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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Rezas e Benzeduras x

       Numa destas tardes em que um cinzento de chumbo tudo envolvia e do céu como um pranto copioso caía chuva e mais chuva sem cessar; sentei-me desolada com a escuridão do dia e cedi à lamúria:

        Que tempo desgraçado!

        Que dia sem luz!

          Que tristeza! - E mais isto e mais aquilo aduzindo cada vez mais motivos para não fazer coisa nenhuma. Nem a musica que escolhi a meu gosto me conseguia libertar da rabugice e desalento. A certa altura comecei a bocejar como fazem os gatos quando acordam para espantar a preguiça. Foi então que me ocorreu a recordação lá daquela pobre aldeia onde andei à escola, lá onde bocejar, não era, nem jamais poderia

 ser  uma atitude deselegante, mas apenas um terrível sintoma de quebranto. Razão mais que suficiente para procurar a cura na mais cotada das bruxas lá do sítio – a ti Pinhoa!

       Ir à ti Pinhoa, significava ir à consulta de um catedrático na especialidade sempre intrigante das rezas e benzeduras.

       Batia-se à porta.

       Embiocada num lenço escuro com ramagens prateadas a cabeça da velha espreitava pelo postigo que entreabria com precaução.

       Vêm cá a modo quê? -interrogava com desconfiança.

        Desculpe lá a moenga – dizia a consolente – mas a gente acha que estamos

 Encubrantadas e queríamos que você nos desencubrantasse.

         Espreitando primeiro com os olhinhos muito vivos para ambos os lados da rua, como se receasse ser perseguida ou espiada, abria depois a porta e puxava as pessoas para dentro de casa com a rapidez da aranha que envolve a mosca na teia.

        Numa casa sem janela, iluminada apenas pela escassa claridade que umas telhas de vidro espalhavam, sobre a meia-cómoda composta com duas jarras enfeitadas com

 palmitos de flores de papel e umas pobres cadeiras de fundo de bunho ; começava a função. O chão de terra batida tornava o ambiente ainda mais soturno, a tal ponto, que

 a luz que entrava pelas frinchas da madeira da porta dava a ilusão de lâmpadas acesas

        Gerava-se um silêncio de cortar à faca.

        Assentem-se! Dizia a velha.

        Toda a gente obedecia.

        Vou buscar os pertences – esclarecia a sibila – ausentando-se com ligeireza.

         Retornava com uma garrafa de azeite, uma tijelinha com sal, um pucarinho de barro cheio de água e um pires.

         Colocava tudo sobre a mesa do meio da casa onde um Zé povinho, fazendo um manguito, marcava o centro, rodeado de abóbrinhas e outras bugigangas tão pelintras que pareciam funcionar mais como bilhetes de identidade de pobreza do que, como enfeites, missão, que sem dúvida, lhes fora confiada.

         Com água se enchia o pires, com o sal se lhe fazia uma cruz, depois tirando do bolso do avental um terço começava a velha a andar à roda do paciente fazendo cruzes sobre todas as partes do corpo enquanto recitava:

                                          (( Desenho de Manuel Jesus))

         

          Fulano ou Fulana

          Deus te dormiu, Deus te criou

          Nossa Senhora por ti passou

          Deus perdoe a que mal te olhou

          Se tens na cabeça – valha-te santa Teresa

          Se tens nos braços -valha-te santo Anastácio

          Se tens na barriga – valha-te santa Margarida

          Se tens nas pernas – valha-te santa Madalena

 

               Santa Ana pariu Maria

               Maria pariu Jesus

               Aqui se reza o credo em cruz

   

       Terminada a benzedura a ti Pinhoa molhava a pontinha do dedo mínimo da mão direita no azeite e com toda a solenidade espargia sobre a água umas gotinhas -apenas três – se as gotinhas do azeite se desmanchavam o quebranto persistia -se permaneciam redondinhas e perfeitas o mal estava afastado e não era necessário recomeçar a reza.

       A saída da casa era precedida do mesmo ritual. Primeiro a espreitadela pelo postigo

da porta , depois a transferência dos benzidos para a rua com rapidez idêntica à que fora usada para a introdução na casa dos prodígios .

       Os temores, vim a saber depois, eram parte da encenação de mistério que se quadrava a matar com aquelas artes mágicas.

        Era lógico -pois se toda a aldeia a sabia com “dons” especiais e lhe pedia os bons ofícios não havia necessidade – a não ser para criar mistério – do cerimonial que enquadrava os serviços que ela tão generosamente prestava a troco apenas da crença de bem fazer e que a vizinhança lhe retribuía com presentinhos de mimo de quem,

sendo pobre, entre pobres ,se alegrava  ao receber uma manchinha de azeitonas, um pão mole,umas pupias de torresmos em dia de amassadura...ou apenas uma pá de brasas

para  aconchego numa noite mais fria que, naqueles tempos, no Alentejo, a pobreza tinha  a dimensão de vidas inteiras .

 

                                              Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.439 – 6- Fev.-1998

@@@

Este livro foi publicado em Novembro de 2000

Se estiver interessada num volume de Rezas e Benzeduras

deve de contactar o Jornal Linhas de Elvas

 

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