Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e Benzeduras x
Numa destas tardes em que um cinzento de chumbo tudo envolvia e do céu como um pranto copioso caía chuva e mais chuva sem cessar; sentei-me desolada com a escuridão do dia e cedi à lamúria:
Que tempo desgraçado!
Que dia sem luz!
Que tristeza! - E mais isto e mais aquilo aduzindo cada vez mais motivos para não fazer coisa nenhuma. Nem a musica que escolhi a meu gosto me conseguia libertar da rabugice e desalento. A certa altura comecei a bocejar como fazem os gatos quando acordam para espantar a preguiça. Foi então que me ocorreu a recordação lá daquela pobre aldeia onde andei à escola, lá onde bocejar, não era, nem jamais poderia
ser uma atitude deselegante, mas apenas um terrível sintoma de quebranto. Razão mais que suficiente para procurar a cura na mais cotada das bruxas lá do sítio – a ti Pinhoa!
Ir à ti Pinhoa, significava ir à consulta de um catedrático na especialidade sempre intrigante das rezas e benzeduras.
Batia-se à porta.
Embiocada num lenço escuro com ramagens prateadas a cabeça da velha espreitava pelo postigo que entreabria com precaução.
Vêm cá a modo quê? -interrogava com desconfiança.
Desculpe lá a moenga – dizia a consolente – mas a gente acha que estamos
Encubrantadas e queríamos que você nos desencubrantasse.
Espreitando primeiro com os olhinhos muito vivos para ambos os lados da rua, como se receasse ser perseguida ou espiada, abria depois a porta e puxava as pessoas para dentro de casa com a rapidez da aranha que envolve a mosca na teia.
Numa casa sem janela, iluminada apenas pela escassa claridade que umas telhas de vidro espalhavam, sobre a meia-cómoda composta com duas jarras enfeitadas com
palmitos de flores de papel e umas pobres cadeiras de fundo de bunho ; começava a função. O chão de terra batida tornava o ambiente ainda mais soturno, a tal ponto, que
a luz que entrava pelas frinchas da madeira da porta dava a ilusão de lâmpadas acesas
Gerava-se um silêncio de cortar à faca.
Assentem-se! Dizia a velha.
Toda a gente obedecia.
Vou buscar os pertences – esclarecia a sibila – ausentando-se com ligeireza.
Retornava com uma garrafa de azeite, uma tijelinha com sal, um pucarinho de barro cheio de água e um pires.
Colocava tudo sobre a mesa do meio da casa onde um Zé povinho, fazendo um manguito, marcava o centro, rodeado de abóbrinhas e outras bugigangas tão pelintras que pareciam funcionar mais como bilhetes de identidade de pobreza do que, como enfeites, missão, que sem dúvida, lhes fora confiada.
Com água se enchia o pires, com o sal se lhe fazia uma cruz, depois tirando do bolso do avental um terço começava a velha a andar à roda do paciente fazendo cruzes sobre todas as partes do corpo enquanto recitava:

(( Desenho de Manuel Jesus))
Fulano ou Fulana
Deus te dormiu, Deus te criou
Nossa Senhora por ti passou
Deus perdoe a que mal te olhou
Se tens na cabeça – valha-te santa Teresa
Se tens nos braços -valha-te santo Anastácio
Se tens na barriga – valha-te santa Margarida
Se tens nas pernas – valha-te santa Madalena
Santa Ana pariu Maria
Maria pariu Jesus
Aqui se reza o credo em cruz
Terminada a benzedura a ti Pinhoa molhava a pontinha do dedo mínimo da mão direita no azeite e com toda a solenidade espargia sobre a água umas gotinhas -apenas três – se as gotinhas do azeite se desmanchavam o quebranto persistia -se permaneciam redondinhas e perfeitas o mal estava afastado e não era necessário recomeçar a reza.
A saída da casa era precedida do mesmo ritual. Primeiro a espreitadela pelo postigo
da porta , depois a transferência dos benzidos para a rua com rapidez idêntica à que fora usada para a introdução na casa dos prodígios .
Os temores, vim a saber depois, eram parte da encenação de mistério que se quadrava a matar com aquelas artes mágicas.
Era lógico -pois se toda a aldeia a sabia com “dons” especiais e lhe pedia os bons ofícios não havia necessidade – a não ser para criar mistério – do cerimonial que enquadrava os serviços que ela tão generosamente prestava a troco apenas da crença de bem fazer e que a vizinhança lhe retribuía com presentinhos de mimo de quem,
sendo pobre, entre pobres ,se alegrava ao receber uma manchinha de azeitonas, um pão mole,umas pupias de torresmos em dia de amassadura...ou apenas uma pá de brasas
para aconchego numa noite mais fria que, naqueles tempos, no Alentejo, a pobreza tinha a dimensão de vidas inteiras .
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.439 – 6- Fev.-1998
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Este livro foi publicado em Novembro de 2000
Se estiver interessada num volume de Rezas e Benzeduras
deve de contactar o Jornal Linhas de Elvas

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4 comentários
De Dolores Maria a 30.10.2007 às 00:10
ADOREI!!
Este texto é uma delicia.
Gosto deste tipo de rezas, e agora vou aqui escrever
a reza que a minha tia Luiza rezava quando
eu e a minha prima eramos pequeninas.
--
Pode-se dizê-la em qualquer lugar,
até de uma janela:
Conforme é certo nascer
o menino de Deus em Belém
Assim seja certo tirar o quebranto,
mau olhado, ou mal de inveja, ou todo o mal atravessado
Se [o nome da pessoa] o tem,
vá tudo para o mar salgado.
--
É uma achega para a minha amiga
Maria José que gosta também de rezas.
Beijinhos e até amanha
DO LO RES
De Malaquias Beirão de Sousa a 30.10.2007 às 00:18
Já fazia tempo que não vinha espreitar
este belo blog e hoje deparei-me com
esta bela reza e benzedura e como eu sei
uma reza para tirar o quebranto
(ensinou-me a minha Biza ) não
resisti em escrteve-la aqui -para lha
oferecer já que é diferente da sua.
espero que goste da minha achega.
Com amizade
Um abraço
M.B. de Sousa
(Nome da pessoa a benzer), Deus te fez,
Deus te criou,
Deus te tire o mal que no teu corpo entrou:
Nas tuas pernas
Na tua barriga
No teu estômago
No teu coração
Nos teus olhos
Na tua cabeça
No teu interior, fizeram-te mal.
Atravessados Sol e Lua, tornem a vir
Que te hão-de deixar a tua saúde.
São três, são três, são três as pessoas da Santíssima Trindade.
Com que se benze o quebranto,
Com água da fonte,
E com Bom Jesus defronte,
Que é tão bom, que é tão santo,
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo:
Valei-te o Senhor dos Aflitos;
Valei-te a Senhora do Tojo;
Valei-te o Divino Espírito;
Valei-te o Santíssimo Sacramento;
Valei-te aqui São João
(repetem-se os últimos cinco versos, 5 vezes)
Que te tirem o teu mal e te ponham são.
As santas cruzes de Cristo te alevantem maus olhos odiados.
Aleluia,
Aleluia,
Aleluia!
Credo, credo,
Credo, credo,
Credo, credo
Credo à Virgem.
Nossa Senhora te entregue.
(repetem-se os dois últimos versos, três vezes)
Valei-te o Divino Espírito Santo
Que te leve do teu corpo para fora esse malvado quebranto
Lá para as ondas do mar
- que ninguém o possa apanhar.
Santo é só Deus
Santo é só Deus
Santo é só Deus
Abrenúncio
Abrenúncio
Abrenúncio
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A reza é feita perante o doente, com uma bacia de água defronte e com um copinho de azeite. Depois de feita a reza, molham-se os dedos no azeite e deixam-se cair algumas gotas sobre a superfície da água. Se o mal é, de facto, quebranto, as gotas individualizar-se-ão na forma de pequenas lentes, com um centro de luz, semelhante a olhos (os olhos das bruxas que lançaram o quebranto) - caso contrário, o azeite espalha-se sobre a superfície... Posso estar enganado em questões de pormenor quanto a este procedimento.
De Joaquim Gregório a 30.10.2007 às 20:23
Aqui encontramos uma alma bela
de vivências espantosas que estão a ser-nos
contadas num emotivo português.
Aliás escritos num português muito bom,
fluente e vivo.
Gosto sinceramente da forma lucida e
perfeita da exposição dos temas aqui
apresentados.
É um blog actual que consegue captar
o interesse de quem lê.
Muitos Parabéns
Joaquim Gregório
De Isabel a 24.02.2009 às 14:42
Nesta altura da minha Vida preciso de muita ajuda. Por isso, perdoem-me ser tão directa, mas conhecem alguém que saiba mesmo "tirar o quebranto"?
Obrigada
Isabel

