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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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REZAS E BENZEDURAS VIII

O Ti Carrapiço era o maioral das vacas.

Não sabia ler nem escrever, mas com uma técnica da sua autoria por meio de risquinhos conseguia dar conta da história toda da manada.

Sabia os dias e os meses em que cada vaca parira, os preços que cada cria rendera e, portanto, era impossível não saber com segurança o rendimento que cada vaca dava.

Aliás, cada bicho tinha um nome, era a malhada, a estrelinha, a pimpona, a cotovia, a salpicada, etc, etc. 

Chamava-as pelos nomes e movia-se entre elas falando com tal à-vontade que parecia esperar que lhe respondessem.  

Pessoalmente nunca me cansava de apreciar aquelas cenas e sempre ficava convencida que havia um secreto entendimento entre eles, tanto mais, que os animais obedeciam a todas as ordens que o velhote lhes dava ainda que o fizesse num tom quase sussurrado. 

O outro comparsa destas andanças era o cão. Era um Serra d’Aires magrito, de olhinhos vivos e atentos que respondia por: Chito.

Bem! - Nem sei contar!

É que, se com as vacas já era um entendimento surpreendente, com o cão era autentica telepatia. Ti Carrapiço, mal acabava de cortar com a sua navalha de folha reluzente o resto da «linguriça» que mastigava com visível deleite com a última dentada de pão – logo se preparava para deixar o assento. 

Qualquer «padragulho» ou tronco de árvore caído servia de instalação para merendar repartindo com o Chito.

Era o maioral a fechar a navalha e o cão a por-se de pé antes do dono, mas sempre a olha-lo de olhos fitos e orelhas afiladas.

Então, pensando alto, o velhote dizia: -“ a gente agora podíamos ir dirêtos ós pocinhos mas nã vamos, tá bem de veri que vamos ó rés da estrada velha.”

O cão disparava numa corrida para cumprir o desejo do homem.

Verdade, verdade, que Ti Carrapiço nunca dizia: “o mê cão” – dizia sempre: ê cá, trabalho com o mê ajuda, ou com o mê companhêro.

E, porque assim era, porque tinha ajuda, ia sempre arranjando tempo para fazer umas “porquerinhas”em pau de buxo...

É que usando aquela navalha luzidia que ele afiava no couro das grossas botas de atanado quer fosse antes de começar as refeições, quer fosse antes de iniciar as suas obras de arte: - marcadores de pão, cadeirinhas minúsculas para pendurar ao ombro como corrediças de linha; que mulher, filhas e até já a neta, eram peritas em fazer meia de cinco agulhas... as suas mãos, tinham o condão de falar da sua alma.

A mulher, a Ti Estrudes, até já lhes deixara para elas essa arte que, para ser perfeita, precisava de “boa vista” - coisa que já lhe faltava.

Ensinara-lhes os pontos, os segredos de armar os calcanhares e as biqueíras para que os “mates” fizessem lindos feitios em vez de “ catramolhos “.

Para si própria guardara a recolha das ervas para as “fevres e fastios” e as benzeduras.

“Nove cabecinhas de macela postas de molho de véspera – e beber essa água em jajum – amarga mas cura e o que aperta é que segura.”

“A folha do rilha-boi, tem a gente sempre em casa num frasquinho dentro de azeite virgem. A gente queima-se bersunta-se com uma pena de galinha e alivia.

 A raiz da abrótea é o melhor que há p´rás empinges.”

 “A gente parte-as, espreme aquele charume amarelo e esfrega-se.”

São três dias.

P’rós males de feridas arejadas nada se chega ao chá das malvas! - Isso atão é bom p’ra tudo, até se bebe.

É remédio santo!

Até p’ra quistéles – desenvolve os entestinos.

Ele é p’ra bortoejas, pegamaço d’olhos, mal de pele, – dum tudo! 

Só p’ras almorroidas é que é melhor a alfavaca - p’ros banhos de assento - de restos p’ra mais nada , - veja lá!

P’ras pontadas nas costas esfricções e copos de ventosa; p’ras dores de cólicas: - chazes.

P’ras dores no pêto e tossera enxúndias de galinha em papel pardo bem quente.

E depois de prontamente dar estas lições de sabedoria popular herdada, sem esperar pagamento pelas consultas, lá ia benzer qualquer comadre atacada de cobro.

                                (desenhos de Manuel Jesus)

Pegando numa faca e fazendo cruzes sobre a zona doente dizia com convicção:

                                           “ Eu te corto cobro

                                             A cabeça e o rabo todo

                                             Para secares e não rebentares

                                             E daqui não passares”

Três vezes repetia o exorcismo que completava rezando um Padre-nosso e uma Avé Maria.

A seguir metendo num bolso um punhadinho de trigo tremês levava a paciente até ao ferreiro mais próximo. Aí, sobre a chapa com um ferro em brasa o ferrador esmagava o trigo. Com o óleo obtido enegrecido com a fuligem da forja mascarrava-se de negro toda aquela borbulhagem miudinha.

O óleo de trigo ao fim de três dias tinha feito o milagre, mas a aureola coroava a cabeça da ti Estrudes que, também três dias seguidos fizeram brilhar a sua navalha num bailado em cruz sobre as mazelas da crédula paciente.

                                           

 

                                                                    Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.428 – 21 – Nov. - 1997

@@@@@

Este livro foi Publicado em Novembro de 2000

Caso esteja interessado em adquirir um volume

de Rezas e Benzeduras deve contactar o Jornal Linhas de Elvas

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