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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Rezas e Benzeduras – XVI

“A Relíquia”

 (( Desenhos de Manuel Jesus))

              Os pequenos da família tinham crescido sem que contabilizássemos o tempo

              Cada ano, nas datas próprias, faziam-se as festas de aniversários, compravam-se as prendas, juntavam-se tios e primos, apareciam, sem convite, os amigos íntimos, esperávamos o Avô que chegava, como que por acaso e, como sempre, presidia à reunião, calado, mas via-se muito bem que – feliz.

              Saudosas suspirávamos: parece mentira!

              Já 18...

              Já 19...

              Já 20...

Parece que foi ontem...e continuávamos a falar dos garotos, dos pequenos...

             Um belo dia, porém, acordamos para a realidade.

              Os seus nomes começaram a constar dos editais dos mancebos que deviam ir à inspecção.

              Os” garotos “iam à tropa.

              Iam viver essa experiência.

A seguir à comoção, à estranheza... o quê?!! Os garotos!... Àquele calor estranho que conforta e assusta simultaneamente, enchendo corpo e alma quando se repara, se olha e vê, que os garotos fazem a barba, mudaram de voz, fazem noitadas... a seguir, logo a seguir, veio aquela dor aguda como uma punhalada.

               E, se os garotos, vão para o Ultramar?..

               E....

               E....

Afinal, a guerra lá de longe batia-nos à porta

               E bateu.

               E entrou

               E comeu connosco à mesa.

               Dormiu connosco, nas nossas camas, como uma chaga viva nos nossos corações. Levou-nos a alegria. Deixou-nos o medo do que poderia acontecer e a esperança de que nada acontecesse.

               Fizeram-se recomendações atrás de recomendações.

               Fingiram-se orgulhos, valentias.

               Exacerbaram-se patriotismos, inventou-se coragem para dar e para viver , num fazer e desfazer de quem anda à roda, em círculos, convencido de que está a avançar no caminho.

               Então, cada qual, descobriu que isto e mais aquilo, poderia servir de talismã.

               Quando em grupo, com uma falsa serenidade, dizíamos depreciativamente – crendices, superstições...

               Depois à sucapa, cada qual com um certo ar displicente, passava de mão a mão a sua lembrancinha.

                Trago esta medalha ao pescoço desde o dia do meu baptizado. Deu-ma minha Madrinha. Leva-a! Vai-te dar sorte.

               Guarda contigo este livrito. É a ”Imitação de Cristo” Tenho-o sempre cabeceira. Verás que nele encontras resposta para todas as tuas dúvidas.

                Os dias passaram.

                A data do embarque aproximava-se...

                Então, naquele dia, o Avô que a tudo assistira em silêncio com os olhos a brilhar, usando uma brusquidão que não enganava ninguém, mas que lhe parecia disfarçar a sua vontade de chorar disse:

                Toma! - Leva contigo.

                Era um saquinho de brocado vermelho, puído, quase roto, cosido e recosido à mão com pontos miudinhos, esmerados. Fechado como uma almofadinha. Com cinco centímetros no máximo de dimensão.

                O que é isto? - Foi a pergunta.

                Tem dentro os Credos escritos em cruz, uma relíquia do Santo Lenho e uns fios do manto de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Costurou-o tua Avó, que Deus tem, e coseu-mo no forro da farda quando fui para a França na guerra de 14.

                Agora é para ti!

                Como uma criança apanhada em falta o Avô tinha o rosto vermelho e um ar confuso.

                Mas eu nunca vi isso! - Exclamou a filha absolutamente surpreendida.

                Mudei-o sempre de bolso para bolso, até do pijama, confessou.

                Todos guardamos segredos acrescentou. Não há ninguém sem mistérios!

                Devolvo-lho quando voltar disse o rapaz abraçando-o.

                Cá te espero – respondeu o Avô, afastando-se apressado.

     

                E, assim se despediram...

 

                                                              Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.450 – 24-Abril-1998

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Este livro de Rezas e Benzeduras pode ser adquirido

no Jornal Linhas de Elvas

 

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