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Criança...

Sábado, 24.02.07

       

  Ela é, para mim, a imagem que se tem de ser criança.

 Ela caminha subindo e descendo por tudo quanto for murinho , monte de terra ou pedras, que encontre no seu trajecto; pisando nas poças de água que a chuva ou a rega do jardim deixem no pavimento: parando a olhar tudo o que mexe, tem cor, faz ruído, brilha ...

 Tudo a detém e de tudo se solta.

 Brinca com terra, pedras, ervas, caixas vazias.

 Pára a ver os cães, as outras crianças, bisbilhuta o chão como se tivesse perdido as jóias da coroa e investiga o céu, como se dele esperasse resposta para todas as interrogações e sonhos de quem tem a vida como promessa.

 Ela é deliciosa. É criança.

 É franzina, tem cabelinho curto, já usa óculos, tem joelhos daqueles onde sempre se espera ver uma esfoladela.

 Tem uma mala de livros – que deve ter livros – mas também deverá guardar, berlindes, papeis de rebuçados, batons da mãe e mais tudo que calha a uma criança cobiçar, ou seja, os pequenos nadas a que se pode atar uma ponta de fantasia.

 Nas horas de recreio, ela passeia sózinha na praceta.

 Sózinha – na aparência – porque, quando ela sobe ao muro bem largo com dois palmos de altura e nele caminha de braços abertos concentrada no equilíbrio, como um funâmbulo, mudando os pés como se fosse mortal o perigo da queda – aí – eu também vejo o circo cheio e ouço as palmas que ela escuta quando salta ligeira para o chão e olha em redor como que a agradecer à assistência.

 Quando ela fala, fala com a boneca e depois lhe segura na mão – eu sei que já a convenceu a ir pelo próprio pé, porque a vejo rojar o chão ao compasso do andar miudinho da Mãe cuidadosa que ela, então, se sente.

 Aquela menina, nada embonecada, sem laços, sem folhos, nem enfeites inibidores – vestida com bom gosto e conforto – que se mexe à vontade na roupa que usa e suja, descontraída e feliz no seu trabalho de brincar – saiu outro dia de casa  com um rolo de higiénico e um ar de ventura deslumbrada.

O que seria ? – não entendi

“Para fazer flores” – informou ela.

Mais tarde, recebi um ramo de ervas viçosas e frescas (que pus numa jarra) atadas com um grande laço de fartas pontas.

Tonta, fora eu, que não entendi que naquelas mãos pequenas de Pipi das meias altas, tudo se transforma  em milagre de verdade.

“São rosas, meu Senhor” – dissera a Rainha Santa – por ser santa.

“São flores” – disse a menina porque vive o estado de graça de ser – Criança.

 

    Maria José Rijo

 

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