tentar.
É que, então descobre como é verdadeira a definição de ilha, que, ainda criança, decorou na escola.
Ilha: é uma porção de terra cercada de água por todos os lados.
Aprende que, vá para onde for, volta e meia; meia volta, encontra o mar e, por mais que alongue o olhar ele só encontra na imensidade azul que nos envolve - mar e céu - como constantes sem fim.
Conforta-se então a pensar que as nove ilhas constituem com que uma família que de longe se avistam entre si. E, assim de umas avistando outras quebra-se dentro de nós a estranha sensação de nostalgia que o irremediável isolamento cria. Apontar: ali está outra, já é ter companhia, embora o mar continue a ser o fiel guardião que nos tolhe o passo.
Compreende-se também, mais e melhor, o que é um barco - pequeno ou grande ! - Não importa.
Um barco é sempre um aliado do sonho.
Uma porta aberta para a aventura.
Entende-se a nervosa alegria, a expectativa, com que se aguardava a chegada a Angra, ao Cais das Pipas, do pequeno vapor que quinzenalmente chegava, vindo de S. Jorge.
Até eu, estranha a estes hábitos, aprendi a viver a gostosa emoção de o ver
chegar.
Subia ao mirante da nossa casa e ficava tempo e tempo a observar aquele pontinho minusculo, perdido no horizonte entre mar e céu, crescer, crescer, até se mostrar como o mensageiro deligente que apitava contente, antes de ancorar.
Era ele que trazia as encomendas dos panos de linho de tear que uma velha Senhora
Todos nós, somos um pouco, também, uma espécie de cais de onde sonho se solta e onde retorna e atraca, de novo, vitorioso ou desfeito.
Um barco, mesmo antiquado, continua a ser um forte esteio para a imagem da aventura.
Um ponto de partida para as rotas que soubermos imaginar.
Inter - ilhas, as famílias e os amigos visitavam-se, por festas, acontecimentos sociais ... Como aqui no continente inter-cidades.
Aqui leva-nos o carro, o comboio.
Nos Açores, hoje, é o avião que “vorazmente” consome as distâncias que o mar nem sempre permitia transpor.

(( Desenho de Manuel Jesus ))
De Angra a S. Miguel fomos às Festas do Senhor Santo Cristo numa certa Primavera.
Esperavam-nos elvenses amigos, que, como nós, residiam temporariamente nos Açores.
Juntamos às festas da cidade a nossa festa de alentejanos elvenses que se abraçavam saudosos de evocar um passado de amizade que nos unia.
Na hora da despedida ao beijar a Senhora Dona Joaquina Abreu – mãe da nossa anfitriã – com um doce sorriso no seu lindo rosto - cheiroso de pó de arroz (à moda antiga, como também ainda usa minha Mãe) disse-me carinhosa a excelentíssima Senhora:
“ Deixe que a response como sempre faço aos meus filhos” e rezou alto:
Eu te responso
Com as armas de Cristo andes armado
Com o leite da Virgem, andes borrifado,
O sangue de Cristo tragas no teu corpo
Não hás-de ser ferido nem morto
Nem mal tratado, nem mordido de bicho
Nem de cão danado.
Por caminhos e estradas andarás
os maus nunca os verás
E os bons encontrarás
Responso-te a Santo António e a S.Francisco
E às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo
Amém
Comovidamente beijei-lhe as mãos e pedi-lhe que me deixasse escrever tão bela oração.
Prontamente, sua neta mais nova, a Isabelinha, me deu uma folhinha de caderno onde fiz o apontamento que ainda conservo – impresso na margem lê-se. Liceu Antero de Quental.
Recordo este acontecimento, aliando-lhe a lembrança de dois poemas:
“ A Rua de S. Francisco” - onde esta Senhora viveu e criou seus filhos - que deu o nome a um poema de Casimiro de Abreu e, um outro, de seu filho Álvaro cantando Elvas. Cidade que ele invoca como:
“Minha dama doutros tempos
minha linda dama antiga”
E, sempre esta imagem se ajusta à memória que guardo da linda Senhora ao fixar-me com seus olhos de cor céu e mar a rezar por mim a sua oração de mãe.
Dir-se-ia que foi a agorinha mesmo.
Mas... era o ano de 1979 e, ao passado não se volta.
Ele anda connosco.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.412 – 25 – Julho-1997
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Livro Publicado em Novembro de 2000
através do Jornal Linhas de Elvas.
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5 comentários
De Dina a 20.10.2007 às 00:26
Seria interessante pegra noutros textos e editar um novo livro...já pensou nisso?
Beijinhos!
De DOLORES a 20.10.2007 às 00:58
Como é possivel que cada texto seja mais belo que o anterior.
Sabe , D. Maria José Rijo - começo a ficar com um pouco de inveja da Paula...
Também eu queria ser sua sobrinha. De verdade que queria, a Senhora é um SER de Luz.
Posso ser sua sobrinha virtual?
Posso?
Será que posso ?
Bom... eu já me sinto contente por poder ter acesso
ao seu blog e poder todas as noites ler um pouco
do seu mundo, das suas emoções...
Bem haja Tia e sobrinha por esta minha alegria
de todos os dias.
Beizinhos
DOLORES
De Gustavo Frederich a 20.10.2007 às 01:05
Antes de ir dormir vim ler o texto de esta noite.
Surpreendentemente belo.
Gosto da forma como se dá ao mundo das palavras,
como se abre como uma flor à ternura de se
expressar.
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Responsos
Os responsos são mais curtos que os hinos. São cantados nos vários momentos do culto, quando se requer uma resposta a Deus, por parte de todo o povo, em conjunto. Os responsos pertencem à congregação, podendo ser reforçados pelo coro; entretanto, jamais devem ser cantados somente pelo coro. A congregação deve aprender os responsos e cantá-los de cor com todo o fervor e fé que a oração exige. O “Amém” sempre pertence ao povo.
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Este era o responso de minha Bizavó Luzia:
Bendito Santo António
Se buscas milagres,
Mortos, culpas e penas
Erre o demónio
António fugento, remediado
Em toda a doença
Solto de prisão
Libre de tormentos
E o padre assim o confesse.
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Com muita amizade
(se me permite)
Um beijinho de Boa-noite
Gustavo Frederich
De Artur batista a 20.10.2007 às 01:15
LINDO
Textos com alma, textos de gente com muito
CORAÇÂO.
Maria José Rijo tem a paixão pela escrita.
E cada um destes textos é mais uma prova
palpavel das minhas palavras.
Com muita admiração
Artur Batista
De Fernanda B. a 20.10.2007 às 22:36
As Rezas e Benzeduras são um espanto, uma
autentica maravilha.
A Senhora é mesma especial.
Este Blog é uma delicia.
Vou-lhe dizer o responso de Santo Antonio que
minha mãe me ensinou
Quando se perde alguma coisa reza-se o responso se Stº António e o que se perdeu aparece. Ó meu Padre Stº AntónioPor o monte andastesO vosso livrinho vós perdestesEm volta dele vós voltastesEncontrastes a Nossa SenhoraE ela de Disse:- Volta atrás o teu livrinhoEncontrarás e pedirás três coisasO vivo guardadoO perdido achadoE o esquecido lembrado Reza-se três vezes seguidas de três Pai Nossos e três Avé Marias
Muitos beijinhos
Nanda B.

