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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Carta do Brasil – III

            Muitas outras pessoas têm vindo e virão ao Brasil.

            Por negócios, por lazer, por motivos diversos.

Quase todas, ou muitas delas visitam em pormenor as grandes cidades, as belas praias, o pantanal e, tudo quanto se visite sempre ficará como recordação indelével.

A mim coube-me a sorte de ficar instalada numa região protegida ecologicamente.

Aqui, quem tiver que arrancar uma árvore nativa tem que plantar cinco da mesma espécie!

Neste fim de mundo, por estradas de pioneiros, passa periodicamente o carro de recolha de lixo e, ainda não vi, nas matas, nos riachos, em parte alguma, uma lata de cerveja vazia, um papel, um saco de plástico!... E tenho palmilhado extensões enormes.

A região ao contrário do que me pareceu à primeira vista, é povoadíssima. Acontece que a vegetação encobre as casas e a área por que se disseminam é muito extensa. Com surpresa para mim constituem-se assim em povoados.

Curiosa e muito interessante é a maneira como se anunciam e “previnem”, quem passa, da sua existência.

Fazem-no por cartazes e tabuletas, às vezes simples, quase sempre belas e artísticas.

Fica-se por vezes com a sensação de que o Município – a Perfeitura – como cá se designa – paternalmente dá a mão a quem por aqui se aventure ou habite.

Numa curva duma estrada, no meio da vegetação pode aparecer uma advertência absolutamente impensável em qualquer outra parte, por ex: “use a primeira marcha”.

Muito interessante também é a acentuada influência de outros países na formação das cidades. Algumas que já vi são nitidamente micro-países implantados neste Brasil de dimensões sem medida. Penedo – por exemplo: fundado em 1929 por Finlandeses – começou numa antiga fazenda de café, já improdutiva, porque exausta a terra pela monocultura. Oitenta a cem pessoas lideradas por Toivo Uuskallio, naturalista finlandês, repovoaram o espaço com árvores de fruto e espécies nativas, dedicaram-se ao artesanato, compotas, cultivo de plantas medicinais e enriqueceram a cultura brasileira introduzindo aqui os seus costumes. Foi graças a essa gente que Penedo se tornou berço da flora no Brasil e as pessoas entenderam e aceitaram o lema que os guiava: “Viver de acordo com a natureza”.

Outra zona particularmente bela e diferente é Campos de Jordão nos vales e encostas do Itapeva (cá está outra vez ITA = a grande em Tupiguarani). O Pico do Itapeva tem 2030 metros de altitude.

Campos de Jordão reúne três cidades Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. Aqui a influência escocessa e alemã – são evidentes bem como a suiça – até nos nomes dos hotéis, pousadas, restaurantes, cujo número excede os setente, fora cantinas, pizzarias, etc, etc.

É na verdade uma impressionante e linda estância de turismo.

 

É lá que gira “a tal” Maria Fumaça – a maquininhq a vapor de 1893 – que recuperada lá vai puxndo o “trenzinho” e eternamente foi apelidada de “Vóvó Hortência”.

A propósito de apelidar tudo a torto e a direito, um apontamento engraçado. Procurava eu, numa das lojas aqui de Resende, um creme para me defender do sol da montanha, quando uma crioulinha muito graciosa entra e diz:

---- Oi! – Mi dá aí P.H?

---- Qui cô você qué? – Perguntou o dono da loja

---- Marélinho.

E, frente ao meu divertido espanto lá saiu a garota com uma embalagem de papel higiénico na cor requerida.

Também na semana passada quando estive no Rio instalada em casa de familiares na Barra da Tijuca, vivi momentos de beleza que nem vou tentar descrever.

Via das nossas janelas nascer o sol por detrás do Pão de Açúcar e, à direita, tinha o calçadão e o oceano imenso logo ali a meus pés, a falar-me dos laços indeléveis que unem os nossos povos.

Á noite, a praia imensa e iluminada como se fora dia.

O proprietário do apartamento (advogado muito conhecido aqui) quando se apercebeu que um Ministro tinha mandado retirar, em Brasília, aquela célebre bandeira de dimensões imensas – pôs uma acção contra a decisão governamental e – ganhou!

Aqui está uma verdadeira “coraçonada “ á portuguesa.

            Aliás, ele é casado com uma patrícia nossa.

Aproveito para confessar que jamais pensei que o Rio pudesse ser o que é e, como é.

Não tenho sequer, definições.

Emudece-me a beleza natural – mas também – a visão indisfarçável da “Rocinha” a maior “favela” da América Latina – com 300.000 habitantes.

Comove-me o rasto indelével dos portugueses.

Perante a minha confissão de ter achado o Rio feio visto de avião – foi-me explicado que entrando por aquele voo que eu fiz, toda a gente é levada a dizer o mesmo. O que não acontece a quem vier por S. Paulo.

Vou andar por aqui, se Deus quiser, até Junho.

Talvez volte a escrever, talvez não.

O serviço de distribuição postal aqui é caótico.

O Brasil é um país de contrastes clamorosos.

Tinha que ser assim, dadas as suas dimensões e a disparidade de desenvolvimento de umas zonas para as outras.

Só este Estado tem mais população do que Portugal inteiro. Falam-me em 12,13 milhões...

Há extensões maiores do que o Alentejo inteiro, só cobertas por de capim.

Conta-se que um político japonês (de quem rezam o nome) visitando o País por convite governamental, com aquela subtil ironia, própria dos orientais, perguntou ao parceiro ministro que o acolitava: “No Brasil é proibido cultivar a terra? “.

A minha visita ao Rio foi – por sorte minha – feita de contrastes.

Hóspede de gente abastada, fidalga no trato, foi-me mostrado o melhor de cada coisa deslocando-me em bons carros com companheiros conhecedores do meio. Depois, quis, por minha decisão mergulhar no “povão” – usando transportes públicos e mudando de “ônibus” sempre a entrar pela porta da frente usando o benefício expresso em letras bem visíveis na carroçaria:

“Gratis a maiores de 65 anos

              Estudantes uniformizados

             Crianças e deficientes”.

Aí, aprende-se vivendo circunstância, que as pessoas são generosos (dão o lugar aos mais velhos...) afáveis colaborantes e, até cheios de humor.

Os vendedores de rua, que surgem como formigas, de tudo quanto é lado, entram frequentemente também pela porta da frente – por condescendência dos condutores (colher de chá, como aqui dizem que só dão os que não têm espirito de porco!) – e percorrem o corredor central das viaturas anunciando os seus produtos e saindo pela porta de trás.

Fazem-no quase em surdina numa melopeia engraçada, por exemplo:

            “Olha p´rá distráir a fôme até chegá o chocólatchi, dá

               Alimento, aquéci.

               Um vale um réau

               Dois vale réau e meio

               Si você próvá qui tem salário minimo é di graça.

               Também nâ chêga p´rá nada mêmo! “

Ninguém comprou, saiu dizendo:

               “Ó minha Nossa! – Vida gosada! – Não é qu´é mêmo só diabético!”.

Assim por aí fora – Um baráto – como eles próprios diriam.

A Avenida onde os idosos se passeiam e sentam ao sol é o – “aposentadromo”, O quiosque das goludices é a “chicléteria”.

Mas a definição da zona onde assentei arraiais é, no guia turístico referida assim por Helena Reis:

            “Falar de uma região santuário ecológico é:

             murmurar com as águas, cantar com os pássaros,

             ser doce como o mel das  abelhas e sair beijando flores.

             É sobretudo, agradecer a dádiva da natureza e preservá-la”.

E... é verdade!

É verdadgi Mêmo!

 

                                                     Maria José Rijo

@@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.355 – 14/6/96

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