Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rezas e Benzeduras – XVI
“A Relíquia”

(( Desenhos de Manuel Jesus))
Os pequenos da família tinham crescido sem que contabilizássemos o tempo
Cada ano, nas datas próprias, faziam-se as festas de aniversários, compravam-se as prendas, juntavam-se tios e primos, apareciam, sem convite, os amigos íntimos, esperávamos o Avô que chegava, como que por acaso e, como sempre, presidia à reunião, calado, mas via-se muito bem que – feliz.
Saudosas suspirávamos: parece mentira!
Já 18...
Já 19...
Já 20...
Parece que foi ontem...e continuávamos a falar dos garotos, dos pequenos...
Um belo dia, porém, acordamos para a realidade.
Os seus nomes começaram a constar dos editais dos mancebos que deviam ir à inspecção.
Os” garotos “iam à tropa.
Iam viver essa experiência.
A seguir à comoção, à estranheza... o quê?!! Os garotos!... Àquele calor estranho que conforta e assusta simultaneamente, enchendo corpo e alma quando se repara, se olha e vê, que os garotos fazem a barba, mudaram de voz, fazem noitadas... a seguir, logo a seguir, veio aquela dor aguda como uma punhalada.
E, se os garotos, vão para o Ultramar?..
E....
E....
Afinal, a guerra lá de longe batia-nos à porta
E bateu.
E entrou
E comeu connosco à mesa.
Dormiu connosco, nas nossas camas, como uma chaga viva nos nossos corações. Levou-nos a alegria. Deixou-nos o medo do que poderia acontecer e a esperança de que nada acontecesse.
Fizeram-se recomendações atrás de recomendações.
Fingiram-se orgulhos, valentias.
Exacerbaram-se patriotismos, inventou-se coragem para dar e para viver , num fazer e desfazer de quem anda à roda, em círculos, convencido de que está a avançar no caminho.
Então, cada qual, descobriu que isto e mais aquilo, poderia servir de talismã.
Quando em grupo, com uma falsa serenidade, dizíamos depreciativamente – crendices, superstições...
Depois à sucapa, cada qual com um certo ar displicente, passava de mão a mão a sua lembrancinha.
Trago esta medalha ao pescoço desde o dia do meu baptizado. Deu-ma minha Madrinha. Leva-a! Vai-te dar sorte.
Guarda contigo este livrito. É a ”Imitação de Cristo” Tenho-o sempre cabeceira. Verás que nele encontras resposta para todas as tuas dúvidas.
Os dias passaram.
A data do embarque aproximava-se...
Então, naquele dia, o Avô que a tudo assistira em silêncio com os olhos a brilhar, usando uma brusquidão que não enganava ninguém, mas que lhe parecia disfarçar a sua vontade de chorar disse:
Toma! - Leva contigo.
Era um saquinho de brocado vermelho, puído, quase roto, cosido e recosido à mão com pontos miudinhos, esmerados. Fechado como uma almofadinha. Com cinco centímetros no máximo de dimensão.
O que é isto? - Foi a pergunta.
Tem dentro os Credos escritos em cruz, uma relíquia do Santo Lenho e uns fios do manto de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Costurou-o tua Avó, que Deus tem, e coseu-mo no forro da farda quando fui para a França na guerra de 14.
Agora é para ti!
Como uma criança apanhada em falta o Avô tinha o rosto vermelho e um ar confuso.
Mas eu nunca vi isso! - Exclamou a filha absolutamente surpreendida.
Mudei-o sempre de bolso para bolso, até do pijama, confessou.
Todos guardamos segredos acrescentou. Não há ninguém sem mistérios!
Devolvo-lho quando voltar disse o rapaz abraçando-o.
Cá te espero – respondeu o Avô, afastando-se apressado.
E, assim se despediram...
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.450 – 24-Abril-1998
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Este livro de Rezas e Benzeduras pode ser adquirido
no Jornal Linhas de Elvas

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7 comentários
De Dolores Maria a 12.11.2007 às 23:58
Muito boa noite minha amiga
Esta reza e Benzedura nada tem que ver com a
outra, gosto muito mais da forma, da escrita...
Já tive outra vez a sensação de estar sentada a
seu lado, ouvindo-a falar.
É muito gostosa esta sensação.
Desta gostei e muito, muito.
Os meus Parabéns mais esta vez.
Já estou sonhando como o dia de amanhã
só para saber o que nos vai oferecer para ler.
Beizinhos
DO LO RES
De António Piedade a 13.11.2007 às 00:03
Cá estou eu para ler a nova reza e benzedura
neste livro espectacular.
É muito bonita a forma como expõe estes textos,
a forma como as suas reminiscências se
imiscuem - num todo - nestes textos belos.
O seu português é magnífico.
Gosto IMENSO, e não lhe faço favor nenhum
com o que aqui comento, só tenho pena de não
ter as palavras necessárias para poder explicar o
quanto me inspira e o quanto me alegra o seu
blog.
... mas sinto... e admiro cada texto, cada pensamento,
cada reminiscência...
Parabéns
António Piedade
De Gustavo Frederich a 13.11.2007 às 00:09
Hoje, nesta semana tenho a Senhora minha
Mãe - aqui, na minha casa e como ela gosta imenso
de ler - e eu tive de ir trabalhar - dei-lhe para ler
os seus artigos ( que passo para o papel ) - num
dossier especial para si.
Pois bem a D. Rute gostou imenso e diz que nunca tinha lido nada tão bom.
Adorou as reminiscências e as rezas então...
está fascinada (ainda tem muito para ler - que bom!)
Como vê - aqui desta minha casa - tem agora
dois admiradores enternecidos pelas suas
belas palavras, de coração doce - só o seu.
Beijinhos da D. Ruta
e cumprimentos meus
Gostavo Frederich
De Francisco Parreira a 13.11.2007 às 01:57
Adoro vir ler e andar por aqui, nestas paginas
onde mora a cultura.
Maria José Rijo tem uma alma linda.
E escreve como ninguém.
Parabéns por este blog on-line.
Seu amigo
Francisco Parreira
De Flor do Cardo a 13.11.2007 às 11:38
Gostei desta sua colecção de Rezas e Benzeduras.
Toda a minha familia tem um exemplar deste seu livro. É realmente uma maravilha.
Agora queria dizer-lhe que gostei imenso da
carta do Dr. Helder - e cá de longe espero mesmo que o Jornal Linhas de Elvas leve "adelante"
tão justa ideia.
Se o meu amigo Ernesto estivesse vivo certamente
esta ideia teria saído da sua cabeça lucida e
justa.
Oh caramba que saudades tenho do Ernesto!
Com amizade
A Flor do Cardo
De Horácio Gomes a 13.11.2007 às 13:42
é uma delicia, uma alegria poder ter
acesso aos seus textos.
São mesmo bons - acredite - eu - seu admirador
não deixo de vir a este espaço - onde me sinto
felizmente Bem.
Os meus cumprimentos
Horácio Gomes
De Luis carlos Presti a 13.11.2007 às 13:46
Parabéns pelo seu blog, por estes belos textos
que me trazem à lembraça a saudade do passado que
do alentejo sinto.
Os meus Parabéns por alegrar os meus dias.
L.C. Presti

