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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Carta do Brasil – II

         A serra a que se encosta a “roça” onde estamos chama-se Itatiaia – o que quer dizer: - ita – pedra – e, neste caso pedra com muitos bicos.

         Três desses cumes – gorila, gorilinha e mata-cavalos – são o fundo do nosso cenário de cada dia.

         Mata-cavalos porque, animal que quebrasse as pernas passando o estreito entre as serras, o que era frequente, morria por lá. A altura da serra é de 1.800 metros.

         Por detrás destes montes esconde-se o sol aí pelas 17 horas mais ou menos. O crepúsculo é breve. O mesmo é dizer que às 18 e 30 é noite fechada e os serões são intermináveis. Para nós, portugueses, que raciocinamos em termos de outro fuso horário, confunde um pouco.

         O dia começa-se muito cedo. Às seis da manhã, hoje já o Baiano de” balaio” ao ombro (Balaio é um cesto. Já ouvi este termo no Algarve, na região de Estombar) e forquilha na mão se preparava para limpar a relva das folhas caídas.

         Esta “roça” é atravessada por um rio o “Piripitanga”. Como ele vem da montanha aqui junto, onde nasce, o seu caudal não é aqui ainda muito volumoso. Daí que tenha sido domesticado em função da beleza do local. Com imaginação e aproveitando os enormes rochedos de granito fazem-no serpentear por todo o lado e passar por sucessivas albufeiras que escorrem de umas para outras.

         Sendo a propriedade de um português a “roça” virou “Quinta das albufeiras” em vez da designação local. O espaço é grande. Embora tenha a horta bem disfarçada entre a cultura de abacaxis e outras próprias da região “taioba” por exemplo (cujas folhas se comem em esparregado e sopa e o rizoma frito como batatas) – a propriedade, dizia, está mais vocacionada para lazer. Além da casa dos donos tem dois pequenos “ranchinhos” para receber com independência familiares e amigos.

         Instalaram-nos quase escondidos entre a vegetação exuberantíssima e de tal modo que o sol ao nascer lhes bate nas janelas e a passarada começa logo no corre-corre aos comedouros que lhes estão destinados e estão sempre bem providos de fruta e sementes.

         Assim, a gente, quando acorda quase julga que durante o sono se mudou para o paraíso.

         O “ranchinho” que escolhi para mim está erecto sobre uma ponte de cimento que atravessa o rio. Rente á janela, a sul, tem uma albufeira onde às seis da manhã já andam os “Jacus” – parecem pequenos perus e uma outra ave com patas vermelhas e pernas altas, parecida com uma grande perdiz que se chama “Saracura”. O rio, alimenta a piscina frente á minha porta e corre, corre sem parar como é destino dos rios.

         Toda a noite o som da água embala a minha saudade pelas pessoas que queria ter junto de mim.

         Logo ao amanhecer quando escuto o som que lhes é próprio, fico quieta por detrás dos vidros da janela a ver esta passarada entrar e sair do mato e banhar-se na lagoínha de águas tão límpidas e transparentes como se Deus a tivesse acabado de criar.

         Á noite, de luz apagada venho para a porta olhar o céu. Parece mais baixo e mais estrelado do que aí. Não fora o “cruzeiro do sul ” lá no alto e quase pensaria que tudo isto era um cenário imaginado.

         Ao lado da “minha” porta é a sauna e a seguir o alpendre dos churrascos.

         Há cinco anos instalou-se na região uma colónia de finlandeses que trouxeram para cá este costume.

         (Noutras zonas que já visitei e de que gostaria ainda de falar há marcadas influências alemãs e suíças a ponto de pensarmos que mudamos de país tão acentuado é o cunho que lhes imprimiram.)

         Aqui fazem sauna á noite e de imediato vão ao banho na piscina.

         Até agora não ousei a experiência!...

               Regalo-me na piscina, sim! – Mas de dia com um sol luminoso e quente a confortar-me.

         Ontem, houve churrasco – era dia de aniversário do dono da casa – razão que cá me trouxe Festejar 80 anos com estas condições físicas e intelectuais é mais do que razão para festejar.

         O Churrasco, aqui, é uma tradição engraçada. Veio o “churrasqueiro” e a mulher para as tarefas domésticas.

         Assaram boi, frango, linguiça e lombo de porco. Beberam cerveja, vinhos, caipirinhas e caipiroskas.

         Tal como nas novelas o churrasqueiro e a mulher discretamente, confraternizam com as visitas e os donos da casa.

         Mesmo para as carnes, os acompanhamentos metem sempre: “feijãozinho”, “arroiz” e salada de batatinha.

         As pessoas são afáveis e comunicativas. Conversam de tudo e de nada, de política e de assuntos de interesse local.

         Fazem-no sem o nosso ar de tragédia.

         Comentam a “porcaria da estrada”. Riem porque as “pêssoas” sacolejam como pipocas na panela dentro dos carros e contam seus 

“récores” de tempo para cobrir os “malvados” 20 quilómetros de buracos que unem Resende à Serrinha.

         Aqui tudo se baptiza. A máquina a vapor do comboio que faz turismo em Campos do Jordão é a “Maria Fumaça” que puxa o “trenzinho”.

         As cuecas que quisemos comprar para os garotos são “samba-canção” e, é tudo, tudo assim.

         É indiscutivelmente gente bem disposta e com sentido de humor.

         Aqui em casa há 3 carros. O “Belo António” que já referi, o “Quebra Galho” para carregar compras e mandados no dia-a-dia e o “Fusquinha” para as saídas rotineiras do casal.

         Por todo o lado, até nas rochas – incrivelmente – floresce em rosa, salmão, e vermelho, uma planta linda que aí se compra na florista e se chama “alegria da casa”.

         Pois aqui, tal como cóleos e crotones ela borda estradas e caminhos em abundância. Como não a conseguem controlar foi também rebaptizada de “Maria sem vergonha” – porque reaparece por mais perseguida que seja.

Há por cá uma imensidão de pássaros lindos. Sempre que avisto algum diferente pergunto o nome e anoto.

Outra vez que calhe, falarei deles.

Por hoje, deixo-vos.

Tenho que preparar as bagagens pois, tal como na novela da Tieta – amanhã se Deus quiser conto ir para “Sum Paulo”.

Oxalá Dona Ninete queira fazer de cicerone!...

                                                

                                  Maria José Rijo

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.354 – 7 /Junho/1996

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