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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

REZAS E BENZEDURAS VI

Nos meses de Junho e Julho, naqueles tempos da primeira metade deste século, quando ainda não se falava em “buraco de ozono”, muitas coisas eram diferentes.

          Naqueles tempos a pureza do ar que se respirava era um facto incontroverso.

Os rios eram de “águas cristalinas” e tinham “peixes de prata” – como apregoavam as canções meladas e românticas de então. Não admira que as músicas tenham mudado porque os rios também mudaram. Agora são correntes de águas poluídas, esgotos a céu aberto onde flutuam dejectos e espumas ácidas que não consentem vida.

As matas e as florestas eram habitat e refúgio de pequenos animais e de passarada que cantava nas ramarias.

Os ovos, nos ninhos, eram anúncio de novas vidas e não trágicos esquifes onde os pesticidas escondem selos de morte na sequência de uma envenenada cadeia alimentar

As árvores assinalavam fecundidade dos solos oxigénio, saúde... e não se contavam como inevitáveis candidatas a archotes vivos, por qualquer “vil cobiça” ou negociata de gente sem escrúpulos.

Nesses tempos ainda recentes, não se falava, porque não se receava do excessivo aquecimento da terra, da fusão dos gelos polares, das alterações climáticas dos sufocantes níveis de poluição que comprometem a vida no nosso planeta etc. etc...

Então, Verões e Invernos eram épocas do ano genuinamente características – quase diria: puras - e  assinaladas  como certas  nos calendários.

Se Primaveras e Outonos, eram tempos caprichosos de humores vários, com assomos exuberantes de alegria e birras de arrufos de namorados nos Marços e Abris; as crises de cinzentas tristezas e lagrimais de chuva eram em meses outoniços mais languidos e doentios – os invernos e verões alentejanos eram bem castiços.

Senhores absolutos de um frio de rachar que contrapunham aos dias de Verão luminosos até à cegueira e tão quentes e abafados como deverão ser as portas do inferno

           Então, lá pelas pequenas aldeias, como aquela onde cresci, lá onde se acreditava em bruxas a dançar à meia noite nas encruzilhadas, e em lobisomens que uivavam como cães raivosos, lá, parecia que a terra arfava de febre exalando um bafo cheiroso de restolho que embebedava os sentidos.

           Pois era nessas alturas, ali, em plenas labaredas desses calores de Junho e Julho que aconteciam os exames nas escolas e liceus.

                           ( Desenhos de Manuel Jesus

                                     - pintor de Elvas)                               

 

              E, se durante todo o ano mal se perdia lápis ou caneta, livro ou borracha - logo se atava um nó no lenço que depois se entalava debaixo de pé de mesa ou de cadeira para prender com firmeza o rabo do diabo e achar o perdido , por acréscimo de eficiência também se rezava a Santo António:

                                Contra males e demónios

                                rezar sempre a Santo António

                                aplaca as fúrias do mar

                                tira os presos da prisão

                                e o perdido faz achar

                                apareça , apareça o diabo  sem cabeça .

 

              Avalie-se como o pobre do Santo, era importunado no seu próprio mês quando se esperava que os milagres resolvessem as tragédias da ignorância escolar.

             Então com o sol no zénite - o meio dia solar - que isto de adivinhações recusa os preceitos de Greenwich  tentava-se prescrutar os mistérios do futuro .

             Cada candidata a Sibila rezava baixinho:

    

                        Indo Santo António para o seu montinho 

                        perdeu o seu bendito rosário e o seu bendito

                        livrinho

                         três brados ouviu de sua tia e madrinha :

                        beato António , beato António,

                                         beato António                         

                        volta atrás que o que me pediste

                        será lembrado

                        e o que perdeste será achado

                        peço à sua santa madrinha pelos martírios

                         que passou

                        pelo seu afilhado que me descubra em vozes

                         do mundo

                       ( faz-se o pedido)

                       Padre Nosso - Avé Maria

                     

          Terminada a oração cada suplicante ia colocar-se de ouvido à escuta pelas frinchas das janelas ou das portas os sinais das vozes do mundo que interpretadas lhe trariam as respostas desejadas.

          Portas a bater, galos a cantar, crianças a rir, cães a ladrar.

          Nas pedras da calçada a violenta luz do sol incidia faiscando como em espelhos.

          As moscas zumbiam nas sarjetas secas e fedorentas ao mais pequeno estremecimento - e nós imóveis como estátuas aguardávamos sinais de resposta  para o que de  antemão  saibiamos  como iria acontecer.

          Porém, na juventude até a aprendizagem da vida tem seu lado lúdico, medos, ousadias, tudo são experiências...

         E, se nada é novo sobre a terra tudo será sempre novo  para cada um  que pela primeira vez faça qualquer descoberta por insignificante que pareça.                  

                                      

 

                                               Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.424 – 24-Outubro-1997  

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Este livro pode ser adquirido na redacção

do Jornal Linhas de Elvas

 

 

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