Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A partida das andorinhas

Quinta-feira, 08.11.07

“Uma velha tinha um gato, debaixo da cama o tinha. O gato miava, o pinto piava e a velha dizia: mil raivas vos persigam – que não vos posso aturar!”

Não! - Não é a velha história!

Esta é diferente.

Eu tinha um gato. - Até aqui coincide. No resto é completamente distinta esta narrativa.

O meu gato chamava-se Picolino e era filho da gata Bambina.

Ambos eram de boa estirpe. Casta apurada.

Eram persas, mas exprimiam-se no idioma universal dos felinos. Miavam.

Noutras ocasiões, davam marradinhas nas nossas pernas, pulavam-nos para o regaço e, mesmo sem miar a gente entendia o que eles queriam fazer entender.

Não é que as pessoas falem língua de gato ou de cão.

Não, não é isso.

A verdade é que quando as pessoas assim o pretendem, todas são capazes mesmo sem palavras, de falar e entender a linguagem do amor.

Mesmo que seja do afecto por um animal de companhia.

Ora, naquele dia em que as andorinhas irrequietas esvoaçavam, treinando o voo da partida, fugindo ao frio, rumo à rota das temperaturas amenas, tendo eu as janelas abertas de par em par, para não perder aquela bela mensagem do Outono a instalar-se entre nós, percebi que o meu gato estava impaciente porque queria cuidar de si e, eu, andando de um lado para o outro não lhe dava paz.

Ajeitei uma pequena poltrona no vão da janela, acomodei-me nela com gosto, agarrei nas meias que tinha para cerzir e, por ali me quedei, gozando a bela tarde daquele dia, agora já bem distante.

Ainda se cerziam meias! - Veja-se! a que distância no tempo isto aconteceu...

Então o meu gato que gostava de seguir os meus passos como uma sombra silenciosa sentou-se no chão, bem na minha frente, e começou a lamber as patas e a esfrega-las pelo focinho, lavando as orelhas e penteando os bigodes com a delicadeza e a suavidade que caracterizam os movimentos de um gato bem disposto, que se presa!

Eu olhava-o apreciando como são elegantes as atitudes dos gatos. Como são meigos e mansos quando descuidados e confiantes e pensava como são ardilosos, falsos e agressivos, se por qualquer razão se tornam desconfiados.

Então toda aquela doçura se esvai, arqueiam o lombo para parecerem mais volumosos, eriçam o pêlo, silvam como serpentes, acendem chamas nos olhos e, as tais patitas almofadadas de pelúcia e cetim desembainham como lancetas afiadas, as suas unhas retracteis capazes de cegar, ou ferir, qualquer incauto.

Ora acontece que enquanto eu assim pensava, olhando-o, o meu gato se apercebeu, talvez por algum chilreio de tom mais elevado do esvoaçar das andorinhas tão ansiosas que pareciam recear esquecer-se de realizar alguma tarefa importante.

Penso que elas andavam num difícil trabalho de contagem, dificultado pela irrequietude das componentes do bando. Por certo, seria isso.

Então, de repente levantaram voo dos fios dos telefones onde se passavam estes ensaios que referi, e, a pouco e pouco foram desaparecendo do meu horizonte.

Mas o curioso da história é que foi através dos olhos do meu gato que eu presenciei a partida das andorinhas.

Quando ele se apercebeu daquele burburinho e vaivém, ficou extasiado, imóvel olhando...Nos seus grandes olhos verdes, a sombra daquelas asas em movimento reflectia-se como num espelho. Tremiam-lhe os bigodes, pela força da cobiça. Emitia uns sons velados como gemidos ou suspiros, e, quando o rectângulo de céu que a janela lhe mostrava ficou apenas enfeitado com umas leves nuvens brancas, começou a miar para que eu o seguisse, o que fiz. Levou-me até junto do prato onde sempre comia.

 Olhou-o, virou-se e começou a raspar como os gatos fazem, quando querem tapar alguma porcaria.

Em seguida, com um jeito de resmungão, ostensivo, foi deitar-se na sua almofada para mostrar claramente que os petiscos dos seus sonhos - tinham asas...

 

 

                                                        Maria José Rijo

@@@@

Revista Norte Alentejo

Novembro 2001 – nº 15                          

Crónica

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 21:28


3 comentários

De Gustavo Frederich a 08.11.2007 às 23:48

Gostei particularmente deste texto.
Gosto quando fala de si, quando conta
sobre si, as suas coisas, do que gosta,do
que aprecia.
não sei porque mas deve de estar ligado
ao facto de eu adorar biografias, de saber
tudo, sobre pessoas que admiro, e que são ditas
assim... como a Senhora por vezes faz - ao
falar de si - gosto.
Este texto é um pedacinho cheio de ternura,
com gatos lindos e onde escreve com uma
fluidez cheia de beleza. ( fico sem palavras
que possam expressar o que sinto quando a
leio ) - é como um turbilhão de imagens que
se formam dentro de mim a cada leitura.

Agradeço esta beleza de hoje. Compreendo
agora a admiração da Paula por esta sua tia
escritora.
Parabéns
Parabéns
Parabéns

Gustavo Frederich

De Dolores Maria a 08.11.2007 às 23:54

Gostei!
Gostei imenso deste seu texto. Parece um conto.
Também gosto muito de gatos, o meu Avelino
ofereceu-me, este ano, no aniversário um gato
todo branco, numa cesta, com um laço vermelho
no pescoço. É o Kikas e é um querido, muito meigo.

Mas... este seu texto é uma perfeição.
Uma delicia de inicio ao fim.
Até me sinto feliz ao ler este tipo de texto, cheios
de paz.

Muitos beizinhos tia virtual
e saiba que dia sem texto seu ou não vir a net
é dia triste para mim.

Beizinhos vou dormir

DO LO RES

De António Piedade a 09.11.2007 às 00:36

Gosto sempre tanto dos
seus textos.
Gosto da forma como consegue chegar
ás pessoas, aos seus corações atraves das suas
palavras.
É uma Diva da palavra - como li num comentário
neste mesmo blog.
Fico satisfeito por ser uma opinião alargada
por todas estas pessoas que aqui comentam.

Acho que quem lê deveria comentar.
Sou da opinião que o comentário dá alento
a quem escreve - e dá-lha a saber que não é
em vão - que nós os leitores gostamos e
apreciamos.

Eu comento este e outros blogs porque e quando
gosto do que leio.
É o caso deste Belissimo blog.

Os meus Parabéns.
Um abraço

António Piedade

Comentar post





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Novembro 2007

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930


comentários recentes

  • Anónimo

    Querida Tia Maria JoséQue alegria chegar mais um d...

  • Anónimo

    Minha querida e Boa amigaque alegria chegar aos 93...

  • Anónimo

    Minha querida tiaEu sabia que era hoje o dia do se...

  • Anónimo

    Titia queridaQue alugria nesse seu aniversário.Des...

  • Anónimo

    Minha querida Amiga93 anos - uma data muito import...


Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


links

Um pouco de mim...

EFEMERIDES

Blogs- quem nos cita

Deambulo por

Culinaria

K I K A

Paginas de Diário

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

2017

2018

2019

Cá estou ...

Mais alguns...

Alguns...

Alentejo

Eurico Gama

Artigos sobre...

Escola Musica / Coral

Elvas Cidade...

Escritores e...

A Familia

Sebastião da GAma

Minhas sobrinhas Bisnetas

Meus sobrinhos Netos

Meus sobrinhos

Diversos...

Páscoa

São Mateus

Cartas especiais

noticias em Jornais

Dia da Criança

Cartas do Brasil- 1996

AÇORES

Juromenha

Col. de Gastronomia

O Natal

Exp. MuseuTomaz Pires-1984

Exposição PERCURSO-2008

HistóriasCmezinhasEreceitas

Revista Sénior

JOSÉ RIJO

Hospital e Maternidade

Livro de Reminiscências

Livros- de HistóriasInfantis

  • A história da Cotovia
  • A história de uma Flor
  • A historia do Castelo
  • AlendaMisterioso vale florido
  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
  • ... então sonhei!
  • O Cavalinho encantado
  • A princesa Jasmim
  • Aurinha está doente
  • Arnaldo o terrivel
  • A Cabrinha
  • Era uma vez ...
  • O pequeno castanheiro

Dias festivos

Programa de Poesia (radio)

Crónicas na Revista

Livro de Poemas - I

Livro de Poemas - II

Livro de Poemas - III

Livro de Poemas - IV

Aniversários Linhas

Livro Rezas e Benzeduras

Livro das Flores

LivroJoaoCarpinteiro

A Visita - Despertador

Programas se SãoMateus

Entrevistas

Entrevista - TV-Videos,etc

Visitantes no Blog

Aniversarios Blog



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos