Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e Benzeduras VII
A prima Guiomar era uma pessoa muito especial.
Na verdade, quando as famílias estavam organizadas dentro dos antigos moldes convencionais em todas as casas havia uma prima Guiomar, uma tia ou uma comadre Guiomar...
Também não era possível imaginar sequer um aglomerado familiar que não comportasse um cão de estimação e dois ou três gatos dando marradinhas nas pernas de quem se aventurasse a abrir a porta e entrar em qualquer cozinha.
Quer queiramos, quer não, temos que reconhecer que o facto de o mercado de trabalho não estar aberto às mulheres criava uma espécie de casta constituída pelos parentes pobres a que se juntavam ainda os amigos que quase sempre por morte de pais ou parentes se viam desprovidos de meios de subsistência.
Esta classe constituída por pessoas de boa educação, um certo orgulho de berço mas, sem meios, era um drama pungente que a sociedade disfarçava dando-se ares de muito generosa quando na verdade em muitos casos, sob uma capa de afectuosa protecção, se limitava a engrossar com esses deserdados a legião de pessoas que as serviam sem receber quaisquer proventos em troca.
Engolindo por força das circunstâncias o seu amor-próprio muitas vezes a revolta pelas injustiças e humilhações recebidas tornava as pessoas dissimuladas e falsas sempre prontas a servir quem no momento lhes desse maiores vantagens.
Balzac, no seu romance Prima Bette, como mestre que foi, ergue com essa personagem o retrato exemplar dessa trágica situação.
Mas, a prima Guiomar, em nada se comparava à Prima Bette.
A prima Guiomar era um doce de pessoa.
Ela tinha o dom de ser sempre a primeira a aparecer para ajudar em qualquer aflição, para tomar conta de doentes, entreter crianças e o mais que fosse necessário.
De avental e lenço branco sujeitando-lhe o cabelo, era vê-la em actividade nas matanças.
Temperava os chouriços, as morcelas, era mestra na feitura de paios e cacholeiras e tinham fama as farinheiras saídas da sua mão.
Ah! - mas o forte; o seu ex-libris eram as sopas de cachola que juntavam toda a família e amigos em redor da mesa celebrando a festa da abundância como uma orgia romana.
Depois, cheios como odres, cada comensal tentava dormitar por seu canto e ainda era a prima Guiomar que, solicita, aparecia com um barrigudo bule cheio de chá de ervinhas milagrosas, (segredos e mistérios que ela conhecia mas não confessava) para aliviar os tormentos daquelas digestões em que as gorduras e as especiarias regurgitavam guelra acima com diabólica insistência.
Entregues os adultos às merecidas penitências da sua própria gula, a prima Guiomar, aliciava a criançada com velhas histórias que sabia contar como ninguém.
Na frescura das casas de altas abóbadas instalava-se um silêncio de recolhimento como se ali se fora praticar um culto a qualquer deus primitivo, então a sua voz fraca e já um pouco insegura pontuava frente a uma assistência sempre interessada.

(Desenhos de Manuel Jesus )
Naquele dia em que surpreendi este ritual, contava ela:
Noutros tempos quando não chovia era costume levar o andor de Nossa Senhora ao campo para lhe mostrar as cearas, então rezava-se:
Ó minha Mãe Santíssima
Dai-nos o perdão
Senhor mandai-nos água
Para regar o pão
Eu sou pecadora
Não vos sei pedir
Não sou merecedora
Do Senhor me ouvir.
Cantado:
Bendito e louvado seja
O Santíssimo Sacramento da Eucaristia
Virgem Sagrada
Santa Maria.
Ora vai, ora vai com cuidado
Mas nunca te esqueças
Do Bendito e Louvado
Do Bendito e Louvado
Não me hei-de esquecer
Que a Virgem do Carmo
Nos há-de valer na maior aflição
Bradai Deus por Ela
No meu coração
No meu coração
Tenho grande dor
Em ter ofendido
A Deus Nosso Senhor
Isto era cantado várias vezes até dar a volta ao campo e regressar à Igreja.
Entretanto, os adultos pé ante pé já se tinham aproximado e, mal a prima Guiomar terminava o seu conto logo em coro lhe pediam:
- Conte, conte mais, conte outra história!
Sem mostrar cansaço sorrindo por vezes ela recomeçava ou, mantendo o sorriso, discretamente, desaparecia para os fundos da casa, dizendo apenas: - volto já!
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.426 – 7-Nov. -1997
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Este Livro foi publicado em Novembro de 2000
Caso esteja interessado na aquisição de algum volume
de Rezas e Benzeduras deve contactar o Jornal Linhas de Elvas

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5 comentários
De AndréV a 23.10.2007 às 20:14
tenho uma coisa para si no meu blog!
muitos parabéns pelo óptimo trabalho que tem feito
De cindamoledo a 23.10.2007 às 20:23
De Dolores Maria a 23.10.2007 às 21:24
É mesmo uma reza e Benzedura, a de hoje.!
E muito bonita por sinal.
Os meus Parabéns.
DO LO RE S
De Luis Miguel M. a 23.10.2007 às 21:35
este conjunto de Rezas e Benzeduras.
É um conjunto onde se vê uma recolha
muito bem pensada - cujos textos - além
de contar reminiscências contam a religiosidade
e as orações para cada circunstância.
Belissima escolha.
Os meus Parabéns.
L.M.M.
De Manuel Pinto a 24.10.2007 às 19:34
Este seu blog esta mesmo muito
interessante.
Estou fascinado com este seu trabalho de
recolha.
Não conhecia nada como o de hoje, desta reza e benzedura, na verdade desconhecia que tipo
de reza se dava fazer pelo campo.
Tinha conhecimento que se fazia - mas nunca
tinha ouvido nenhuma oração nesse sentido.
Os meus Parabéns.
É de Louvar esta sua colecção de rezas e benze-
duras.
Com amizade
Manuel Pintp

